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Simonia

Esse comportamento derivou o seu nome de Simão, o mágico, um personagem bíblico que tentou comprar dos apóstolos Pedro e João o poder de conceder o Espírito Santo àqueles sobre os quais ele impusesse as mãos (At 8.18-24). Assim, a simonia veio a se referir à concessão ou obtenção de qualquer coisa espiritual ou sagrada mediante remuneração, fosse ela monetária ou de outra espécie. Em outras palavras, era a compra e venda de coisas religiosas. Cometia esse pecado quem oferecia e quem recebia pagamento em troca de um bem espiritual ou eclesiástico. Na Idade Média, referia-se principalmente ao comércio de cargos da igreja. Um papa que se notabilizou por sua luta incessante contra esses males foi Hildebrando, ou Gregório VII (1073–1085), que adotou como lema de seu pontificado as contundentes palavras de Jeremias 48.10: “Maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente!”.

Curiosamente, em certo sentido a Reforma Protestante surgiu como consequência de dois casos de simonia. Um deles foi a compra do arcebispado de Mainz, ou Mogúncia, na Alemanha, pela poderosa família Hohenzollern, mediante uma negociação questionável com o papa Leão X envolvendo altas somas de dinheiro. O segundo caso ocorreu quando o novo arcebispo (e futuro cardeal) Alberto de Brandenburgo promoveu uma venda especial de indulgências, cujos rendimentos foram utilizados em parte para saldar a dívida da compra do arcebispado, sendo a outra parte entregue ao papa para financiar a construção da catedral de São Pedro, em Roma. A reação de Martinho Lutero contra esse comércio do perdão, mediante suas Noventa e Cinco Teses, foi o estopim da Reforma.

Durante séculos, o ministério protestante foi caracterizado por elevados padrões éticos, especialmente na sensível área das finanças. Seguindo o exemplo de Cristo e seus apóstolos (At 20.33s; 2Co 11.7), a maior parte dos pastores e líderes procuravam realizar o seu trabalho como uma expressão de serviço desinteressado a Deus e às pessoas, isento de ambições materiais. Mesmo indivíduos de grande projeção, como avivalistas e evangelistas de massa (Wesley, Whitefield, Spurgeon, Billy Graham e outros), jamais usaram de seu grande carisma e influência para auferir vantagens pecuniárias e aumentar o seu patrimônio. Tal comportamento sóbrio e consciencioso ocorreu em todos os ramos do protestantismo, tanto os tradicionais ou históricos como, mais tarde, os pentecostais clássicos.

Esse honroso legado sofreu um abalo lamentável e constrangedor no Brasil, a partir da década de 1970, com o surgimento do chamado neopentecostalismo. Firmados numa teologia duvidosa, resultante de uma interpretação tendenciosa e altamente seletiva das Escrituras, os principais líderes desse movimento vêm demonstrando uma atitude em relação ao dinheiro que em nada difere do velho pecado da simonia. Servindo-se do poderoso veículo da televisão e manipulando com habilidade as carências e ambições de uma considerável parcela da população, esses pregadores têm transformado o evangelho e suas bênçãos em mercadoria e fonte de lucro (2Co 2.17; 1Tm 6.5,10).

A recepção de benefícios como a cura, a prosperidade e a felicidade é condicionada à entrega de contribuições, dando-se a entender que as bênçãos serão proporcionais à generosidade do ofertante. Fica inteiramente esquecido o ensino claro de Jesus: “[…] de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10.8). Em consequência disso, surgiu uma geração de pastores-empresários que estão se colocando entre os homens mais ricos do país. Dominados pela ganância condenada com tanta veemência nas Escrituras (1Ts 2.5; Tt 1.7; 1Pe 5.2), estão acumulando grandes fortunas na forma de mansões, fazendas, carros de luxo e, agora, o símbolo máximo dos novos ricos – jatinhos particulares. Eles influenciam de tal forma os seus seguidores que estes, além de não questionarem tal procedimento, acham que seus líderes merecem os privilégios que usufruem.

Não se discute que os obreiros cristãos sejam remunerados condignamente pelo seu trabalho (2Co 8.14). O que se lamenta é a mercantilização da fé, que tantos prejuízos tem trazido para a causa de Cristo ao longo dos séculos, obscurecendo a graça de Deus, o seu favor imerecido. Os modernos simoníacos não só estão manchando para sempre a sua própria reputação, mas também contribuindo para prejudicar a imagem de toda a classe ministerial e das comunidades evangélicas. Suas ações têm produzido e continuarão a produzir reações negativas da imprensa, da opinião pública e dos governantes. Eles fariam bem em considerar as palavras ditas pelos apóstolos a Simão, o mágico – e se arrependerem enquanto é tempo.

A Reforma Protestante e sua contribuição para a educação moderna

No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero fixou nas portas da Igreja de Wittenberg, na Alemanha, as 95 teses contra a venda de indulgências. A data marca o início da Reforma Protestante e de um novo momento na história da humanidade.

Nenhum aspecto da vida humana ficou intacto, pois abrangeu transformações políticas, econômicas, religiosas, morais, filosóficas, literárias e nas instituições. Foi, de fato, uma revolta e uma reconstrução do norte”, afirma o escritor Eby Frederick.

Na educação, os impactos foram determinantes. Na Idade Média, a igreja era a única responsável pela organização e manutenção da educação escolar. A partir do século 16, surgiram as nações-estados, que se opuseram ao poderio universal do papa e formou-se a classe média.

O historiador e professor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, Rev. José Carlos de Souza, explica que o comércio, a atividade pública e as próprias igrejas, entre muitos outros setores, possuíam demandas que requeriam cuidadoso preparo. Toda mudança social traz novos desafios.

“Certamente, por essa razão, Lutero sentiu-se impelido para falar e se pronunciou de modo enfático sobre a necessidade das autoridades civis investirem na educação”, avalia o professor.

Neste contexto, os movimentos da Renascença e da Reforma são precursores de profundas mudanças na concepção de ensino. “A educação começa a visar de modo claro e definido à formação integral do homem, o seu desenvolvimento intelectual, moral e físico”, conta o professor Ruy Afonso da Costa Nunes.

Cidadania – Martinho Lutero também estimula a criação de escolas para toda a população. Houve forte ênfase ao ensino para suprir as demandas da recém chegada sociedade moderna, com dimensões geográficas, políticas, econômicas, intelectuais e religiosas em transformação.

A contribuição da Reforma no contexto educacional é tamanha que, de acordo com o educador espanhol Lorenzo Luzuriaga, a educação pública teve origem nesta época. O movimento já estimulava a educação pública, universal e gratuita, para quem não poderia custeá-la.

“A educação pública, isto é, a educação criada, organizada e mantida pelas autoridades oficiais – municípios, províncias, estados – começa com o movimento da Reforma religiosa”, afirma Luzuriaga.

Em Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha, para que criem e mantenham escolas cristãs, publicado em 1524, Martinho Lutero desafia a sociedade a promover uma educação integral. “Lutero queria todos os cidadãos bem preparados, para todas as tarefas na sociedade. Propôs uma escola cristã que visasse não uma abstração intelectual, mas a uma educação voltada para o dia-a-dia da vida”, explica o professor  Alvori Ahlert.

O pastor luterano Walter Altmann comenta a referência de Lutero para o desenvolvimento da educação. “Rompeu com o ensino repressivo, introduzindo o lúdico na aprendizagem. Amarrou o estudo das disciplinas a um aprendizado prático. Também lutou por boas bibliotecas, dentro de sua ótica cristocêntrica”, revela Altmann no livro Lutero e a Libertação.

“Pela graça de Deus, está tudo preparado para que as crianças possam estudar línguas, outras disciplinas e história, com prazer e brincando. As escolas já não são mais o inferno e o purgatório de nosso tempo, quando éramos torturados com declinações e conjugações. Não aprendemos simplesmente nada por causa de tantas palmadas, medo, pavor e sofrimento”, escreveu Martinho Lutero.

A aprendizagem construiria cidadãos capacitados, honestos e responsáveis. Era exatamente esta a necessidade do novo modelo de sociedade que surgia na época. De acordo com o pesquisador Evaldo Luis Pauly a rápida divulgação de ideias e concepções por meio da imprensa descoberta por Gutemberg, também contribuiu para que as iniciativas de estímulo educacional crescessem.

Universidades – As mudanças e ênfases da Reforma estimularam o surgimento das instituições de ensino. “A história das universidades nos estados alemães durante os séculos 16 e 17 foi determinada pelo progresso da religião e é quase idêntica a do desenvolvimento da teologia protestante”, declara Paul Monroe no livro História da Educação.

Nestor Beck diz que a Universidade de Wittenberg atraiu um número crescente de novos alunos, pela fama que passou a ter, entre os anos de 1517 a 1520. A Reforma Protestante deixou a concepção de que a ignorância é o grande mal para a verdadeira religião, por isso, superá-la é uma responsabilidade de todos. “O melhor e mais rico progresso para uma cidade é quando possui muitos homens bem instruídos, muitos cidadãos ajuizados”, dizia Martinho Lutero.

Expansão – O pensamento e o movimento protestante logo expandiram. A América do Norte, por exemplo, contou com a colonização de vários grupos protestantes, na chamada segunda reforma. O antropólogo e escritor Darcy Ribeiro afirma, no livro Universidade Necessária, que nos Estados Unidos o ensino superior “cresceu mais livre, democrático e fecundo”.

As igrejas cristãs prevalecem no cenário educacional norte-americano no século 17 e início do 18. O professor Almiro Schulz explica que após a independência dos Estados Unidos em 1776 e a separação entre igreja e estado, houve uma ênfase ao ensino superior público, secularizado e sob controle do estado.

“A igreja reagiu por meio da educação. As confissões, principalmente presbiteriana, batista, congregacional, metodista se lançaram no ensino superior”, conta o professor Almiro Schulz.

De acordo com o pastor e professor metodista José do Nascimento a participação metodista na educação se deu, de maneira consciente, a partir de 1820, devido a alteração da legislação da Conferência Geral, que permitiu aos bispos nomear clérigos metodistas para a direção de instituições de ensino. No início, a ênfase do ensino metodista era rural, mas se voltou mais tarde para o ensino superior.

Educação Metodista no Brasil – O professor metodista Elias Boaventura deixou informações importantes sobre a historiografia da educação da Igreja Metodista no Brasil. Em publicações ele declara que os missionários metodistas norte-americanos, que chegaram ao país a partir do final do século 19, foram portadores de um arrojado projeto de expansão religiosa, que incluía, de um lado, o trabalho de catequese e implantação da nova denominação, e do outro, a ênfase na educação.

Em 1871, foi organizada a primeira Igreja Metodista do Brasil, em São Paulo, e, em 1881, foi fundado o primeiro colégio, em Piracicaba-SP, o Piracicabano, representando, de acordo com Boaventura, o marco inicial das atividades educacionais da Igreja Metodista no Brasil.

“A iniciativa educacional logrou imediato apoio dos governantes, das elites políticas de tendência republicana, e de todos que viam no novo modelo, de inspiração liberal e iluminista, uma alternativa capaz de contribuir para o avanço do projeto educacional brasileiro”, afirmou Elias Boaventura.

O projeto metodista de educação foi implantado e destacou-se pela qualidade oferecida. Um dos primeiros historiadores metodistas, James Kennedy, revela que em Piracicaba-SP, logo começaram a afluir as crianças para o colégio que em pouco tempo foi reconhecido como o melhor na cidade, sendo frequentado pelos filhos das melhores famílias.

Além do Piracicabano, outras escolas como o Granbery, em Juiz de Fora-MG, o Bennet, no Rio de Janeiro-RJ, o Americano, de Lins-SP foram constituindo as marcas da educação metodista na região sudeste do país. No sul, instituições como o Colégio Americano, fundado em 1885 também propagaram o ensino identificado com pedagógico liberal.

A professora do Centro Universitário Metodista em Porto Alegre-RS, Denise Grosso da Fonseca, explica que na década de 80, a Igreja Metodista do Brasil, autônoma desde 1930, passou por momentos de profunda reflexão, redefinindo muitos aspectos de sua vida e trabalho. “A educação, preocupação fundamental dos metodistas desde sua origem, teve suas diretrizes repensadas à luz da palavra de Deus, do Credo Social e do Plano para Vida e Missão da Igreja Metodista”, declara.

A reflexão gerou o documento Diretrizes para a Educação, que foi aprovado pelo 13º Concílio Geral da Igreja Metodista, em 1982. O texto aponta que as práticas educativas devem ser norteadas por princípios que: desenvolvam consciência crítica da realidade; compreendam que o interesse social é mais importante que o individual; exercitem o senso e a prática de justiça e solidariedade; alcancem a realização como fruto do esforço comum; tomem consciência de que todos têm direito de participar de modo justo dos frutos do trabalho e reconheçam que, dentro de uma perspectiva cristã, útil é aquilo que tem valor social.

Fonte: Universidade Metodista de São Paulo.

Todos somos sacerdotes

Não é necessário ser um conhecedor profundo da história eclesiástica para saber que, do ponto de vista teológico, a Reforma Protestante do século XVI teve como objetivo principal o retorno da Igreja às Sagradas Escrituras como a base para sua fé e sua vida prática. O episódio mais representativo desta ênfase foi a Dieta de Worms (maio de 1521) convocada pelo imperador Carlos V com o propósito de julgar a Martinho Lutero, que havia sido excomungado previamente como herege pelo Papa Leão por afirmar a autoridade da Bíblia acima da autoridade dos papas e os concílios. Convidado a retratar-se, o reformador alemão respondeu com a seguinte declaração da “sola scriptura, tota scriptura”, uma afirmação que sintetiza a convicção teológica evangélica básica com respeito à centralidade das Escrituras:

“Minha consciência é cativa da Palavra de Deus. Se não me demonstrarem pelas Escrituras e por razões claras (não aceito a autoridade de papas e concílios, pois se contradizem), não posso nem quero retratar-me de nada, porque ir contra a consciência é tão perigoso quanto errado. Que Deus me ajude, Amém.”

Sobre essa base bíblica os reformadores construíram o edifício teológico constituído pelas ênfases evangélicas que se resumem nas seguintes afirmações: somente a Cristo (“solus Christus”), somente a graça (“sola gratia”),somente a fé (“sola fide”), somente a glória de Deus (“soli deo gloria”), a igreja reformada sempre se reformando (“ecclesia reformata semper reformanda”). No entanto, já em 1520, antes da Dieta de Worms, Lutero escreveu três tratados em que expunha sua posição teológica em controvérsia com a sustentada oficialmente pela Igreja Católica Romana: “A liberdade cristã”, “À nobreza alemã acerca do melhoramento do Estado cristão”, e “O cativeiro babilônico”.

Ainda que não negue a necessidade de um ministério “ordenado” por razões funcionais, em seu tratado dirigido à “nobreza alemã” Lutero rejeita a forte divisão tradicional entre clérigos e leigos, e afirma o sacerdócio de todos os crentes (também denominado “sacerdócio comum”) nos seguintes termos:

“Todos os cristãos são em verdade de estado eclesiástico e entre eles não há distinção, se não somente por causa do ministério, como Paulo diz que todos somos um corpo, mas que cada membro tem sua função própria com a qual serve aos demais. Isso resulta do fato de que temos um só batismo, um Evangelho, uma fé e somos cristãos iguais, visto que o batismo, o Evangelho e a fé por si sós tornam eclesiástico ao povo cristão”.

A base bíblica desta posição é sólida. De acordo com o ensino do Novo Testamento, o único sacerdócio válido até o fim da era presente é o sacerdócio de Jesus Cristo, que se ofereceu a si mesmo em sacrifício pelos pecados e “com um só sacrifício tornou perfeitos para sempre aos que está santificando” (Hb 10.14). Todos os que confiam nele têm acesso direto à presença de Deus (10.19-22). Ninguém pode oferecer mais sacrifícios pelo pecado: a obra de redenção está consumada; Jesus Cristo homem é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Em virtude de sua relação com ele, todos os crentes participam de seu sacerdócio: são o sacerdócio do Rei (1Pe 2.9); são “reis e sacerdotes” (Ap 1.5; 5.10). E como tais são chamados a oferecer-se a si mesmos, “em adoração espiritual… como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1).

Biblicamente, todo cristão é sacerdote pelo único motivo de ser cristão. A Igreja é um povo sacerdotal. Consequentemente, todos os seus membros foram consagrados ao serviço de Deus, e para realizá-lo receberam “diversos dons”, “diversas maneiras de servir”, “diversas funções” que o Espírito reparte “para o bem dos demais” (1Co 12).

Sobre esta base bíblica, a Reforma Protestante do século XVI abriu o caminho para que cada igreja local seja uma igreja-comunidade que supere a dicotomia entre clérigos e leigos e todos os membros do corpo de Cristo, sem exceção, participem em serviços que manifestem o amor a Deus e ao próximo, de maneira prática. A pergunta que temos que nos fazer hoje é: até que ponto nossas congregações estão comprometidas com o sacerdócio de todos os crentes, levando em conta que “todos os que foram batizados em Cristo se revestiram de Cristo” e, em consequência, “já não há judeu nem gentio, escravo nem livre, homem nem mulher” (Gl 3.27-28)?

Roma realmente mudou o discurso? A Igreja Católica – 500 anos depois

A data de 31 de outubro de 2017 marcará o quingentésimo aniversário da Reforma Protestante. A pregação das 95 teses por Martinho Lutero na porta da catedral de Wittenberg naquele dia em 1517 provou-se ser um dos eventos mais importantes da história mundial. De fato, muitos evangélicos traçam suas origens a esse momento que inaugurou o movimento protestante do qual nos consideramos seus herdeiros.

Mas a Reforma ocorreu há quinhentos anos! Como quase tudo que está há meio milênio de sua origem, as coisas mudaram. Mudaram mesmo? Quais questões desencadearam a Reforma? Quais eram os principais protestos contra a Igreja Católica naquela época? Aquelas mesmas condições ainda existem, de modo que a Reforma permanece inacabada?

Meio milênio atrás

As 95 teses de Lutero constituíram um chamado para debater alguns dos erros flagrantes da Igreja Católica de sua época. Seus escritos subsequentes expuseram muitos outros problemas:

  • Uma negação da justificação pela graça de Deus recebida somente por meio da fé e somente por meio de Cristo.
  • Uma visão não-bíblica da salvação, reunindo Deus e pecadores de uma maneira em que a graça divina, comunicada por meio dos sacramentos da Igreja, inicia o processo de salvação que perdura durante a vida e os esforços humanos respondem engajando-se em boas obras para merecer a vida eterna.
  • Uma estrutura de autoridade defeituosa combinando ilegitimamente a Escritura com a tradição e o papado.
  • Uma Missa Católica vergonhosa que minimizava a Palavra de Deus, ignorava a importância da fé e concentrava-se na Eucaristia como mero ritual.
  • Uma crença incorreta de que, durante a Missa, Jesus Cristo torna-se fisicamente presente através da transubstanciação.
  • Uma elevação inapropriada do papel de Maria como mediadora entre seu filho Jesus Cristo e os pecadores, bem como de intercessora que reza por eles e os ajuda.
  • Uma perspectiva falha sobre os sete sacramentos como sendo comunicadores da graça de Deus ex opere operato.
  • Uma esperança não-bíblica no purgatório – tempo que pode ser reduzido pela compra de indulgências.

Estas eram as principais questões que Lutero expôs e criticou referente à Igreja Católica de seus dias.

500 anos depois

É uma percepção popular de que a única constante em nosso mundo é a mudança – e isso é verdade no que diz respeito à dinâmica católico-protestante depois de quinhentos anos. Um feliz exemplo é que os dois grupos não estão mais em guerra entre si. Em vez disto, protestantes e católicos trabalham juntos na política, na educação, na assistência médica, na ética etc. Eles se engajam em co-beligerância, lutando juntos contra pecados perturbadores como o aborto, a eutanásia, a eugenia, o controle populacional, a violência, a promiscuidade e o fanatismo antirreligioso. A atmosfera degelou.

Além disso, as duas tradições estão aptas a destacar os aspectos comuns que as unem. De uma perspectiva protestante, essas similaridades (pelo menos em parte) incluem a Trindade, a natureza de Deus, a revelação divina, a pessoa de Cristo e sua crucificação e ressurreição, o Espírito Santo, a imagem de Deus, a depravação do pecado, a iniciativa divina na salvação e a esperança futura. De uma perspectiva católica (fomentada em grande parte pelas mudanças iniciadas no Concílio Vaticano II, 1962-1965), os protestantes não estão mais condenados ao inferno, mas experimentam a salvação na condição de irmãos e irmãs separados (embora não em sua plenitude, que só pode existir para os fiéis católicos).

Ainda assim, diferenças importantes continuam a dividir as duas tradições. Tome, por exemplo, cada um dos pontos citados acima.

JUSTIFICAÇÃO

O “princípio material (o conteúdo-chave) do protestantismo” continua a ser um ponto calorosamente debatido. Por um lado, a Federação Luterana Mundial chegou a um acordo oficial com a Igreja Católica sobre esta doutrina em sua Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (1999). Por outro lado, a maioria dos protestantes continua a considerar esta doutrina um ponto-chave de distinção.

Este é certamente o caso quando consideramos as definições de justificação que são adotadas pelas duas tradições. Justificação, de acordo com o protestantismo, é um ato legal de Deus por meio do qual Ele declara pecadores não como “não-culpados”, mas sim como “justos”, à medida que imputa ou credita a perfeita justiça de Cristo a eles. Para o catolicismo, “justificação não é apenas a remissão dos pecados, mas também a santificação e a renovação do homem interior” (Concílio de Trento, Decreto sobre a Justificação, 7). A doutrina católica combina a regeneração (o novo nascimento que acontece, de acordo com o catolicismo, pelo sacramento do Batismo), com a santificação (uma transformação de longo termo fomentada pelos sacramentos) e o perdão. Tal fusão da justificação com a regeneração e a santificação contradiz o conceito paulino de justificação (como exposto, por exemplo, em Romanos 3-4) ao redor do qual o debate se concentra.

A justificação, como ponto central da salvação, continua a ser um grande ponto de divisão entre católicos e protestantes.

SALVAÇÃO

Fluindo da diferença referente à justificação, a maneira pela qual Deus salva pecadores continua a dividir as duas tradições. De acordo com a teologia protestante, a salvação é monergista (mono = único, exclusivo; ergon = trabalho, obra): Deus é o único agente definitivo que opera a salvação através da justificação, regeneração, adoção etc. Ele fornece graça (através de sua Palavra, seu Espírito, da pregação e das ordenanças, embora não esteja vinculada exclusivamente ao batismo e à Ceia do Senhor) que afeta a salvação através da fé possibilitada pelo Espírito (Atos 18.27; 1Pedro 4.11).

De acordo com a teologia católica, a salvação é sinergista (syn = junto; ergon = trabalho, obra): Deus e as pessoas trabalham juntos para operar a salvação dos pecadores. A graça de Deus inicia o processo e os fiéis católicos cooperam com essa graça. Fundamentalmente, a graça é infundida através de sacramentos, transformando, deste modo, os fiéis, para que possam se engajar em boas obras a fim de merecerem a vida eterna. Uma vez que a salvação é um processo contínuo e a graça divina pode ser perdida, os católicos, então, acreditam na perda de salvação. Consequentemente, eles não podem desfrutar da segurança da salvação, uma doutrina adotada por muitos protestantes.

Salvação – como Deus opera para resgatar pecadores – continua a ser um grande divisor doutrinal.

AUTORIDADE

Quem ou o que constitui a autoridade no relacionamento entre Deus e as pessoas? O “princípio formal (a estrutura autoritativa) do protestantismo” continua a ser um ponto de divisão entre as duas tradições.large_has-rome-really-changed-its-tune-vepdf1js

O princípio protestante do sola Scriptura – somente a Escritura – significa que a Palavra de Deus é a autoridade definitiva em todas as questões de fé e prática. Cada doutrina, cada ação moral e questões similares devem estar baseadas na Escritura. Esta posição não nega o valor dos credos da igreja primitiva, as confissões de fé protestantes e os distintivos do evangelicalismo. No entanto, ela atribui uma autoridade ministerial a essa sabedoria do passado – desempenha um papel útil; não uma autoridade magisterial ou definitiva. E, para cada igreja protestante, Deus deu pastores que têm autoridade para ensinar, guiar, exercer a disciplina, se engajar em missões etc.

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A estrutura católica de autoridade é como um banco de três pernas. Uma perna é a Escritura, que é a Palavra de Deus escrita. Católicos e protestantes continuam a discordar a respeito do cânon – a lista oficial de livros – do Antigo Testamento. A Bíblia católica contém os apócrifos, que são sete livros adicionais (Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque e 1 e 2 Macabeus), além de trechos adicionais em Ester e Daniel. Uma vez que esses escritos nunca fizeram parte da Bíblia hebraica de Jesus e dos apóstolos, bem como não eram aceitos como parte do Antigo Testamento da igreja primitiva até o final do século quarto, os protestantes, então, rejeitam os livros apócrifos.

A segunda perna é a Tradição, o ensino de que Jesus comunicou questões oralmente aos seus apóstolos, os quais, por sua vez, comunicaram aos seus sucessores, os bispos, e que é mantida pela hierarquia da Igreja Católica. Dois exemplos da Tradição são a imaculada conceição de Maria e sua assunção corpórea.

A terceira perna é o Magistério, ou o ofício do ensino da Igreja. Composto pelo papa e os bispos, o Magistério continua a fornecer a interpretação oficial da Escritura e a proclamar a Tradição de maneira infalível.

Desta forma, a Tradição e o Magistério juntos constituem a estrutura de autoridade na Igreja Católica. A questão da autoridade continua a ser um grande ponto de divisão entre católicos e protestantes.

A MISSA

Desde o Vaticano II, a Igreja instituiu muitas mudanças em sua Missa. A mudança mais óbvia é a sua celebração na língua do povo, e não em latim. Considerando que antes se dava pouca atenção à Escritura, ela agora recebe um lugar de proeminência, principalmente na primeira parte da Missa, a Liturgia da Palavra. Há leituras do Antigo Testamento, do Novo Testamento e de um dos Evangelhos. Além disso, a homilia do padre (ou o pequeno sermão) reflete idealmente aqueles três textos e expõe o seu sentido comum. Os participantes são encorajados a participar da Missa com a disposição apropriada (com fé, humildade e receptividade) e não como um mero ritual.

Embora protestantes ainda discordem com muitas das coisas que acontecem na Missa, ela tem experimentado muitas mudanças significativas desde os dias de Lutero.

TRANSUBSTANCIAÇÃO

A discordância protestante mais notável com a Missa Católica diz respeito à presença de Cristo no sacramento da Eucaristia. Trata-se da discordância mais evidente, uma vez que protestantes são proibidos de participar desse sacramento.

A Igreja Católica acredita que, durante a Missa, o poder de Deus e as palavras e ações do padre provocam uma mudança na natureza do pão, de modo que ele se torna o corpo de Cristo; provoca também uma mudança na natureza do vinho, de modo que ele se torna o sangue de Cristo. A crucificação de Jesus que aconteceu há dois mil anos não é um evento que permanece encerrado no espaço e tempo. Em vez disto, sua morte é reapresentada durante a Missa. Assim, a Eucaristia, “a fonte e ápice de toda a vida cristã” (Catecismo da Igreja Católica, seção 1324), faz o sacrifício singular de Cristo estar presente repetidas vezes.

Esta tem sido a visão da Igreja desde o século 13 e a crença permanece nos dias de hoje. Os reformadores discordavam fortemente da ideia de transubstanciação e nenhum protestante a adotou desde então. A transubstanciação continua a ser um grande ponto de divisão entre católicos e protestantes.

MARIA

Desafiadas pela vasta divisão entre católicos e protestantes sobre o papel de Maria, as duas tradições pelo menos mantém três pontos em comum: Maria é a mãe de Deus, ou seja, aquela a quem ela deu à luz é o Filho de Deus, plenamente divino. Ela é uma mulher bendita, pois foi a mãe de nosso Salvador e Senhor (Lucas 1.42, 48) e é um modelo de obediência de fé, pois se rendeu à difícil vontade de Deus para ela (Lucas 1.38, 45).

Ainda assim, as principais doutrinas que os protestantes rejeitam incluem a imaculada conceição, a ausência de pecado, a virgindade perpétua, a participação nos sofrimentos de Jesus para conquistar salvação e a assunção corpórea ao céu. Os protestantes também rejeitam os “títulos de Advogada, Auxiliadora, Protetora, Medianeira” (Catecismo da Igreja Católica, 969). O papel de Maria continua a ser uma grande diferença entre católicos e protestantes.

OS SACRAMENTOS

A Igreja Católica adota sete sacramentos: o Batismo, a Confirmação (ou Crisma), a Eucaristia, a Penitência (ou Reconciliação), a Unção dos Enfermos, o Matrimônio e as Santas Ordens. Os reformadores reduziram este número para dois, ressaltando que somente o batismo e a Ceia do Senhor foram ordenados por Jesus e possuem sinais físicos que os acompanham (batismo: Mateus 28.18-20, água; a Ceia do Senhor: Mateus 26.26-29, pão e taça).

Além disso, protestantes discordam que esses sacramentos sejam eficazes no sentido de se conferir graça ex opere operato pelo simples ato de se ministrar o sacramento. Quando um padre ministra o Batismo, por exemplo, a graça é infundida no infante e ele é limpo do pecado original, nascido de novo, e incorporado em Cristo e sua Igreja. Seu batismo é eficaz não importando o estado moral do padre que ministra o sacramento, e o infante, claramente, não possui uma disposição para ser salvo. Os protestantes enfatizam a associação do batismo e a Ceia do Senhor com a Palavra de Deus e com a fé que aceita a graça de Deus, a qual não é infundida nas pessoas.

O número, a natureza e a ministração dos sacramentos continua a ser um grande ponto de divisão entre católicos e protestantes.

PURGATÓRIO

De acordo com a teologia católica, se um católico morre na graça de Deus (não tendo um pecado mortal não confessado que o condenaria ao inferno), mas não está plenamente purificado, ele vai para o purgatório. Esse é um estado temporal de purificação final da mancha do pecado perdoado, purificando-o, de modo que ele por fim irá para o céu. Embora ele passe por um sofrimento passivo no purgatório, sua experiência pode ser abreviada. Os santos no céu intercedem por ele. Católicos que estão vivos também rezam por ele e entregam dinheiro para que as Missas sejam celebradas em seu favor e obtém indulgências em seu nome. Uma indulgência redime a totalidade de uma punição temporal ou parte dela.

A teologia protestante diverge dessa doutrina porque sua base é oriunda de 2Macabeus 12.38-45, um escrito apócrifo, e de uma interpretação equivocada de outros textos bíblicos (1Coríntios 3.15; Mateus 12.32). Além disso, se a justificação declara um pecador não como “não culpado”, mas sim como “justo”, não há necessidade para uma purificação posterior do pecado após a morte.

O purgatório continua a ser uma grande diferença entre católicos e protestantes.

Ainda em reforma

Embora algumas coisas tenham mudado na Igreja Católica Romana para aproximar católicos e protestantes depois de quinhentos anos, muitas grandes diferenças continuam a separá-los. Uma abordagem a este dilema é minimizar a separação. Prevê-se, por exemplo, que o Papa Francisco fará uma declaração no próximo ano de que a Reforma acabou. Trabalhando com a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, ele enfatizará os pontos de concordância alcançados nesta doutrina outrora divisiva e ressaltará que os anátemas (condenações) do século 16 de protestantes feitos por católicos e de católicos feitos por protestantes estão removidos. Desta forma, a Reforma irá formalmente terminar.

Tragicamente, esta perspectiva falha em abordar as diferenças contínuas entre as duas tradições. A Igreja Católica ainda mantém doutrinas inverídicas sobre justificação, salvação, autoridade, transubstanciação, Maria, os sete sacramentos que são eficazes ex opere operato e o purgatório. Não é útil contornar essas questões pelo bem da unidade, utilizando o menor denominador comum como abordagem.

Embora possamos concordar que muitas coisas mudaram, também devemos concordar que a Reforma permanece inacabada.

Traduzido por Jonathan Silveira e revisado por Tiago Silva.

Texto original: Has Rome Really Changed Its Tune? Desiring God.

gregg-allison Gregg Allison é professor de teologia cristã no Southern Baptist Theological Seminary em Louisville, Kentucky, e autor do livro Roman Catholic Theology and Practice: An Evangelical Assessment, a ser publicado pela editora Vida Nova.

Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est

Hoje se comemora no mundo todo os 499 anos da Reforma Protestante – mas, o que significa seu lema “igreja reformada, sempre se reformando”?

Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est – Igreja reformada, sempre se reformando

“Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est”, de autoria do reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676), à época do Sínodo de Dort (1618-1619). Este slogan, que pode ser traduzido como “A Igreja é reformada e está sempre se reformando”, tem sido interpretado como se Voetius estivesse dizendo que uma característica da Igreja Reformada é que ela está sempre mudando.

É muito difícil imaginar que Voetius, tivesse usado este lema para encorajar a abertura da Igreja para novas idéias de qualquer tipo. Voetius estava tentando qualificar o argumento de que a Igreja deveria estar aberta para receber novas luzes sobre pontos que pareciam imutáveis. Voetius não negou o princípio da reforma constante, mas destacou que o alvo era sempre retornar às Escrituras, que tinham sido a base da Reforma.

As palavras de Voetius vêm sendo reinterpretadas ao longo dos anos e usadas de formas que nunca passaram pela mente do teólogo calvinista holandês. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, tomou para si a parte final do aforismo de Voetius, “reformanda est”, após reinterpretá-lo para justificar as mudanças que introduziu no catolicismo tradicional. Os seguidores de EllenWhite, profetisa do Adventismo, usam-no para justificar sua reivindicação de serem uma reforma da Reforma. E mais recentemente, o lema ressoa distorcido, mais uma vez. Uma ala da própria Reforma protestante tem usado o moto para justificar mudanças e inovações na Igreja Reformada que certamente não estão de acordo com as Escrituras.

Só para ilustrar, “Semper Reformanda” é o nome de uma organização religiosa nos Estados Unidos que defende a inclusão de gays e lésbicas no ministério pastoral e o casamento homossexual. O grupo adotou este lema porque entendeu que ele expressa o princípio mater da Reforma, que as igrejas reformadas devem mudar a cada geração, para se contextualizar às mudanças da sociedade, da cultura e das novas compreensões.

Essa, na verdade, sempre foi o entendimento daqueles que acham que o mais importante na Reforma Protestante não foi ter voltado no passado para resgatar as antigas doutrinas da graça, mas de ter ido em frente, promovendo uma mudança no status quo (não estou dizendo que todos os que pensam assim são a favor da agenda GLT). A idéia subjacente é que o novo sempre é melhor. Querem o reformanda mas não o Sola Scriptura. Torcem Voetius. [1]

A realidade nos mostra que, passados tantos anos, as verdades fundamentais e solenes redescobertas pelos reformadores continuam sendo desprezadas, tanto fora quanto dentro do movimento evangélico, no Brasil e mundo afora. Podemos exemplificar isso com um dos grandes princípios acentuados pela Reforma: “Sola Scriptura” , quantas invencionices vemos todos os dias, sessão do descarrego, fogueira santa, maldição hereditária, movimento apostólico, atos proféticos, etc. Isso apenas para demonstrar o quanto estamos distantes das sagradas escrituras.

Muitos pensam que reformar significa “inovar”, dando abertura à criatividade doutrinária, metodológica e cúltico. Para esses, reformar tem a ver com uma liturgia carregada de coreografia, uma teologia carregada de misticismo e um comportamento cheio de gestos e posturas que cheiram mais ao paganismo do que ao cristianismo ensinado e praticado por Jesus Cristo nos evangelhos.

Para muitos, a reforma tem a ver com inovações, trazendo para dentro da igreja uma teologia contextualizada, que consiga responder aos anseios do povo, um pragmatismo religioso. Aliás, esta era a tese do Liberalismo Teológico do Século XIX. Ideias fundamentadas numa filosofia puramente antropocêntrica, porém, muito distante do protestantismo Cristocêntrico.

Contudo, quando se olha para o Movimento da Reforma do Século XVI, não é isso que se percebe, visto que a grande luta de Martinho Lutero foi combater exatamente esse tipo de inovacionismo que estava correndo com a igreja cristã de então, trazendo heresias das mais absurdas para dentro dela.

Lutero percebeu que reformar não era inovar a sua teologia ou a sua liturgia, mas sim, restaurar e redescobrir aquilo que havia se perdido no decorrer de séculos de trevas, quando a Bíblia já não era mais o fundamento doutrinário da igreja e sim tradições resultantes das decisões dos concílios. Logo, o que se consumou como Reforma Protestante no século XVI não foi um movimento inovador, mas restaurador, uma volta às origens, um retorno à Palavra de Deus.

Uma das grandes descobertas da Reforma Protestante foi a “sola Scriptura”, que era um retorno exclusivo à Palavra de Deus e a ela somente. O objetivo era a pregação e a exposição da Escritura Sagrada, ensinada, lida e vivida como a única regra de fé e de prática, como alicerce sobre o qual devem se fundamentar todas as decisões. É preocupante quando se percebem pessoas buscando inovações, baseadas em movimentos carismáticos e/ou neopentecostais, muitos deles importados de outros países, que nada mais são do que invenções de homens que se dizem receptores de uma nova revelação de Deus, mas que de Deus e de Sua Palavra nada têm.

Reformar é necessário, “Igreja reformada, sempre se reformando”, porém, é necessário entender que essa reforma não é inovação, modernização do conteúdo da fé, mas sim restauração do entendimento desse conteúdo, e isto implica em olhar para frente compreendendo o que a relação em Cristo nos legou. Assim, a questão não se impõe com novos métodos, mas sim, com o velho método, que faz voltar à Palavra, extraindo dela aquilo que de fato ela ensina. A Palavra é a referência.

Cremos que a vida cristã é dirigida pela Palavra de Deus, por isso, devemos estar produzindo reforma e, acima de tudo, estarmos sendo, nós mesmos, reformados, a fim de sermos bem sucedidos. Essa foi a promessa de Deus e é o Seu desejo, conforme falou por Josué ao Seu povo: “Não cesses de falar deste livro da lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem sucedido” (Js 1.8).[2]

Fontes:

[1] Blog tempora-mores
[2] Site monergismo
Livro Reforma Agora – Renato Vargens – Editora Fiel
Vídeo: Site reformai