Como viveremos – quem está formando sua mente?

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” — Romanos 12.2

Vivemos em um tempo em que ninguém precisa mais declarar abertamente que não quer Deus. Basta construir uma sociedade na qual Deus deixe de ser necessário. A cultura contemporânea é marcada por elementos como a pós-modernidade, o relativismo, a pós-verdade e a valorização da experiência pessoal. Somos constantemente ensinados a acreditar que não existe uma verdade absoluta, que cada pessoa possui sua própria verdade, que nossas escolhas pertencem exclusivamente à esfera individual e que ninguém deveria interferir na maneira como decidimos viver. Ao mesmo tempo, a religião é frequentemente empurrada para o âmbito privado, como se a fé pudesse ser tolerada desde que permanecesse dentro das quatro paredes da igreja e não tivesse influência sobre a maneira como pensamos a respeito da política, da educação, da família, da sexualidade, da moralidade, do trabalho ou da vida pública. Entretanto, a fé cristã nunca foi apresentada nas Escrituras como uma experiência restrita ao espaço religioso. O evangelho alcança a totalidade da existência humana, porque Cristo não é Senhor apenas do culto que prestamos no domingo; ele é Senhor da nossa mente, dos nossos relacionamentos, das nossas decisões, dos nossos valores e de toda a nossa existência.

É justamente aqui que encontramos uma questão fundamental: a maneira como pensamos determina, em grande medida, a maneira como vivemos. Por isso, precisamos perguntar honestamente: nossa fé tem moldado nossos pensamentos e, consequentemente, nossas ações? Vivemos em uma cultura que nos ensina a consumir antes de nos ensinar a agradecer, a buscar realização antes de buscar santidade, a defender nossos direitos antes de reconhecer nossos deveres, a seguir nossos sentimentos antes de examinar nossos desejos e a perguntar “o que eu quero?” antes de perguntar “o que Deus quer?”. O mais perigoso, porém, é que essa formação cultural raramente acontece por meio de grandes discursos filosóficos. Ela acontece de maneira muito mais silenciosa e cotidiana: nas músicas que ouvimos, nos filmes e séries que assistimos, nos vídeos que consumimos, nas redes sociais que acessamos diariamente, nas propagandas que determinam o que aparentemente precisamos para sermos felizes, nos influenciadores que admiramos, nas conversas que mantemos, na escola, na universidade, no ambiente profissional e até mesmo nas expressões que repetimos sem perceber a visão de mundo que carregam. Muitas vezes ninguém precisa nos convencer diretamente de uma determinada ideia; basta repeti-la tantas vezes que ela deixe de parecer uma ideia e passe a parecer simplesmente a realidade. A cultura não apenas nos ensina o que pensar; ela também nos ensina aquilo que devemos considerar normal.

É nesse contexto que devemos compreender a proposta da série “Como Viveremos? — O desafio de ser cristão na era da pós-modernidade”. Não estamos tentando construir uma igreja assustada com a cultura, tampouco uma comunidade cristã escondida em uma espécie de bolha religiosa. Também não estamos simplesmente procurando motivos para reclamar do mundo. A pergunta é muito mais séria: como um cristão permanece fiel a Cristo quando vive em uma cultura que pensa de maneira cada vez mais diferente da fé cristã? Como devemos criar nossos filhos? Como escolhemos nossos valores? Como discernimos aquilo que devemos aceitar e aquilo que precisamos rejeitar? Como podemos estar no mundo sem permitir que o mundo determine aquilo que pensamos, amamos e fazemos? Na primeira mensagem, voltamos ao Éden e refletimos sobre “A Primeira Grande Mentira”, percebendo que a queda começou antes de o fruto ser tomado, pois a serpente começou atacando a maneira como o ser humano pensava sobre Deus. Na segunda mensagem, avançamos na história e observamos o que acontece quando Deus deixa de ocupar o centro da cosmovisão humana: Deus é substituído pela razão, a razão pelo homem, o homem pelo eu e, cada vez mais, o eu pelos próprios sentimentos. Agora precisamos avançar um passo e perguntar: como essas ideias chegaram até nós? Como uma ideia filosófica se transforma em comportamento? Como aquilo que começa nas universidades chega às nossas casas? Como uma visão de mundo que nunca estudamos conscientemente começa a determinar nossas escolhas, nossos desejos, nossos medos e até aquilo que consideramos normal? A resposta é simples, mas profundamente inquietante: alguém está formando a nossa mente.

Você pode nunca ter estudado filosofia, mas alguém está ensinando você a pensar. Pode nunca ter lido um livro sobre pós-modernidade, mas está diariamente exposto a uma visão pós-moderna de mundo. Pode nunca ter estudado formalmente o relativismo moral, mas pode ter aprendido a viver como se cada pessoa pudesse estabelecer sua própria verdade. Pode nunca ter estudado a ideia de autonomia humana, mas pode ter aprendido a acreditar que ninguém possui autoridade para dizer como você deve viver. A ausência de uma formação consciente não significa ausência de formação. É justamente por isso que Paulo escreve aos cristãos de Roma: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12.2). Observe a profundidade da linguagem do apóstolo. Paulo não diz simplesmente: “Não façam as coisas que o mundo faz”. Ele vai muito mais fundo. Ele fala de conformação e transformação, colocando a mente no centro desse processo. Existe uma pressão para nos conformarmos ao padrão deste século, mas existe também uma ação transformadora de Deus que alcança nossa maneira de pensar. Por isso, a pergunta fundamental não é apenas “o que você está fazendo?”, mas uma pergunta anterior e muito mais profunda: “Quem está formando a maneira como você pensa?” Antes de uma pessoa viver de determinada maneira, ela aprende a pensar daquela maneira; antes de uma criança defender determinada ideia, alguém ensinou aquela criança a enxergar o mundo daquela forma; antes de uma sociedade mudar seu comportamento, alguma coisa mudou na maneira como essa sociedade compreendia a verdade, a moral, o homem e a realidade.

Não vos conformeis com este século

Paulo começa Romanos 12.2 com uma ordem clara: “E não vos conformeis com este século.” Antes de falar sobre transformação, ele fala sobre conformação. Antes de apresentar aquilo que Deus deseja produzir em nós, ele nos alerta sobre aquilo que está tentando nos moldar. A linguagem utilizada pelo apóstolo transmite a ideia de assumir uma forma, tomar o molde de alguma coisa. É como se houvesse um padrão colocado diante de nós e uma pressão constante para que nos encaixemos nele. Paulo está dizendo à igreja: não permitam que este século determine a forma da sua vida. Isso não significa que o cristão possa viver em um mundo sem influência, pois isso seria impossível. Significa que o cristão precisa discernir as influências que recebe e resistir àquelas que são contrárias à vontade de Deus. Quando Paulo fala de “este século”, ele não está simplesmente falando das pessoas que vivem ao nosso redor, da criação de Deus ou de tudo aquilo que existe fora da igreja. Ele está falando de uma ordem de pensamento, de valores, desejos e estruturas de uma humanidade que vive afastada de Deus. Existe uma maneira de pensar característica daqueles que estão distantes de Deus, uma maneira de compreender a verdade, a moralidade, a identidade e a própria realidade. O problema é que ninguém precisa conscientemente escolher esse padrão para começar a ser moldado por ele. A repetição transforma o estranho em normal.

Desde o Éden, o pensamento humano pecaminoso tende à valorização do eu. Em nossa cultura contemporânea, isso assume uma forma ainda mais intensa na hiper valorização dos sentimentos, da autoimagem e da realização individual. O discurso dominante frequentemente nos diz: “seja fiel a quem você é”, “siga seu coração”, “faça aquilo que faz você feliz”, “você define sua própria verdade”. Entretanto, Jesus apresenta uma lógica completamente diferente: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). O cristianismo não começa com a afirmação de que o eu deve ocupar o centro; começa com a convocação para que o eu seja submetido ao senhorio de Cristo. Essa diferença é decisiva. A cultura contemporânea pergunta: “O que você deseja?”. Cristo pergunta: “Você está disposto a me seguir?”. A cultura diz: “Seja fiel aos seus sentimentos”. O evangelho diz: “Seja fiel a Cristo”. A cultura afirma que nossa identidade deve ser descoberta dentro de nós mesmos; o evangelho nos conduz para fora de nós mesmos, para encontrarmos nossa verdadeira identidade em Deus.

Essa influência cultural aparece inclusive em áreas nas quais muitos cristãos imaginam estar pensando biblicamente. Pense, por exemplo, em uma mãe cristã que ensina seu filho desde pequeno a amar a Deus, mas que, quando ele chega à adolescência, começa a pensar: “Não quero impor minha fé a ele; quando crescer, ele decidirá no que acredita”. A ideia pode parecer respeitosa, moderna e até tolerante. Mas precisamos perguntar: de onde veio essa maneira de pensar? A Escritura orienta os pais a ensinarem seus filhos no caminho do Senhor, enquanto a cultura contemporânea frequentemente afirma que a religião é uma escolha estritamente privada e que os pais não deveriam formar a consciência religiosa de seus filhos. Sem perceber, aquela mãe pode continuar acreditando em Deus, frequentando a igreja e valorizando a Bíblia, mas já ter adotado uma categoria cultural para pensar a educação dos filhos.

O mesmo pode acontecer com nossa compreensão da moralidade. Um cristão pode começar a pensar: “Se duas pessoas concordam, se ninguém está sendo prejudicado e se isso faz bem aos dois, então não há nada de errado”. Parece razoável. Parece tolerante. Parece até uma posição madura. Entretanto, perceba a mudança: o critério da moralidade deixou de ser a vontade de Deus e passou a ser o consentimento e a ausência de dano aparente. A pergunta já não é “Deus considera isso certo?”, mas “quem está sendo prejudicado?”. A autoridade moral foi deslocada. E o mesmo acontece quando permitimos que nossos sentimentos assumam o lugar de autoridade. Uma pessoa pode enfrentar uma crise no casamento e concluir: “Eu não amo mais meu cônjuge. Meu coração mudou. Não sinto mais aquilo que sentia no começo. Se continuar nesse casamento, estarei sendo falsa comigo mesma”. Talvez continue acreditando em Deus, frequentando a igreja e orando, mas naquele momento surge uma pergunta fundamental: quem está determinando sua decisão — a Palavra de Deus ou o seu sentimento? A cultura ensina que os sentimentos são uma espécie de revelação interior: se sinto, deve ser verdade; se não sinto, deixou de ser verdadeiro. Mas a Bíblia nunca ensinou que todo sentimento é verdadeiro, nem que todo desejo merece ser obedecido. Pelo contrário, a Escritura nos manda examinar o coração, porque o coração humano foi afetado pelo pecado: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas” (Jr 17.9).

Aqui está uma das formas mais sutis pelas quais o mundo nos forma: primeiro, ele muda nosso critério de moralidade; em vez de perguntarmos “o que Deus diz?”, perguntamos “isso faz mal a alguém?”. Depois, muda nosso critério de verdade; em vez de perguntarmos “o que Deus diz?”, perguntamos “como eu me sinto?”. E, sem perceber, podemos continuar acreditando em Deus, mas deixar de pensar a partir de Deus. Esse é um dos maiores perigos para a igreja contemporânea. O perigo não é apenas o mundo convencer o cristão a praticar aquilo que o mundo pratica; o perigo é muito mais profundo: o mundo convencer o cristão a pensar como o mundo pensa. Por isso, precisamos fazer uma pergunta que não pode ser evitada: Deus é apenas alguém em quem você acredita ou é verdadeiramente o Senhor da sua vida? Existe uma diferença enorme entre acreditar que Deus existe e viver debaixo do senhorio de Deus. Podemos acreditar em Deus e continuar sendo senhores das próprias decisões; podemos orar a Deus e ainda assim não obedecer a Deus; podemos conhecer a vontade de Deus e continuar escolhendo a nossa própria vontade; podemos chamar Jesus de Senhor e, na prática, dizer: “Nesta área da minha vida, quem decide sou eu”.

Não existe coerência em dizer que Deus é Senhor apenas de determinadas áreas da nossa existência. Não podemos afirmar: “Deus é Senhor da minha salvação, mas não da minha sexualidade”; “Deus é Senhor da minha vida espiritual, mas não das minhas finanças”; “Deus é Senhor aos domingos, mas durante a semana eu faço as coisas do meu jeito”. Essas tentativas de separar a vida em compartimentos revelam uma compreensão inadequada do senhorio de Cristo. Ou Cristo é Senhor, ou não é. Como afirmou Abraham Kuyper, em sua conhecida declaração sobre a soberania de Cristo, “não há um único centímetro quadrado em todos os domínios de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: É meu!”. A afirmação de Kuyper expressa uma verdade profundamente bíblica: não existe uma área neutra da existência humana onde Cristo possa ser excluído. Nossa mente pertence a Cristo. Nossa família pertence a Cristo. Nosso trabalho pertence a Cristo. Nossa sexualidade pertence a Cristo. Nossos recursos pertencem a Cristo. Nossos relacionamentos pertencem a Cristo. Nossa vida pública pertence a Cristo.

Essa verdade também precisa orientar a maneira como discipulamos nossos filhos. Não basta dizer: “Meu filho, não pense assim”. Precisamos ensiná-los a pensar biblicamente. Não basta dizer: “Não veja isso”. Precisamos ajudá-los a compreender por que determinada coisa contradiz a Palavra de Deus. Não basta simplesmente retirar uma influência; precisamos apresentar a verdade. Se apenas retirarmos o mundo e não enchermos a mente com a verdade de Deus, teremos produzido apenas um vazio, e o vazio sempre será preenchido por alguma coisa. Por isso, Paulo não diz apenas: “Não vos conformeis”. Ele continua: “mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. O cristão não é chamado simplesmente a resistir ao molde deste século; é chamado a ser transformado.

A renovação da mente

O cristianismo não é apenas uma religião de proibições. Paulo não está dizendo simplesmente: “Não faça isso, não pense aquilo, não assista aquilo, não vá ali”. Se a vida cristã fosse apenas aprender uma lista de coisas que não podemos fazer, poderíamos até produzir pessoas comportadas, mas não necessariamente pessoas transformadas. O evangelho apresenta algo muito mais profundo: Deus quer transformar a pessoa a partir de dentro, começando pela mente. O evangelho não quer apenas modificar comportamentos; quer renovar nossa maneira de enxergar a realidade. A expressão “transformai-vos” aponta para uma transformação profunda, não para uma maquiagem espiritual. Não se trata de fazer algumas mudanças superficiais para parecer cristão, mas de uma transformação que alcança aquilo que somos e, a partir daí, começa a produzir uma nova maneira de viver. Deus não quer apenas que tenhamos comportamentos cristãos; ele quer formar em nós uma mente cristã, um coração cristão e uma vida coerente com nossa nova identidade em Cristo.

A transformação cristã começa na mente, mas não termina nela. O objetivo é que aquilo que conhecemos de Deus transforme aquilo que pensamos, aquilo que amamos, aquilo que desejamos e, finalmente, aquilo que fazemos. Uma mente renovada produz uma vida renovada. É justamente por isso que, depois de Romanos 12.2, Paulo passa a tratar de humildade, serviço, amor, relacionamento com os irmãos, submissão às autoridades, amor aos inimigos e vida prática. A mente renovada produz uma vida transformada. Somos influenciados pela família, pela cultura, pelos amigos, pela escola, pela igreja, pelos livros que lemos, pelos filmes que assistimos e pelas redes sociais que consumimos. Tudo aquilo que repetidamente ouvimos começa a construir dentro de nós uma maneira de interpretar a realidade. Por isso, quando Paulo fala da renovação da mente, está nos chamando a permitir que Deus reoriente aquilo que já foi formado em nós. A renovação começa quando a Palavra de Deus confronta nossa maneira de pensar. Jesus orou ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Palavra entra em nossa mente e começa a confrontar aquilo que aprendemos, corrigir aquilo que pensamos, desmascarar aquilo que chamávamos de normal, reorganizar aquilo que estava fora do lugar e ensinar-nos novamente a enxergar a vida a partir de Deus.

Talvez essa seja uma das partes mais difíceis da vida cristã: permitir que Deus mexa naquilo que aprendemos a chamar de “eu”. Muitas vezes chegamos diante da Bíblia querendo que ela confirme aquilo que já pensamos. Queremos que Deus abençoe nossas escolhas, aprove nossos desejos e concorde com nossa maneira de enxergar a vida. Mas a Palavra de Deus não foi dada para se conformar conosco; somos nós que precisamos ser conformados à Palavra de Deus. A Bíblia não existe para simplesmente dizer que estamos certos. Muitas vezes ela existe precisamente para mostrar onde estamos errados. Quando a Palavra confronta nossa mente, temos duas possibilidades: resistir e continuar pensando como sempre pensamos, ou nos render e permitir que Deus nos transforme. Deus não quer apenas melhorar a versão de nós mesmos que o mundo produziu. Ele quer formar em nós uma nova maneira de viver. Ele quer que olhemos para o casamento de maneira diferente, para os filhos de maneira diferente, para o dinheiro de maneira diferente, para o trabalho de maneira diferente, para o sofrimento de maneira diferente, para o sucesso de maneira diferente, para o nosso corpo de maneira diferente e até mesmo para nossos fracassos de maneira diferente. Quando Deus renova a mente, aquilo que antes parecia indispensável pode perder seu poder; aquilo que parecia pequeno pode adquirir valor eterno; aquilo que parecia normal pode ser reconhecido como pecado; e aquilo que parecia impossível pode ser recebido como vontade de Deus.

É por isso que a afirmação central desta série permanece tão importante: a forma como pensamos determina a forma como vivemos. Se nossa mente é moldada pelo mundo, nossa vida começará a tomar a forma do mundo. Se nossa mente é renovada por Deus, nossa vida começará a tomar a forma da vontade de Deus. E é justamente nesse ponto que Paulo apresenta o propósito da renovação: “para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). A ordem é importante. Primeiro, não nos conformamos. Depois, somos transformados. A transformação acontece pela renovação da mente. E então começamos a experimentar a vontade de Deus.

A boa, agradável e perfeita vontade de Deus

A vontade de Deus não é apresentada por Paulo como um peso destinado a destruir nossa vida, mas como algo bom, agradável e perfeito. A cultura frequentemente afirma que, se entregarmos nossa vida a Deus, perderemos nossa liberdade; o evangelho afirma que, quando nossa mente é renovada, descobrimos a boa vontade de Deus. O mundo diz: “Se você não seguir seus desejos, não será feliz”; o evangelho nos ensina: “Quando sua mente for renovada, você descobrirá que Deus sabe melhor do que você aquilo que é verdadeiramente bom”. Talvez tenhamos passado muito tempo tentando descobrir o que nos faria felizes. Talvez tenhamos seguido oportunidades, desejos, relacionamentos, dinheiro, reconhecimento e prazer, tomando decisões com base na pergunta: “O que me faz bem?”. Mas Romanos 12 nos conduz a uma pergunta muito melhor: “Senhor, o que é bom aos teus olhos?” Existe uma liberdade que o mundo não consegue oferecer: a liberdade de não ser governado pelos próprios desejos. Existe uma paz que não nasce de conseguir tudo o que queremos, mas de saber que estamos vivendo debaixo da vontade daquele que nos criou. Existe uma alegria que não depende de satisfazer cada impulso do coração, mas de descobrir que a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita.

A vontade de Deus é boa porque Deus não deseja aquilo que é mau para seus filhos. Podemos não compreender imediatamente o caminho que ele está nos conduzindo, e podemos até discordar inicialmente daquilo que ele está permitindo ou ordenando, mas a bondade de Deus não depende da nossa compreensão. Uma criança pequena pode não entender por que os pais dizem “não”. Pode não compreender por que não pode atravessar a rua sozinha ou colocar a mão no fogo. Para a criança, o limite pode parecer restrição; para os pais, o limite é proteção. Da mesma maneira, muitas vezes olhamos para os mandamentos de Deus e pensamos: “Por que Deus está me impedindo disso?”. Talvez uma pergunta melhor seja: “Do que Deus está me protegendo ao me impedir disso?” Deus conhece aquilo que nós não conhecemos. Ele vê aquilo que não conseguimos ver. Ele conhece o fim desde o princípio. Portanto, quando a Palavra de Deus confronta nossos desejos, não precisamos concluir que Deus está contra nós. Podemos confiar que sua vontade é boa.

A vontade de Deus também é agradável, mas isso não significa que Paulo esteja prometendo uma vida sem sofrimento. A vontade de Deus pode nos conduzir por caminhos difíceis. Pode envolver renúncia, sofrimento, perdão, perseverança e decisões que exigem coragem. Pode exigir que permaneçamos fiéis quando seria mais fácil desistir ou que digamos “não” quando todos estão dizendo “sim”. Então, em que sentido a vontade de Deus é agradável? Ela é agradável porque viver debaixo da vontade de Deus é viver em harmonia com aquilo para o qual fomos criados. Existe uma diferença entre aquilo que é prazeroso e aquilo que é verdadeiramente bom. Há desejos que produzem prazer imediato e sofrimento posterior; há decisões que exigem sacrifício imediato, mas produzem frutos que permanecem. A Bíblia chama de maturidade aquilo que a cultura muitas vezes chama de privação. Por isso, não podemos utilizar nossos sentimentos como medida definitiva da vontade de Deus. Às vezes obedecer será difícil; às vezes obedecer vai doer. Mas isso não significa que a vontade de Deus deixou de ser agradável. Significa que precisamos aprender que alegria não é a mesma coisa que conforto.

Finalmente, a vontade de Deus é perfeita. Isso significa muito mais do que simplesmente afirmar que Deus não comete erros. A perfeição da vontade de Deus está relacionada ao próprio caráter de Deus. Deus não pode desejar para seus filhos algo que contradiga quem ele é. Sua vontade é perfeita porque ele é perfeito em sabedoria, bondade, justiça e amor. Nós enxergamos apenas uma pequena parte da realidade; Deus vê o todo. Conhecemos o presente e tentamos imaginar o futuro; Deus conhece o princípio, o meio e o fim. Tomamos decisões a partir de informações limitadas, experiências particulares e, muitas vezes, desejos confusos; Deus não está limitado por aquilo que conseguimos perceber. Por isso, quando Paulo chama a vontade de Deus de perfeita, ele nos ensina a confiar em Deus mesmo quando não conseguimos compreender completamente aquilo que ele está fazendo.

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades da fé cristã. Muitas vezes confiamos em Deus enquanto conseguimos entendê-lo. Enquanto sua vontade coincide com aquilo que desejamos, dizemos que Deus é bom. Enquanto a porta que pedimos se abre, dizemos que Deus é fiel. Enquanto a resposta que esperamos chega, afirmamos que Deus sabe o que faz. Mas a verdadeira maturidade espiritual aparece quando Deus nos conduz por um caminho que não entendemos; quando oramos e a resposta não vem; quando pedimos cura e continuamos enfrentando a enfermidade; quando planejamos uma coisa e Deus permite outra; quando uma porta se fecha e não sabemos por quê; quando obedecer custa alguma coisa. É nesse lugar que descobrimos se confiamos realmente na perfeição de Deus ou apenas naquilo que conseguimos compreender dos caminhos de Deus. A fé cristã não é a certeza de que entenderemos todos os caminhos de Deus; é a confiança de que, mesmo quando não compreendemos seus caminhos, podemos confiar no Deus que os conduz.

Essa verdade confronta diretamente a cultura contemporânea, que frequentemente trata o desejo como autoridade: se eu quero, devo buscar; se eu sinto, devo obedecer; se algo me faz feliz, preciso preservá-lo; se algo me impede de realizar meus desejos, preciso removê-lo. O evangelho apresenta uma liberdade completamente diferente. A liberdade cristã não consiste em ter a possibilidade de realizar todos os nossos desejos; consiste em sermos libertos da escravidão aos nossos próprios desejos para podermos desejar aquilo que é verdadeiramente bom. Por isso, quando Paulo afirma que a vontade de Deus é perfeita, ele nos convida a abandonar uma postura muito comum: colocar Deus como conselheiro da nossa vida, enquanto mantemos o governo em nossas próprias mãos. Muitas vezes dizemos: “Senhor, abençoa o meu projeto; abençoa o meu relacionamento; abençoa a minha escolha”. Uma mente renovada começa em outro lugar. Ela não chega diante de Deus dizendo: “Senhor, confirme aquilo que eu quero”. Ela chega dizendo: “Senhor, se aquilo que quero estiver errado, muda o meu querer. Se meu caminho não for o teu caminho, muda o meu caminho. Se minha vontade estiver em conflito com a tua vontade, que a tua vontade prevaleça.”

Isso não significa que Romanos 12.2 seja uma frase fácil para situações difíceis. Há dores que são reais. Existem perdas que doem, despedidas que doem, orações sem resposta que cansam e injustiças que provocam indignação. Há momentos em que não conseguimos compreender o que Deus está fazendo. Mas o evangelho nos dá algo que o mundo não consegue oferecer: podemos chorar sem perder a esperança, podemos não compreender sem abandonar a fé e podemos sofrer sem concluir que Deus deixou de ser bom. A perfeição da vontade de Deus não significa que nossa caminhada será sempre confortável; significa que, em todos os caminhos, podemos confiar naquele que continua sendo Deus. Talvez alguém esteja vivendo exatamente esse momento. Talvez exista uma área da vida sobre a qual você olha e pensa: “Eu não teria feito assim”. Talvez exista uma oração antiga ainda sem resposta, uma perda que você não consegue compreender ou uma decisão diante da qual não consegue enxergar o caminho. A Palavra de Deus não vem necessariamente para dizer que você entenderá tudo. Ela vem para lembrar uma verdade muito mais profunda: você não precisa entender tudo para confiar naquele que entende tudo.

Quem está formando sua mente?

Romanos 12.2 nos coloca diante de uma decisão. Existe um padrão tentando nos moldar, mas Deus nos chama para uma transformação que começa na mente. O mundo diz: “Pense como nós pensamos, deseje o que nós desejamos, viva como nós vivemos”. Deus diz: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.” Por isso, a pergunta que precisamos levar para casa não é simplesmente “o que eu penso?”, mas “quem está me ensinando a pensar?” Quem está formando meus valores? Quem está dizendo o que é certo e errado? Quem está definindo minha identidade? Quem está educando meus filhos? Quem tem a palavra final quando meus sentimentos entram em conflito com a Palavra de Deus?

A resposta cristã precisa ser clara: Cristo é o Senhor. Não apenas da nossa salvação, mas da nossa mente, dos nossos desejos, dos nossos relacionamentos, da nossa família, do nosso trabalho e de toda a nossa existência. Talvez Deus esteja hoje confrontando alguma coisa que chamamos de normal, mas que precisa ser renovada. Talvez seja um pensamento, um desejo, uma prioridade ou uma maneira de viver que trouxemos da cultura sem perceber. Não precisamos ter medo de ser confrontados pela Palavra de Deus. Precisamos permitir que Deus nos transforme. O objetivo não é simplesmente pensar diferente do mundo; é aprender a pensar como discípulos de Cristo. E quando nossa mente é renovada, começamos a descobrir aquilo que Paulo afirma: a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita.

Por isso, a pergunta desta terceira mensagem da série “Como Viveremos?” permanece diante de cada um de nós: Quem está formando sua mente? Não existe neutralidade. Estamos sendo formados. Nossos pensamentos estão sendo educados. Nossos desejos estão sendo moldados. Nossa consciência está sendo discipulada. A questão não é se isso está acontecendo, mas quem está fazendo isso. A cultura está constantemente nos oferecendo uma forma de interpretar o mundo, a nós mesmos, nossos relacionamentos, nosso corpo, nosso trabalho, nossa família e nosso futuro. A Palavra de Deus, porém, oferece uma cosmovisão diferente, centrada no Deus que criou todas as coisas, que revelou sua verdade e que, em Cristo, nos chama para uma vida de discipulado integral.

Que a igreja de Cristo não seja uma comunidade que apenas sabe dizer “não” ao mundo, mas uma comunidade que aprendeu a dizer “sim” à vontade de Deus. Que nossos lares sejam lugares onde nossos filhos aprendam não apenas o que acreditar, mas por que acreditamos. Que nossas igrejas sejam ambientes de formação da mente cristã, nos quais a Escritura não seja apenas lida, mas aplicada à totalidade da vida. Que não sejamos cristãos que simplesmente frequentam cultos, mas discípulos que pensam, amam, escolhem e vivem sob o senhorio de Cristo. Afinal, como temos repetido desde o início desta série: a forma como pensamos determina a forma como vivemos.

Não se conforme.

Seja transformado.

Renove sua mente.

E viva debaixo do senhorio de Cristo.

Porque a grande pergunta não é apenas: “Como viveremos?”

Antes dela existe outra:

“Quem está formando a nossa mente?”