Quem disse que os dons cessaram? A Bíblia certamente não!
Há perguntas que a igreja não deveria responder com base naquilo que experimentou, mas naquilo que está escrito. A questão da continuidade dos dons espirituais é uma delas. Durante muito tempo, o debate entre cessacionistas e continuístas foi conduzido como se houvesse apenas duas alternativas: de um lado, aceitar todo tipo de manifestação atribuída ao Espírito Santo, sem discernimento, critério ou submissão às Escrituras; de outro, concluir que dons como profecia, línguas, interpretação e curas pertenciam exclusivamente ao período apostólico e desapareceram com o encerramento daquela era. Essa polarização, porém, é desnecessária. É perfeitamente possível rejeitar os excessos cometidos em nome do Espírito sem rejeitar os dons do Espírito; defender vigorosamente a suficiência das Escrituras sem afirmar aquilo que as próprias Escrituras não afirmam; e reconhecer que existem abusos no meio carismático sem transformar o abuso de uma dádiva em argumento para a inexistência da dádiva. Afinal, falsos mestres não nos fizeram abandonar o ensino, falsas conversões não nos fizeram abandonar o evangelismo e orações equivocadas não nos fizeram abandonar a oração. Por que, então, manifestações equivocadas dos dons deveriam provar que os dons verdadeiros desapareceram?
Wayne Grudem começa sua discussão reconhecendo exatamente o ponto em disputa. Há cristãos que entendem que todos os dons mencionados no Novo Testamento permanecem disponíveis à igreja, enquanto outros sustentam que determinados dons mais extraordinários — especialmente profecia, línguas, interpretação, curas e manifestações semelhantes — foram concedidos para autenticar os apóstolos durante o período inicial da proclamação do evangelho e, consequentemente, desapareceram com o fim da era apostólica. A questão, portanto, não é se os dons um dia cessarão. Nesse ponto, Paulo é suficientemente claro: profecias desaparecerão, línguas cessarão e o conhecimento parcial passará. A verdadeira questão é outra: quando isso acontecerá? É justamente aqui que 1Coríntios 13.8-13 se torna decisivo. O debate não deveria começar perguntando se gostamos ou não das manifestações carismáticas contemporâneas, nem relatando experiências positivas ou negativas que tivemos em ambientes pentecostais. A pergunta deve ser exegética: qual foi o momento determinado por Paulo para a cessação daquilo que é parcial?
Sim, os dons cessarão — mas quando?
Curiosamente, o continuísta não precisa negar que os dons cessarão. Pelo contrário, pode afirmar isso tranquilamente, porque Paulo o afirma. “Havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo conhecimento, passará” (1Co 13.8). Portanto, não existe qualquer necessidade de defender uma permanência eterna dos dons. Eles pertencem à presente condição da igreja peregrina. São provisões divinas para um povo que ainda caminha pela fé, ainda não vê o Senhor face a face e ainda conhece em parte. O ponto crucial aparece logo depois: “porque conhecemos em parte e profetizamos em parte. Quando, porém, vier o que é perfeito, então o que é parcial passará” (1Co 13.9-10). O texto fornecido chama atenção para a repetição da expressão grega ek merous, “em parte”, “parcialmente”, ligando diretamente nosso conhecimento presente e a profecia à condição incompleta desta era. Os dons são temporários não porque sejam defeituosos como dádivas de Deus, mas porque servem a uma igreja que ainda vive em uma condição escatologicamente incompleta.
Isso muda significativamente a pergunta. Paulo não está discutindo primeiramente a formação do cânon, a morte do último apóstolo ou a maturidade institucional da igreja. Seu contraste fundamental é entre o agora e o depois, entre nossa condição presente e aquilo que acontecerá quando vier “o perfeito”. Hoje conhecemos parcialmente; depois conheceremos de outra maneira. Hoje enxergamos obscuramente; depois veremos face a face. Hoje precisamos daquilo que pertence à nossa peregrinação; então chegaremos à consumação. Os dons, portanto, são provisórios precisamente porque a presente era é provisória. Eles pertencem ao tempo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. São ferramentas para a igreja que espera, serve, testemunha, sofre, evangeliza e edifica enquanto aguarda seu Senhor.
Há ainda uma beleza pastoral nesse argumento que facilmente desaparece quando transformamos 1Coríntios 13 apenas em munição para uma controvérsia. Paulo não escreveu esse capítulo simplesmente para estabelecer uma cronologia dos dons. Seu grande propósito é mostrar a supremacia do amor. A discussão sobre dons em 1Coríntios 12 desemboca no capítulo 13 e continua no capítulo 14. O amor está no centro porque dons sem amor podem produzir barulho religioso sem edificação espiritual. Podemos buscar os dons e, ao mesmo tempo, buscá-los pelas razões erradas. Podemos desejar manifestações espirituais para sermos vistos, admirados ou considerados mais espirituais que os outros. É por isso que o apóstolo coloca tudo debaixo da supremacia do amor: os dons são importantes, mas o amor é maior; os dons são temporários, mas o amor é eterno. O material de Grudem ressalta precisamente que o argumento de Paulo consiste em contrastar aquilo que permanece para sempre com os dons, que possuem uma função temporária.
O “perfeito” não é a Bíblia
Uma das interpretações mais conhecidas dentro de determinadas formas de cessacionismo afirma que “quando vier o que é perfeito” refere-se à conclusão do cânon do Novo Testamento. Segundo essa leitura, enquanto as Escrituras ainda estavam sendo produzidas, a igreja necessitava de determinados meios revelacionais; uma vez concluído o cânon, esses dons teriam perdido sua função. É importante reconhecer que essa posição geralmente nasce de uma preocupação legítima: preservar a autoridade, a suficiência e a finalidade das Escrituras. Essa preocupação deve ser compartilhada pelos continuístas. Nenhuma profecia contemporânea, impressão espiritual, sonho, visão ou manifestação pode ser colocada no mesmo nível da Escritura, acrescentar doutrina ao depósito apostólico ou funcionar como uma espécie de “Bíblia 2.0”. Nesse ponto, qualquer continuísmo responsável precisa estabelecer limites claros. Entretanto, uma preocupação teológica legítima não pode determinar antecipadamente a interpretação de um texto. A pergunta continua sendo: Paulo estava falando sobre o fechamento do cânon em 1Coríntios 13?
O problema é que nada no contexto imediato menciona o fechamento do cânon. Não há referência à conclusão dos escritos apostólicos, à reunião dos livros do Novo Testamento ou ao momento em que a igreja possuiria todas as Escrituras. Essas ideias precisam ser introduzidas no texto a partir de fora. Robert L. Reymondem em What about continuing revelations and miracles in the Presbyterian Church today?, diz que os elementos “imperfeitos” seriam meios incompletos de revelação e, consequentemente, “o perfeito” deveria ser um meio completo de revelação, identificado com o processo revelacional que culminou nas Escrituras. Grudem considera o raciocínio coerente internamente, mas chama atenção para sua pressuposição determinante: é preciso primeiro assumir que a profecia congregacional neotestamentária possui necessariamente autoridade equivalente à Escritura para então chegar à conclusão de que sua existência seria incompatível com um cânon completo.
Em outras palavras, a conclusão depende daquilo que primeiro precisaria ser demonstrado. E existe uma dificuldade ainda maior. Paulo explica o que acontecerá quando chegar “o perfeito” utilizando expressões extraordinariamente fortes: “então veremos face a face” e “então conhecerei plenamente, assim como também sou conhecido plenamente”. O argumento apresentado por Grudem é que essa linguagem se encaixa muito mais naturalmente na consumação escatológica do que no fechamento do cânon. O apóstolo não está dizendo que possuirá uma Bíblia completa em suas mãos; está apontando para o dia em que a presente condição de conhecimento parcial será superada pela presença de Cristo. A linguagem de ver “face a face”, considerada à luz de seu pano de fundo bíblico, aponta para um encontro pessoal com Deus. É a esperança que alcança sua expressão final em Apocalipse 22.4: “contemplarão a sua face”.
Aqui surge uma pergunta desconfortável para a interpretação que identifica “o perfeito” com o cânon completo: nós realmente conhecemos hoje como somos conhecidos? A posse das Escrituras completas fez com que nossa percepção deixasse de ser parcial? Deixamos de enxergar “como por espelho, obscuramente”? Certamente não. Temos algo que Paulo e os primeiros cristãos ainda não possuíam em sua forma final: o cânon completo do Novo Testamento. E devemos agradecer profundamente a Deus por isso. Mas continuamos esperando. Continuamos caminhando pela fé. Continuamos sujeitos a interpretações equivocadas, limitações, fraquezas e incompreensões. A condição descrita como “face a face” ainda está diante de nós. Grudem ainda argumenta sobre Martyn Lloyd-Jones: identificar “o perfeito” com o fechamento do cânon produziria a estranha implicação de que nós, simplesmente por possuirmos o Novo Testamento completo, estaríamos numa condição de conhecimento superior à do próprio apóstolo Paulo.
Se Cristo ainda não voltou, por que declarar encerrado aquilo que Paulo colocou até sua volta?
É aqui que o argumento se torna particularmente forte. Se “o perfeito” aponta para a volta de Cristo, então Paulo localiza a cessação dos dons não no final do primeiro século, mas na consumação. Grudem parafraseia o argumento de 1Coríntios 13.10 desta maneira: quando Cristo voltar, profecia, línguas e os demais dons parciais passarão. Sua conclusão é igualmente explícita: isso implica que tais dons continuam sendo úteis à igreja durante a era presente, inclusive hoje, até o dia em que Cristo retornar.
Essa conclusão encontra um paralelo significativo no início da própria carta. Em 1Coríntios 1.7, Paulo diz aos coríntios: “não lhes falta nenhum dom, enquanto aguardam a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo”. A relação é impressionante. A igreja possui os charismata enquanto aguarda a manifestação de Cristo. Os dons pertencem, portanto, à igreja que espera. Não são apresentados apenas como andaimes utilizados durante a construção inicial do edifício e posteriormente descartados; são provisões concedidas à comunidade cristã durante sua peregrinação escatológica. O material de Grudem interpreta esse texto como um paralelo importante de 1Coríntios 13: os dons equipam os cristãos para o ministério enquanto aguardam a volta do Senhor.
É preciso, contudo, evitar uma conclusão maior do que a evidência permite. Demonstrar que 1Coríntios 13 não ensina a cessação dos dons no fechamento do cânon não resolve automaticamente todas as questões relacionadas ao continuísmo. Ainda precisamos discutir o que é profecia no Novo Testamento, como ela se relaciona com a autoridade das Escrituras, o que significa falar em línguas, como os dons devem ser avaliados, quais critérios regulam seu exercício e como distinguir uma manifestação genuína de entusiasmo humano, manipulação religiosa ou erro. Uma teologia continuísta madura não deveria fugir dessas perguntas. Pelo contrário, deve enfrentá-las precisamente porque leva os dons a sério. Dizer “os dons continuam” é apenas o começo da conversa, não o fim. Nos próximos artigos falarei sobre o dom de profecia com detalhes.
Continuidade não significa credulidade
Aqui precisamos conversar pastoralmente com nosso próprio campo. Defender a continuidade dos dons não significa autenticar automaticamente tudo aquilo que alguém chama de manifestação espiritual. Nem toda emoção intensa é presença do Espírito. Nem todo arrepio é unção. Nem toda frase iniciada com “Deus me revelou” veio de Deus. Nem toda reunião barulhenta é avivamento, assim como nem toda reunião silenciosa é reverente. A igreja não recebeu autorização para trocar discernimento por entusiasmo. O mesmo Paulo que diz “não apaguem o Espírito” imediatamente acrescenta: “não desprezem as profecias; examinem todas as coisas, retenham o que é bom” (1Ts 5.19-21). Observe o equilíbrio apostólico: não apagar, não desprezar, examinar e reter. Esse equilíbrio é muito mais difícil do que simplesmente aceitar tudo ou rejeitar tudo.
Por isso, o continuísmo saudável precisa andar de mãos dadas com uma robusta doutrina das Escrituras. A Bíblia permanece nossa única regra infalível de fé e prática. Nenhuma manifestação espiritual possui autoridade para corrigir a Escritura, acrescentar novas doutrinas ao evangelho ou obrigar universalmente a consciência cristã como a Palavra inspirada de Deus. A continuidade dos dons não implica continuidade do apostolado fundacional nem abertura do cânon. Efésios 2.20 descreve a igreja edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo Cristo como pedra angular. Fundamentos não são lançados repetidamente. Portanto, defender que o Espírito continua distribuindo dons não exige que imaginemos novos apóstolos escrevendo novas Escrituras ou novos profetas competindo com Isaías, Paulo ou João. Essa distinção precisa ser preservada se quisermos construir uma pneumatologia biblicamente responsável.
Da mesma maneira, a centralidade do Espírito Santo jamais pode ser separada da centralidade de Cristo. O Espírito não veio estabelecer um espetáculo paralelo ao evangelho. Ele glorifica Cristo, edifica a igreja, distribui dons soberanamente e capacita o povo de Deus para o serviço. Por isso, a pergunta mais madura não é simplesmente: “Houve manifestação?” A pergunta é: Cristo foi glorificado? A igreja foi edificada? A Palavra permaneceu soberana? Houve amor? Houve ordem? Houve discernimento? Paulo não opõe Espírito e ordem em 1Coríntios 14; ele exige ambos. A mesma igreja que é instruída a desejar os dons espirituais também recebe a ordem de fazer tudo “com decência e ordem” (1Co 14.40). Espontaneidade não é sinônimo de desordem, e ordem não precisa significar ausência de manifestação espiritual.
Talvez o problema não seja o silêncio de Deus, mas nossa teologia do Espírito
Existe uma ironia que merece nossa atenção. Alguns cristãos reconhecem sem dificuldade que Deus continua salvando, santificando, consolando, guiando, respondendo orações, fortalecendo missionários e agindo providencialmente na história, mas ficam profundamente desconfortáveis diante da possibilidade de que o Espírito continue distribuindo determinados dons mencionados explicitamente no Novo Testamento. Evidentemente, desconforto não é argumento teológico. A pergunta não é aquilo com que estamos acostumados, mas aquilo que podemos demonstrar biblicamente.
Também seria injusto caricaturar nossos irmãos cessacionistas como pessoas que não creem na atuação do Espírito Santo. Muitos deles possuem profunda piedade, sólida teologia, compromisso missionário e uma compreensão robusta da providência e da atuação soberana de Deus. O debate precisa ser conduzido com respeito. A discordância está em um ponto mais específico: existe fundamento bíblico suficiente para afirmar que determinados dons foram retirados da igreja antes da volta de Cristo? E, particularmente em 1Coríntios 13, o argumento analisado por Grudem indica que não.
Isso é importante porque o ônus da prova não pode ser ignorado. Se o Novo Testamento ordena “procurai, com zelo, os dons espirituais” (1Co 14.1), “procurai abundar neles, para a edificação da igreja” (14.12), “procurai, com zelo, profetizar e não proibais falar em línguas” (14.39), então a afirmação de que algumas dessas instruções deixaram de ser aplicáveis exige fundamento bíblico consistente. Não basta argumentar que houve abusos, porque Paulo escreveu 1Coríntios justamente para uma igreja em que havia abusos. E é profundamente instrutivo observar sua resposta pastoral: diante do abuso dos dons, Paulo não ordenou a extinção deles; ordenou sua correção.
Corinto tinha problemas suficientes para fazer qualquer pastor perder algumas noites de sono. Havia competição, imaturidade, desordem e manifestações sendo utilizadas de maneira inadequada. Mesmo assim, Paulo não escreveu: “Irmãos, diante de tanta confusão, parem com tudo”. Ele ensinou. Regulamentou. Corrigiu. Colocou o amor no centro. Estabeleceu critérios de edificação. Exigiu ordem. E, depois de tudo isso, ainda disse: “não proibais falar em línguas”. Talvez haja aqui uma lição pastoral importante para nosso tempo: o remédio bíblico para o abuso não é o abandono, mas a reforma.
Não precisamos escolher entre Palavra e Espírito
Talvez uma das maiores tragédias da história recente da igreja seja a falsa oposição entre igrejas “da Palavra” e igrejas “do Espírito”. Essa divisão é teologicamente insustentável. Quem inspirou a Palavra? O Espírito. Quem ilumina a mente para compreendê-la? O Espírito. Quem aplica a obra de Cristo ao coração? O Espírito. Quem distribui dons à igreja? O mesmo Espírito. Portanto, não existe cristianismo autenticamente bíblico que obrigue a igreja a escolher entre Escritura e Espírito Santo.
Precisamos de igrejas profundamente bíblicas e genuinamente abertas à atuação do Espírito; igrejas capazes de estudar cuidadosamente uma palavra grega em 1Coríntios 13 e, ao mesmo tempo, dobrar os joelhos pedindo que Deus manifeste seu poder; igrejas que conheçam teologia sistemática, mas também saibam orar pelos enfermos; igrejas que não sejam enganadas por charlatães, mas também não transformem prudência em incredulidade prática; igrejas que saibam dizer “isso não é bíblico” quando necessário e, com a mesma convicção, dizer “não apaguem o Espírito”.
O continuísmo que precisamos não é triunfalista. Não promete milagres sob demanda. Não transforma dons em mercadoria. Não mede espiritualidade pelo volume do culto. Não cria uma elite dos “ungidos”. Não substitui pregação por espetáculo. Não permite que alguém utilize “Deus me disse” como mecanismo de controle sobre a consciência de outro cristão. Não diminui o sofrimento, não culpa automaticamente o enfermo pela ausência de cura e não transforma a soberania divina numa máquina previsível. Precisamos de um continuísmo bíblico, cristocêntrico, pastoral, criterioso e humilde.
Até que Ele venha
No fim das contas, a questão dos dons é também uma questão de escatologia. Vivemos entre o “já” e o “ainda não”. Cristo já ressuscitou, mas ainda aguardamos nossa ressurreição. O Reino já foi inaugurado, mas ainda aguardamos sua consumação. O Espírito já foi derramado, mas ainda aguardamos a redenção completa de nosso corpo. Já conhecemos Deus verdadeiramente, mas ainda conhecemos em parte. Já vemos a glória de Cristo pela fé, mas ainda não o vemos face a face.
É exatamente nesse intervalo que os dons fazem sentido.
- Eles pertencem a uma igreja peregrina.
- A uma igreja que conhece em parte.
- A uma igreja que ainda necessita de edificação.
- A uma igreja que geme.
- A uma igreja que evangeliza.
- A uma igreja que sofre.
- A uma igreja que ora.
- A uma igreja que espera.
Quando Cristo voltar, não precisaremos mais dos sinais que pertencem à peregrinação porque teremos chegado ao destino. Não precisaremos daquilo que é parcial porque estaremos diante daquele que é perfeito. Não veremos mais obscuramente, como por espelho, mas face a face. A esperança dará lugar à visão. A fé encontrará seu objeto diante dos olhos. E os dons terão cumprido sua missão.
Mas Cristo ainda não voltou.
Essa talvez seja a frase mais simples e, ao mesmo tempo, mais provocativa de toda essa discussão. Se Paulo relaciona a passagem daquilo que é parcial com a chegada da consumação; se associa nosso presente conhecimento parcial à futura visão “face a face”; se descreve os charismata como pertencentes à igreja enquanto ela aguarda a revelação de Jesus Cristo; então devemos ter muito cuidado antes de anunciar o encerramento de algo cujo término o apóstolo colocou no horizonte da volta do Senhor.
Sim, os dons cessarão.
Mas não fomos nós que recebemos autoridade para antecipar a data de sua cessação.
Até lá, nossa responsabilidade não é inventar manifestações, nem falsificar experiências, nem aceitar qualquer coisa em nome do Espírito. Também não é apagar aquilo que Deus deseja fazer em sua igreja. Nossa responsabilidade é mais difícil e mais bonita: buscar os dons sem abandonar o amor; desejar a atuação do Espírito sem diminuir a suficiência das Escrituras; exercer discernimento sem cair no medo; cultivar ordem sem sufocar a vida; testar tudo sem desprezar aquilo que é genuíno.
A igreja não precisa escolher entre verdade e poder, Escritura e Espírito, doutrina e experiência. Precisamos da Palavra que o Espírito inspirou e do Espírito que age conforme a Palavra.
E continuaremos precisando até que Ele venha.
Referências para aprofundamento
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova. Especialmente a discussão sobre a continuidade e cessação dos dons espirituais e a interpretação de 1Coríntios 13.8-13.
BÍBLIA SAGRADA. 1Coríntios 1.7; 12–14; 1Tessalonicenses 5.19-21; Efésios 2.20; Apocalipse 22.4.
Para compreender adequadamente o debate, também é proveitoso observar que o próprio material de Grudem dialoga com representantes da posição cessacionista, particularmente Robert L. Reymond, Walter Chantry e Richard Gaffin, procurando responder a seus argumentos exegéticos em vez de simplesmente descartá-los. Essa abordagem é importante: divergências entre cristãos comprometidos com a autoridade bíblica devem ser tratadas com exegese cuidadosa, argumentos verificáveis e caridade cristã, não com caricaturas.
Soli Deo gloria







