Alguns dons cessaram?
Poucos temas despertam tantos debates no meio evangélico quanto a continuidade ou a cessação dos dons espirituais. Enquanto praticamente todos os cristãos concordam que Deus continua operando em sua Igreja por meio do Espírito Santo, existe divergência quanto à seguinte pergunta: todos os dons mencionados no Novo Testamento permanecem disponíveis para a Igreja de hoje, ou alguns deles cessaram com o fim da era apostólica? Essa discussão não é recente. Ela acompanha a história da Igreja há séculos e, especialmente nos últimos cem anos, tornou-se um dos principais pontos de divergência entre diferentes tradições evangélicas. Entretanto, antes de assumir qualquer posição, é necessário compreender que ambos os lados procuram fundamentar suas conclusões nas Escrituras. A questão, portanto, não deve ser resolvida por tradição denominacional, experiências pessoais ou preferências teológicas, mas por uma cuidadosa exegese do texto bíblico.
O cessacionismo sustenta que alguns dons extraordinários — especialmente profecia, variedade de línguas, interpretação de línguas e, em alguns casos, cura e milagres — foram concedidos exclusivamente durante o período apostólico para autenticar a autoridade dos apóstolos e confirmar a revelação do Evangelho. Segundo essa compreensão, uma vez concluído o fundamento da Igreja e completado o cânon das Escrituras, esses dons deixaram de ser necessários. Em contrapartida, o continuísmo afirma que todos os dons descritos no Novo Testamento permanecem disponíveis para a Igreja até a volta de Cristo, embora devam ser exercidos sob a autoridade das Escrituras, com discernimento, ordem e submissão à liderança da Igreja. Ambas as posições reconhecem a suficiência das Escrituras; a divergência está na interpretação dos textos que tratam da duração dos dons.
Entre os textos mais utilizados nesse debate, nenhum ocupa posição tão central quanto 1Coríntios 13.8-13. É justamente essa passagem que costuma ser apresentada como a principal prova bíblica do cessacionismo. Por isso, ela merece ser examinada cuidadosamente em seu contexto. O apóstolo Paulo escreve:
“O amor jamais acaba. Mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo conhecimento, passará… Quando, porém, vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.” (1Co 13.8-10)
A questão decisiva é esta: o que Paulo chama de “o que é perfeito”? A resposta determinará toda a interpretação da passagem.
Alguns intérpretes cessacionistas entendem que “o que é perfeito” representa a conclusão do cânon bíblico ou o amadurecimento da Igreja após a era apostólica. Nessa leitura, os dons revelacionais desapareceriam quando a revelação escrita fosse completada. Entretanto, essa interpretação enfrenta sérias dificuldades exegéticas. Em nenhum lugar da passagem Paulo menciona a formação do Novo Testamento, a conclusão do cânon ou o encerramento da revelação escrita. Esses assuntos simplesmente não fazem parte do contexto da carta. O apóstolo está tratando da superioridade do amor em relação aos dons espirituais e explicando por que estes possuem caráter temporário.
O próprio contexto fornece a resposta. Poucos versículos depois Paulo afirma:
“Porque agora vemos como em espelho, obscuramente; então veremos face a face. Agora conheço em parte; então conhecerei como também sou conhecido.” (1Co 13.12)
Essas expressões dificilmente podem ser aplicadas à conclusão do cânon bíblico. A Igreja, mesmo possuindo toda a revelação escrita, ainda não contempla Cristo face a face. Também não conhece a Deus da mesma forma plena descrita por Paulo. Essas expressões apontam claramente para a consumação escatológica, quando Cristo retornará e os salvos estarão definitivamente em sua presença. O contraste estabelecido por Paulo não é entre uma igreja sem Novo Testamento e outra com o cânon completo, mas entre a realidade presente e a perfeição futura do Reino de Deus. Enquanto vivemos nesta era, nosso conhecimento permanece parcial; somente na glorificação conheceremos plenamente.
Essa interpretação harmoniza-se perfeitamente com o propósito do capítulo. Paulo interrompe sua discussão sobre os dons para mostrar que o amor é superior a eles. Os dons pertencem ao tempo presente; o amor pertence tanto ao presente quanto à eternidade. Profecia, línguas e conhecimento desaparecerão porque cumprem uma função provisória. O amor, porém, jamais deixará de existir. O argumento perderia sua força se Paulo estivesse apenas dizendo que os dons cessariam algumas décadas depois com a conclusão do Novo Testamento. Seu contraste é muito maior: ele coloca os dons dentro da presente era da redenção e o amor dentro da realidade eterna do Reino consumado.
Outro texto frequentemente ignorado nessa discussão encontra-se logo no início da própria carta aos Coríntios. Paulo escreve àquela igreja:
“De maneira que não vos falte dom algum, aguardando a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo.” (1Co 1.7)
Essa afirmação possui enorme peso teológico. O apóstolo relaciona diretamente a presença dos dons espirituais ao período em que a Igreja aguarda a volta de Cristo. Não diz que eles permanecerão até a morte do último apóstolo, nem até a conclusão do cânon, mas até a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo. A expectativa escatológica da Igreja é apresentada como o contexto normal em que os dons continuam sendo exercidos.
O mesmo princípio aparece em Efésios 4.11-13. Paulo afirma que Cristo concedeu apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus“. Ainda não alcançamos essa maturidade plena. A Igreja continua sendo edificada, discipulada e conduzida rumo à semelhança de Cristo. Enquanto essa obra permanece em andamento, permanece também a necessidade da atuação do Espírito Santo por meio das diversas capacitações concedidas ao Corpo de Cristo.
Um argumento frequentemente apresentado pelo cessacionismo é que os dons miraculosos tinham a finalidade exclusiva de autenticar os apóstolos. É verdade que os milagres acompanharam o ministério apostólico e confirmaram sua autoridade (2Co 12.12). Contudo, limitar os dons apenas aos apóstolos não corresponde ao testemunho do Novo Testamento. Estêvão, Filipe, Ananias, Ágabo e inúmeros cristãos da igreja de Corinto exerceram dons espirituais sem pertencerem ao colégio apostólico. Em Corinto, Paulo pressupõe que diversos membros da igreja possuíam manifestações do Espírito. O exercício dos dons nunca foi apresentado como privilégio exclusivo dos Doze, mas como expressão da vida normal da Igreja na Nova Aliança.
Outro aspecto importante é que o Novo Testamento nunca responde aos abusos proibindo os dons. A igreja de Corinto vivia sérios problemas no exercício das manifestações espirituais. Havia desordem no culto, competição entre os irmãos e uso egoísta dos dons. Entretanto, Paulo jamais ordena que a igreja abandone essas manifestações. Pelo contrário, ele regulamenta seu uso. Exorta os coríntios a fazerem tudo com decência e ordem (1Co 14.40), estabelece critérios para o exercício da profecia, limita o uso das línguas quando não houver intérprete e coloca toda manifestação sob julgamento da própria Igreja. O remédio apostólico para o abuso nunca foi a proibição, mas a correção bíblica. Esse princípio permanece válido em nossos dias.
Infelizmente, em alguns contextos contemporâneos, exageros, emocionalismo e supostas manifestações sem fundamento bíblico levaram muitos cristãos a rejeitar completamente a doutrina dos dons espirituais. Entretanto, devemos distinguir cuidadosamente entre abuso e uso legítimo. A existência de falsificações jamais elimina a realidade do verdadeiro. Ao longo da história sempre existiram falsos mestres, mas isso nunca significou que Deus deixasse de levantar verdadeiros mestres. Da mesma forma, falsas profecias não anulam a possibilidade da verdadeira atuação do Espírito Santo, assim como falsas conversões não invalidam o novo nascimento.
Isso não significa aceitar qualquer manifestação como sendo proveniente de Deus. O próprio Novo Testamento ordena: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias. Julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1Ts 5.19-21). Observe o equilíbrio apostólico. Paulo não diz para desprezar toda manifestação espiritual, nem para aceitar tudo indiscriminadamente. O caminho bíblico é o discernimento. Toda manifestação deve ser examinada à luz das Escrituras, da sã doutrina, do caráter de Cristo e dos frutos produzidos na vida da Igreja.
Portanto, a posição continuísta não consiste em afirmar que tudo o que hoje recebe o nome de “dons espirituais” procede do Espírito Santo. Muito menos significa colocar experiências acima da Palavra de Deus. Pelo contrário, o verdadeiro continuísmo sustenta que a Escritura é a única regra infalível de fé e prática, e exatamente por isso toda manifestação espiritual deve permanecer completamente subordinada à revelação bíblica. Os dons nunca acrescentam novas doutrinas, jamais competem com a autoridade das Escrituras e sempre existem para edificar a Igreja, glorificar a Cristo e fortalecer a proclamação do Evangelho.
À luz do conjunto das Escrituras, parece mais coerente concluir que os dons espirituais pertencem à era da Igreja inaugurada no Pentecostes e permanecerão até a consumação do Reino na volta de Cristo. Eles não constituem um fim em si mesmos, nem são marcas de superioridade espiritual. São instrumentos da graça de Deus para equipar seu povo durante sua peregrinação neste mundo. O desafio da Igreja contemporânea, portanto, não é escolher entre aceitar indiscriminadamente todas as manifestações ou rejeitar completamente os dons. O verdadeiro desafio é permanecer fiel ao equilíbrio das Escrituras: não apagar o Espírito, não desprezar suas manifestações e, ao mesmo tempo, julgar todas as coisas segundo a Palavra de Deus. Esse foi o caminho ensinado pelos apóstolos e continua sendo o caminho mais seguro para a Igreja de Cristo em todas as gerações.
Soli Deo gloria







