Pentecostal x Continuísta

Algum tempo atrás recebi a visita de um amigo em nossa igreja que após ouvir o ensino que eu ministrei à igreja, disse-me:

Pensei que você fosse CONTINUÍSTA, não pentecostal!

Confesso que tal afirmação deixou-me preocupado, pois nunca abri mão do pentecostalismo, SOU PENTECOSTAL, embora eu tenha algumas reservas com o movimento pentecostal, critico veementemente os movimento de atos proféticos, ungir objetos ou lugares com óleo, os movimentos apostólicos, etc.

Minha preocupação não é como ele ou outros amigos ou pastores me veem, mas como o pentecostalismo é visto por muitos, e o pior, é o que o pentecostalismo se tornou. Hoje falar em pentecostalismo é atribuir TODO o movimento do “rê tê tê”, e as mazelas neo-pentecostais ao pentecostalismo.

Quando alguém que não adota tais procedimentos, mas se diz crer nos dons espirituais, logo é tido como CONTINUÍSTA e não pentecostal.

Hoje não irei falar do movimento pentecostal, quero aqui apenas afirmar que embora não adote práticas comuns as igrejas que se dizem pentecostais (ao ver são neo-pentecostais), sou pentecostal, não sou continuísta, abaixo esclareço as diferenças básicas entre PENTECOSTALISMO E CONTINUÍSMO.

O que é continuísmo?

O continuísmo ensina que todos os dons extraordinários expressos nas Escrituras estão disponíveis para os nossos dias a qualquer cristão inserido na Igreja. Portanto, todo pentecostal é necessariamente continuísta. Agora, nem todo continuísta é pentecostal, isso porque o pentecostalismo vai além do continuísmo. Alguns continuístas famosos não estão dentro da tradição pentecostal. Alguns teólogos como Donald A. Carson, John Piper, Wayne Grudem, por exemplo, são de tradição calvinista e não possuem nenhuma ligação direta com igrejas pentecostais.

O que é pentecostalismo?

É um continuísmo acrescentado de outro dom extraordinário: o Batismo no/com o Espírito Santo. Esse dom, segundo a teologia pentecostal, capacita o crente ao serviço da proclamação (cf. Atos 1.8). Não é um dom melhor nem pior do que os demais, mas difere no propósito. Enquanto os dons gerais estão voltados para dentro da Igreja, o Batismo no Espírito está voltado para fora. É a Igreja capacitada a agir no mundo, enquanto os demais dons capacitam à igreja na ação comunitária de edificação e consolo.

NOTA: No pentecostalismo estritamente assembleiano, especialmente baseado em uma teologia lucana diferente (todavia complementar) à teologia paulina, se ensina que esse dom vem acompanhado de um sinal, o falar em línguas. Esse sinal não deve ser confundido com o dom, que é a variedade de línguas.

Veja o quadro e entenda a diferença entre os três grupos que comungam da crença na ação dos dons em nossos dias.

Continuísmo Pentecostalismo Pentecostalismo Assembleiano
Dons Espirituais Todos os dons extraordinários estão presentes na contemporaneidade. Todos os dons extraordinários estão presentes na contemporaneidade. Todos os dons extraordinários estão presentes na contemporaneidade.
Batismo no Espírito Santo É sinônimo de conversão. É um dom que capacita a igreja a proclamar o Evangelho. É diferente da conversão e pode ser acompanhado ou não de outros dons como profecia, glossolalia, curas etc. É um dom que capacita a igreja a proclamar o Evangelho. É diferente da conversão e é acompanhado dos falar em novas línguas, não como dom, mas como sinal.
Hermenêutica Não há diferença entre a teologia lucana e paulina na pneumatologia. Não há diferença entre a teologia lucana e paulina na pneumatologia. Há diferenças complementares entre a teologia lucana e paulina na pneumatologia.
Alguns Expoentes D. A. Carson; N. T. Wright, John Stott, Wayne Grudem. J. Rodman Williams; William Seymour; Martyn Lloyd-Jones; Gordon D. Fee; James K. Smith. Stanley Horton, William Menzies, Robert Menzies, Amos Yong, Roger Stronstad,

literatura Pentecostal indicada:

  • A Doutrina do Espírito Santo, Stanley M. Horton, CPAD.
  • Avivamento Pentecostal, Stanley M. Horton, CPAD.
  • Breve História do Movimento Pentecostal, José de Oliveira, CPAD.
  • Cheios do Espírito, Augustus Nicodemus, Ed. Vida.
  • Comentário Bíblico Pentecostal, French L. Arrington e Roger Stronstad, CPAD.
  • Como Receber o Batismo com o Espírito Santo, Donald Gee, CPAD.
  • Cristianismo em Crise, Hank Hanergraff, CPAD.
  • Decepcionados com a Graça, Paulo Romeiro, Ed. Mundo Cristão.
  • Dicionário do Movimento Pentecostal, Isael de Araújo, CPAD.
  • Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria, Ciro Sanches Zibordi, CPAD.
  • Evangélicos em Crise, Paulo Romeiro, Ed. Mundo Cristão.
  • Falar em Línguas, o Maior Dom? R. L. Brandt, CPAD.
  • Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento, Claudionor Corrêa de Andrade, CPAD.
  • I e II Coríntios, Stanley M. Horton, CPAD
  • Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo Brasileiro, Ricardo Mariano, Edições Loyola.
  • No Poder do Espírito, William W. Menzies e Robert Menzies, Editora Vida.
  • O Fruto do Espírito, Antonio Gilberto, CPAD.
  • Pentecostal de Coração e Mente, Rick Nañez, Editora Vida.
  • Protestantismo Tupiniquim, Gedeon Alencar, Arte Editorial.
  • Teologia Sistemática: Sob uma Perspectiva Pentecostal, Ed. Stanley M. Horton, CPAD.
  • Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal, J. Rodman Williams, Editora Vida.
  • Verdades Pentecostais, Antonio Gilberto, CPAD.

Homossexualidade na bíblia – malakoi e arsenokoitai

Recentemente levei à igreja um estudo intitulado “O que a bíblia ensina sobre homossexualidade?” e dentro do contexto que estudávamos essas palavras foram e são necessárias para uma compreensão real sobre o assunto.

Malakoi e arsenokoitai, podem ser encontradas em duas passagens diferentes do Novo Testamento.

Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais (μαλακος malakos e αρσενοκοιτης arsenokoites) passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. (1 Coríntios 6:9,10 – NVI)

Sabemos que a lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. Também sabemos que ela não é feita para os justos, mas para os transgressores e insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreverentes, para os que matam pai e mãe, para os homicidas, para os que praticam imoralidade sexual e os homossexuais (αρσενοκοιτης arsenokoites), para os seqüestradores, para os mentirosos e os que juram falsamente; e para todo aquele que se opõe à sã doutrina. (1 Timóteo 1:8-10 – NVI)

Quase todas as versões da bíblia ligam explicitamente arsenokoitai ao comportamento homossexual. A outra palavra em questão, malakoi, já não tem a mesma uniformidade, mas ao analisarmos o original grego e as principais traduções , podemos observar que ela se refere a algum tipo de pecado relacionado à homossexualidade.

Antes porem de entrarmos diretamente no assunto em questão, é necessário considerarmos algumas questões relacionadas à definições de palavras bíblicas.

  1. As versões bíblicas estão geralmente certas, em especial quando dizem, em essência, a mesma coisa. Pense nisso: cada versão da bíblia foi elaborada por uma equipe de estudiosos com especialização em erudição bíblica e nas línguas originais. Isso não significa que eles não cometem erros ou que não podem aprender coisas novas, que ignoraram. Mas significa que, depois de ler algum comentários e/ou examinar algum artigo na internet, você não conhecerá o mundo antigo ou o grego koinê melhor que eles conheciam. Nossas traduções da bíblia, por mais imperfeitas que possam ser, são traduções fieis e confiáveis das línguas originais. Não precisamos de decodificação.
  2. As palavras têm um campo semântico. Isto é uma maneira sofisticada de dizer que as palavras nem sempre significam exatamente a mesma coisa. Usando um exemplo da bíblia, pense na palavra mundo. Essa palavra pode se referir ao caminho caído da humanidade que não devemos amar (1 João 2:15-17), ou à raça humana caída que Deus amou tanto (João 3:16). Ao determinar o que as palavras específicas significam na bíblia, pode ser proveitoso ver  a mesma palavra usada em outro texto grego. Mas precisamos ser cuidadosos. Os exemplos que achamos são frequentemente de autores diferentes, que escreveram de lugares e para pessoas diferentes e viveram em séculos diferentes. Ver como uma palavra discutida foi usada no mundo antigo nos coloca no território das definições, mas raramente estudos de palavras serão decisivos, em especial se tivermos de ir muito longe do texto. Então, como saberemos o que as palavras significam?
  3. O contexto é o segredo. O passo mais importante para definir palavras difíceis é ver como elas são usadas no fluxo do texto. Que outras palavras estão ao seu redor? Que argumento o autor está tentando formular? Como ele usa a palavra em outros lugares do mesmo texto? A palavra é usada em outro texto pelo mesmo autor? O significado lexical é melhor determinado por olharmos os círculos concêntricos que começam pequenos e se movem para fora. Platão, um filosofo grego que viveu 400 anos antes de Paulo, não é tão relevante para entendermos Paulo quanto Filo, um filosofo judeu quase contemporâneo de Paulo. E pesquisar a obra de Filo não é quase tão crucial quanto entender a formação cultural de Paulo, examinar as sentenças de Paulo e traçar os argumentos de Paulo.

Mas o que realmente essas duas palavras significam?

Arsenokoitai

Na literatura grega existente, não há exemplos de arsenokoitai anterior ao uso que Paulo fez desse termo em 1 Coríntios e 1 Timóteo. A palavra é composta de homem (arsên) e cama (koitê) e poderia ser traduzida, literalmente, por “deitadores de homens na cama” ou “aqueles que levam machos para a cama“. Muito provavelmente Paulo cunhou a palavra a partir das proibições contra o comportamento homossexual em Levítico 18 e 20. Lembre da formação cultural de Paulo: ele era um judeu, da tribo de Benjamim, instruído pelo famoso Gamaliel e educado de acordo com a forma mais rígida da lei de seus pais (Atos 2:23; Filipenses 3:5-6). Paulo conhecia as Escritura muito melhor do que conhecia quaisquer outros escritos. Se as peças de Shakespeare estão permeadas de alusões e imagens bíblicas, o que dizer dos escritos e pensamentos de  Paulo – um fariseu treinado impecavelmente e o eminente teólogo da igreja primitiva?

Não é necessário que você seja um erudito em grego para ver como Paulo obteve de Levítico a palavra arsenokoitai. Essa palavra é quase certamente extraída do código de santidade de Levítico. É claro que em 1 Timóteo 1:9-10 Paulo, ao falar de arsenokoitai, estava pensando de modo amplo sobre os pecados proibidos pelo decálogo: “parricida e matricida” (quinto mandamento), “homicida” (sexto mandamento), “raptores de homens”  (oitavo mandamento), “mentirosos, perjuros” (nono mandamento). Nenhum judeu pensava que os Dez mandamentos permitiam a intimidade sexual homossexual, por isso nenhum deles ficaria surpreso em ver o comportamento homossexual – ou adultério, ou fornicação, ou prostituição, ou incesto, ou bestialidade, ou qualquer outra atividade sexual fora do casamento – incluído numa lista de pecados escrita pelo apóstolo Paulo.

Se Paulo queria chocar Timóteo, desconcertar seus amigos judeus e destruir a moral prevalecente na igreja primitiva, por admitir relações homossexuais consensuais, ele teria usado uma maneira obscura de introduzir essa mudança radical. Por que não usou a palavra paiderastes (pederastas, homens adultos que fazem sexo com rapazes), se isso era tudo que ele tinha em mente? De modo semelhante, se Paulo queria apenas seus leitores soubessem que ele estava se referindo apenas a formas abusivas de homossexualidade, não teria cunhado um termo a partir de uma porção da lei de Moisés em que todo sexo que envolve homem com homem é proibido. Paulo se opunha apenas a formas abusivas de incestos em 1 Coríntios 5? Na segunda metade de 1 Coríntios 6, ele estava dizendo para fugirem apenas das formas abusivas de adultério, fornicação e prostituição? Devemos supor realmente que Paulo = logo depois de ordenar a excomunhão por causa de pecado sexual (5:4-5,13), de fazer referencia à lei de Moisés (6:9) e antes de amparar a sua ética sexual na história da criação de Gênesis – queria dizer: “Obviamente, não estou falando em dois homens adultos que estão num relacionamento de longa duração”? E, se ele tencionava transmitir essa mensagem aos coríntios ou a Timóteo, como isso teria sido óbvio para eles?

Com base na etimologia da palavra e de suas raízes em Levítico, podemos ficar certos de que arsenokoitai carrega o significado básico “homens que fazem sexo com outros homens”. Sodomitas não é uma boa tradução, porque não há nada em 1 Coríntios ou em 1 Timóteo que ligue arsenokoitai com a história de Sodoma e Gomorra. De modo semelhante, “homossexuais” não deixa suficientemente claro se estamos falando de todos que experimentam atração homossexual ou daqueles que se identificam como gay ou algo mais. As melhores traduções comunicam a noção de atividade; arsenokoitai se refere a homens engajados em comportamento homossexual. É torpeza que  Paulo descreve em Romanos1:27 como sendo cometida arsenes en arsesin (homens em homens). Esta é a razão porque as antigas traduções do Novo Testamento traduzem arsenokoitai como “homens que se deitam com homens” (Latina), “aqueles que se deitam com homens”(Siríaca) e “deitando-se com homens” (Copta).

Malakoi

O léxico padrão do Novo Testamento lista duas definições: “ser maleável ao toque” e “ser passivo em uma relação homossexual”. A palavra pode significar delicado, como em roupas finas ( Mateus 11:8; Lucas 7:25) ou efeminado, como em homens que são penetrados (como uma mulher seria) por outros homens.

Paulo poderia estar usando a palavra de maneira mais ampla para se referir a homens que haviam se tornado imensamente femininos em aparência ou comportamento? É possível que isso seja parte do que Paulo tencionava dizer ao usar malakoi, mas é impossível que seja tudo que Paulo queria dizer. Paulo considerava uma desgraça o homem tem cabelo semelhante ao de mulher (1 Coríntio 11:14), mas nunca sugeriu que estilos de cabelo traziam risco à posição eterna  diante de Deus. Seria estranho – e intolerável para a maioria dos cristãos do lado revisionista – pensar que Paulo estava excluindo do reino de Deus homens que tinham anseio por roupas finas e comédias romântica; malakoi deve se referir a algo muito mais sério.

A lista de pecados, em 1 Coríntios 6, foi elaborada especificamente para os coríntios. Nos capítulos 5 e 6, há uma série de erros (“nem impuros [sexualmente imorais], nem idólatras [que podem incluir noções de pecados sexuais], nem adúlteros, nem malakoi, nem arsenokoitai ” [6:9]) relacionado aos problemas de pecado sexual na igreja. Depois, há mais cinco pecados (“nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores” [6:10]) relacionados aos problemas da igreja referente à Ceia do Senhor, no capítulo 11. Espremida entre adúlteros (moichoi) e homens que praticam a homossexualidade (arsenokoitai), malakoi deve se referir a algum tipo de intimidade sexual imoral, não apenas a um padrão efeminado de maneira de falar, de comportamento ou de paixões.

Este entendimento de malakoi e arsenokoitai se harmoniza com o consenso das traduções modernas da bíblia, se harmoniza com a ética vétero-testamentario, se harmoniza com o treinamento que Paulo teria recebido de um erudito judeu e, acima de tudo, se harmoniza com contexto do argumento de  Paulo. É como se 1 Coríntios 6 estivesse dizendo: “Não vos enganeis: os sexualmente imorais não herdarão o reino de Deus, e isto inclui aqueles que fazem sexo como parte de um ritual pagão, aqueles que fazem sexo com alguém que não seja sua esposa, homens que fazem papel passivo na atividade homossexual e – em concordância com a proibição geral que se acha na Torá – qualquer macho que faz sexo com outro macho”. As palavras debatidas não são tão amplas que chegam a incluir comportamento heterossexual efeminado ou tão restritas que excluem tudo, exceto comportamento homossexual abusivo. Ambos os termos se referem a homens que fazem sexo com outros homens, os parceiros ativos e os passivos. Paulo está dizendo o que achamos difícil de ouvir, mas que o resto da bíblia apoia e a maior parte da história da igreja tem admitido: a atividade homossexual não é uma bênção a ser celebrada a solenizada, e sim um pecado que precisa de arrependimento, perdão e abandono.

Franco Júnior
Soli Deo gloria

Pragmatismo religioso

“Sabe, porém isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles” (II Tim. 3:1-9).

A Inglaterra, que uma vez já foi conhecida pela sua vitalidade espiritual, agora está mergulhada numa letargia espiritual e a visão missionária dos Estados Unidos está substituindo aquilo que a Inglaterra deixou de lado. Além disso, muita coisa do que Deus está fazendo hoje está acontecendo fora desses dois países. Eu espero que a Igreja no Brasil esteja em constante oração para que, a partir do Brasil, uma outra reforma e um grande despertamento venha e tome conta do mundo.

Não sabemos o que Deus vai fazer no mundo, mas seria muito emocionante se pudéssemos fazer parte daquilo que Ele deseja fazer no Brasil. É maravilhoso ser um cristão e saber que Deus tem todas as coisas debaixo do Seu controle. Todos nós sabemos da necessidade de um grande avivamento, mas ao mesmo tempo existe uma grande polêmica nesses dias sobre a questão. Sem sombra de dúvidas, se convidássemos as pessoas para uma reunião de avivamento, muitas delas viriam com conceitos diferentes do que é avivamento. Assim sendo, faz-se necessário ter uma definição clara em nossa mente do significado desse termo. Qual a diferença entre avivamento e avivalismo, se assim podemos chamar?

Avivalismo e Pragmatismo

Avivalismo, especialmente na tradição deixada por Charles Finney, é, na realidade, um fenômeno americano e queremos tratar de parte desse fenômeno. Não somente porque é um produto feito na América, mas porque muitos dos movimentos que estão vindo dos Estados Unidos para outras partes do mundo têm essa visão característica de entender avivamento segundo o modelo de Charles Finney.

Esse modelo tem como base o que nós chamamos de pragmatismo. Se você for abrir um negócio você tem que ser pragmático e se você vai criar uma família, existe uma série de considerações práticas que você precisa sempre ter em mente; e, certamente, o mesmo se aplica quando nós estamos fundando uma Igreja e queremos desenvolvê-la.

Todos sabemos que há preocupações práticas que devemos considerar, mas o pragmatismo é uma filosofia que empurra para a periferia uma série de princípios fundamentais e elege, como único fator relevante, a questão: “Isso funciona?”

Quais os perigos do pragmatismo? Voltando para o texto de II Tim. 3:1-9, consideraremos primeiramente os aspectos relativos à nossa chamada para o ministério. Vejamos, então, o contexto do nosso ministério. Paulo se refere a esse contexto como sendo o dos “últimos dias”. Sabemos que os “últimos dias” começaram com o tempo dos apóstolos, e terminarão com a segunda vinda do nosso Senhor. Portanto, estamos vivendo nos “últimos dias”, como, também, Timóteo estava vivendo nos “últimos dias”. Qual é o contexto, então, do ministério nesse período entre as duas vindas de Cristo? Paulo diz, em primeiro lugar, que nos últimos dias os homens serão amantes de si mesmos.

Narcisimo e Auto-Estima

Christen Lash, um sociólogo americano bastante conhecido, escreveu um livro sobre a cultura americana cujo título é: “O culto do Narcisismo”. Essa é uma acusação difícil de se fazer, porque o que ela implica é que a cultura americana é uma cultura onde as pessoas se endeusam. E como vocês se lembram “Narciso” é o nome daquele jovem da lenda grega que costumava admirar o seu próprio reflexo no espelho das águas. Mas isso não somente é parte da nossa cultura, como também se tornou parte das nossas igrejas. Muitos dos movimentos que se entitulam “avivados”, em nossos dias, simplesmente estão reavivando o narcisismo, ou seja: a adoração do “eu”. Isso pode ser visto na declaração de um desses pastores que afirmou: “A Reforma errou porque foi centralizada em Deus e não no homem, como devia ser”. Esse pastor escreveu um livro cujo título é: “Crendo no Deus Que Crê em Você”. Uma certa ocasião, trouxemos esse cidadão para falar no nosso programa de rádio. Então eu li essa passagem, onde Paulo diz que as pessoas serão amantes de si mesmas, e perguntei-lhe: “Como você pode dizer às pessoas que a salvação começa com o amor próprio, quando Paulo diz que nos últimos dias as pessoas serão amantes de si mesmas? Não estaria ele dizendo que isso é uma coisa errada, e que nós não devíamos ser amantes de nós mesmos? E como Deus vai nos fazer felizes com esse falso evangelho narcisista?”

O que está acontecendo é que a piedade e a santidade deixaram de ser os referenciais pelos quais julgamos se um movimento é ou não é do Espírito. Assim, o critério que tem sido adotado é: “Funciona? Vai me fazer feliz? Vai me ajudar a criar minha família? Vai consertar o meu casamento?”. Todas essas questões são importantes, à luz das Escrituras, mas não são as mais importantes.

Em segundo lugar, Paulo diz que eles serão amantes do dinheiro. Porque as pessoas amam excessivamente a si mesmas, elas criam o evangelho da auto-estima; e porque as pessoas amam excessivamente o dinheiro, elas criam o evangelho da prosperidade.

Rebeldia, desprezo pelo passado e busca do prazer

Paulo diz ainda que haverá muito orgulho e revolta contra as autoridades. Haverá pessoas desobedientes aos pais. Uma geração não se preocupará com a geração anterior. O cantor Bob Marley escreveu uma música sobre a cultura americana dizendo: “Povo do futuro, onde está o teu passado? Povo do futuro, quanto tempo vocês vão durar?” O povo que não tem passado também não tem futuro. Não sei se Bob Marley era crente, mas com certeza esses versos refletem um ponto de vista bíblico ao tentar se segurar naquilo que pede o seu passado.

Eu quero lhes garantir que se levarem a doutrina bíblica a sério, muitos irmãos e irmãs vão lhes dizer que vocês não estão andando nos passos do Espírito; vão lhes dizer que o Espírito Santo hoje quer fazer uma coisa inteiramente nova, tal como nunca fez no passado. E o que vocês vão falar? Vão falar sobre os grandes avivamentos do passado, sobre a Reforma? Qual o valor disso para os amantes de si mesmos e materialistas? Eles responderão que Deus está fazendo algo completamente diferente nos dias de hoje. Mais uma vez eu quero lembrar que isso faz parte do narcisismo que diz o seguinte: – “eu é que sou importante e aqueles da minha geração é que são importantes e não os que vieram antes de nós”.

E ele diz também que as pessoas serão hedonistas, amantes do prazer, nos últimos dias; como ele diz no verso 4, serão mais “amigos dos prazeres que amigos de Deus”. Mais uma vez queremos enfatizar: Se você perguntar em uma Igreja: “Vocês concordam com o hedonismo?” Creio que ninguém vai responder sim a essa pergunta. Mas se você entrar numa livraria evangélica, se ouvir uma emissora de rádio evangélica, se prestar atenção a muitos sermões evangélicos, você ouvirá mensagens afirmando que o Cristianismo é a melhor maneira para você se auto-realizar. Quantos testemunhos temos visto que funcionam como comerciais de televisão? Nos Estados Unidos, temos aquelas propagandas de dieta que mostram uma pessoa antes e depois da dieta. Muitas vezes, os testemunhos dos crentes são assim: “Antes eu era triste, agora sou feliz; antes eu era deprimido, mas agora eu estou extremamente motivado para viver”. Esses são benefícios maravilhosos, mas, por vezes, a verdade é que nós, como cristãos, nos tornamos tristes. Algumas vezes, o caminho da cruz é o caminho do sofrimento, e nem sempre estamos tão entusiasmados a respeito disso. Apesar de tudo isso, a perspectiva que predomina nos nossos dias é que temos que viver para satisfazer a nós mesmos.

Moralidade sem piedade

No verso 5 do texto destacado, Paulo diz: “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”. Veja bem! O que Paulo está dizendo é que pode haver uma moralidade sem Deus. Existem pagãos que tem uma vida moral excelente, e há ímpios que acreditam ser errado você trair sua esposa. Há pessoas não cristãs que têm famílias muito boas. Mas será que este é o propósito do cristianismo? Consertar tudo aquilo que está moralmente errado no mundo, ou será que o foco está em Deus, nos Seus mandamentos justos, e no Evangelho pelo qual nós devemos viver?

É esse o contexto do nosso ministério. Então respondamos à pergunta: Qual o nosso chamado para o ministério? O exemplo de Paulo é alguma coisa que temos de imitar nesse sentido. Mas agora perguntamos: Como, historicamente, essa filosofia do pragmatismo dominou o pensamento moderno? A figura mais destacada no cenário evangélico, neste sentido, é a de Carlos Finney. Quantos de vocês já ouviram falar de Charles Finney? Quase todo mundo. Isso é significante porque Finney é uma pessoa muito importante para aqueles que são proponentes do movimento de crescimento da Igreja e do movimento de sinais e prodígios.

Evangelho ou Pragmatismo?

Charles Finney era presbiteriano, mas atacou a Confissão de Fé de Westminster que ele próprio subscrevera. Ele a chamou de: “um papa de papel”. Ele dizia, no século XIX em que viveu: “Nós já somos pessoas muito ilustradas e racionais para acreditar em todas essas coisas aí que a Confissão de Fé está dizendo”. Vejam algumas das coisas que Charles Finney escreveu:

Quando o homem se torna religioso – disse Finney – ele não recebe um poder que não tinha antes, ele simplesmente muda a sua vontade, e resolve seguir, agora, numa direção moral. Religião é obra do homem, não é um milagre e nem depende de um milagre em qualquer sentido; é simplesmente um resultado filosófico do uso correto de técnicas. O homem já possui, por natureza, toda a habilidade necessária para prestar perfeita obediência a Deus, portanto o objetivo do ministro é emocionar as pessoas até que se disponham a tomar essas decisões.

Foi dessa filosofia que nasceu o que ficou chamado naquela época de “novas medidas introduzidas por Finney”. Por exemplo: O sistema de apelo para que as pessoas se manifestem fisicamente e caminhem até à frente em resposta à pregação nasceu com Charles Finney, nesse período. Em sua Teologia Sistemática, Finney nega explicitamente a doutrina do pecado original. Ele diz ainda que a doutrina da substituição vicária de Cristo é uma ficção, e que a justificação pela graça, por meio da fé somente, é “outro evangelho”. Com certeza, é um evangelho diferente daquele que Finney estava pregando.

É isso que Paulo diz a Timóteo, quando fala de pessoas que têm forma de piedade mas negam, entretanto, o seu poder. Afinal de contas, onde reside o poder da piedade? É o poder de Deus para a salvação! E que poder é esse? É o evangelho de Jesus Cristo! Somente o Evangelho pode nos capacitar a viver a vida cristã. Portanto, é possível ter moralidade sem piedade; e esse é o resultado do pragmatismo.

Mais tarde, tornou-se conhecida a idéia de D.L. Moody. Ele disse no século XIX que não faz nenhuma diferença como você leva alguém a Deus; se você conseguir fazer isso, não importa o meio. O importante é levar, de qualquer maneira, a Deus.

Uma vez perguntaram a Moody: Qual é a sua teologia? Ele disse: “Minha teologia? nem sei se eu tenho uma!”. Vejam bem! Moody era um vendedor de sapatos, e um dia ele disse que ao se tornar evangelista não mudou de profissão, o que ele havia feito era trocado de produto.

Como abordamos o pragmatismo corporativo da nossa cultura? Alguns dizem que a contribuição distinta da América para a história da filosofia foi a criação do pragmatismo. Um dos grandes pais do pragmatismo e quem o transferiu da esfera religiosa para a esfera secular foi William James. Ele era filho de pastor; pastor, ele próprio, e também professor da Universidade de Harward. Ele disse: “Faça a seguinte pergunta: Como é que você define que determinada verdade é o que você deve crer?” E acrescentou: “A resposta é que você tem que determinar o seu valor em termos de experiência e resultado”. Então, com princípios pragmáticos, analisou a doutrina de Deus dizendo o seguinte: “Se a doutrina de Deus funciona, então é verdade. O pragmatismo tem que adiar questões dogmáticas porque no começo nós não sabemos qual reivindicação doutrinária vai produzir resultado”.

Acredito que quase ninguém iria marcar essas coisas num exame tipo teste dizendo que acredita nelas, mas, na prática, o que acontece é que esse é o credo do evangelicalismo mundial hoje. Um evangelista americano famoso disse: “Não tente entender, simplesmente comece a desfrutar, porque funciona; eu já tentei”. Ele estava falando a respeito da meditação transcendental da Nova Era. Na década de 50 do nosso século, esse pragmatismo se desenvolveu em termos de pensamento positivo. Foi então publicado um livro chamado “A Mágica do Crer”. Esse livro propõe que há uma certa qualidade mágica no simples ato de crer. Porém, a verdade é outra. No cristianismo, o que salva não é o ato da fé, mas sim o objeto da fé. Nós não somos salvos pela fé, não somos justificados pela fé; nós somos justificados pela justiça de Cristo que nos é imputada. Mas hoje em dia, desenvolveram essa equação de que fé é igual a pensamento positivo. Na realidade, essa última frase que mencionei foi uma citação de Peter Wagner.

Deus como objeto de consumo

Muito bem! Esses conceitos funcionam numa sociedade materialista, que está satisfeita e centralizada no ego; pode funcionar muito bem na América do final do século XX, pode ser até que funcione em São Paulo também, e pode funcionar em Londres. Mas imagine o seguinte quadro: Você vai a um cristão do século I e diz a ele que a razão principal pela qual ele está indo para a boca dos leões é porque o Cristianismo funcionou melhor do que as outras religiões!

Os testemunhos que temos no Novo Testamento são muito diferentes dos testemunhos que nós vemos hoje em dia. No Novo Testamento temos a palavra de testemunhas oculares, que é muito mais importante que o nosso próprio testemunho. O que é que Paulo disse em I Cor. 15? Ele disse: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e é vã a vossa fé… Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Ele não diz “pelo menos vocês têm uma vida feliz e saudável!”. E ele também não está dizendo “Bem! o que é que você pode perder?” Por que Paulo não fez isso? porque ele não era um pragmático. Paulo fundamentava todas as reivindicações da fé cristã no Evangelho verdadeiro.

Temos que nos perguntar: “Será que não estamos usando a Deus? Será que, finalmente, não embarcamos nesse consumismo da nossa sociedade? Será que não estamos tratando a Deus como tratamos um produto?” São perguntas muito importantes que devem ser feitas a nós mesmos. “Será que Deus está nos usando ou nós estamos usando a Deus?”

Reavivamento e Reforma não virão à Igreja até que a mentalidade dos crentes seja desviada desse egoísmo humano, da centralização no homem que Paulo descreve, para o verdadeiro Evangelho e para Deus.

Nos Estados Unidos, temos um adesivo que diz: “Jesus é a resposta”. Os incrédulos fizeram um outro adesivo para retrucar a esse: “Qual é a pergunta?” Considere, agora, o que diz o pragmatismo: “Eu não sei qual é o seu problema, mas qualquer que seja, Deus pode resolver. O seu carro está enguiçado? A sua vida familiar não está progredindo como devia? Deus pode consertar em um piscar de olhos!”. Assim, passamos a consumir a Deus. Nós usamos a Deus, ao invés de amá-Lo, servi-Lo e honrá-Lo.

Muito bem! Então qual é o propósito do nosso ministério? Vejamos o que diz Paulo:

“Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra, – que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção para a educação na justiça. a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, que não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as cousas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (II Tim. 3:10-4:5).

O modelo apostólico

Em primeiro lugar, o propósito do nosso ministério é seguir o modelo apostólico. Paulo menciona aqui o seu ensino, a sua maneira de viver, o seu propósito, a sua fé, a sua paciência, o seu amor, e a sua perseverança diante das tribulações. Perseguições? Sim! É o que ele diz no verso 12. Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Será que é isso o que estamos ouvindo hoje? Ou será que estamos ouvindo outra mensagem? Algumas vezes você vai pensar que não está dando certo, que as coisas não estão funcionando como deveriam, como lemos em Romanos, capítulo 7. Nós sofreremos como cristãos, e ainda vamos sofrer com os nossos pecados.

A proclamação da Lei e do Evangelho

Além de seguir o seu exemplo, Paulo quer que Timóteo também se firme naquelas verdades que aprendeu quando era jovem. Veja que Paulo, ao invés de nos levar à questão do pragmatismo: “Será que funciona?”, ele nos conduz para as Escrituras. Ele diz: “’prega a Palavra’, com muita paciência instruindo as pessoas. Porque haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina. Ao contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como quem sente coceira nos ouvidos” (4:3).

Vejam! sempre temos coceira nos ouvidos. Pragmatismo não é uma coisa nova. Na realidade já foi praticado desde o jardim do Éden. Quando Eva viu que a árvore era agradável para se ver, para descobrir o conhecimento e desejável para trazer entendimento; então ela tomou do fruto e comeu. O que significa para nós “pregar a Palavra”? O que Paulo quer dizer no verso 5 “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista”?. O que ele quer dizer com isso, “pregar a Palavra”? Vez após vez, Paulo e os demais escritores bíblicos nos dizem que isso é a proclamação da lei. Na verdade, é pela proclamação da lei santa de Deus que nós somos tocados e feridos. A lei de Deus vem até nós e ela não vem dizendo assim: “Eu vou transformar a tua vida numa vida feliz!”, ela não vem dizendo: “Vou te dar prosperidade!”. Na realidade, a lei vem para nos dizer exatamente aquilo que Deus tem dito que requer de nós. A lei nos confronta com a glória de Deus e a nossa pecaminosidade torna isso aterrorizante!

Finalmente, o Evangelho vem e causa também impressão em nós. Há uma Igreja no Estado do Arizona, cujo pastor, numa entrevista que foi publicada na revista Newsweek, disse: “As pessoas hoje em dia não estão preocupadas com doutrinas como justificação, salvação ou expiação. Nos dias de hoje, ninguém entende esses termos. O que nós precisamos fazer é atender as necessidades das pessoas!”

Imaginem um professor! Vocês não acham que seria muito estranho se o professor chegasse dizendo assim: “Não posso ensinar o alfabeto para esta criança porque ela ainda não sabe português”. Esse é o tipo de argumento que esse pastor estava apresentando. Tanto que o que hoje se passa com o nome de pregação, na realidade, não é pregação da Palavra. Porque não apresenta nem a Lei nem o Evangelho. Esses pastores começam decidindo o que é que as pessoas de sua igreja desejam ouvir. Quais são os pontos que estão em moda hoje? Quais são as necessidades das pessoas dos dias de hoje? E aí, então, eles vão às Escrituras e procuram e acham passagens que podem ser usadas para apoiar essa necessidade, ao invés de, indo ao texto, perguntarem primeiro como a santidade de Deus nos convence do nosso pecado e como o Evangelho de Cristo pode ser tão claro que até pecadores como nós podem se arrepender e crer.

Mas vocês, irmãos e irmãs, ouçam o que Paulo diz, sejam sóbrios em todas essas coisas, preguem a palavra, suportem as aflições, façam o trabalho de evangelista, e cumpram cabalmente o ministério.


Michael Horton

A INCAPACIDADE DA RELIGIOSIDADE HUMANA PARA A REDENÇÃO E COMUNHÃO COM DEUS

“Ora, os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando. Vieram alguns e lhe perguntaram: Por que motivo jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Durante o tempo em que estiver presente o noivo, não podem jejuar. Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; e, nesse tempo, jejuarão. Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho romperá os odres; e tanto se perde o vinho como os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos”. Marcos 2.18-22 ARA

Em todo lugar; em toda cultura existe um senso religioso entre a humanidade que inspira a praticar certas condutas em busca de uma comunhão com o divino, com o espiritual. Há no fundo da alma humana um sentimento de redenção, de salvação. Nas civilizações mais antigas da história humana presenciamos esse sentimento. Cravado e guardado na consciência humana por toda a história, comprovando isso. A Bíblia diz: “Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se”

. (Rm.2.14,15 ARA)

Quem inventou a religião? Talvez você me diga que foi Deu

s ou os profetas ou gurus. Não foi. Quando Adão e Eva pecaram eles buscaram se cobrir com folhas de figueira e fizeram cintas para si (cf. Gn.3.7). Depois buscaram se esconder entre árvores do jardim do Éden (cf. Gn.3.8). Aqui nasce a religiosidade: uma busca de alternativas para remediar os pecados (erros) e o distanciamento de Deus. Porém, Deus não aceitou o método humano providenciado por Adão e Eva, o criador sacrificou um animal, e com a pele os cobriu (cf. Gn.3.21). A religiosidade é uma tentativa de reparar os pecados (erros) por métodos humanos. Enquanto que Deus já providenciou o seu filho Jesus Cristo que, por seu sangue, somos perdoados. Tipificado neste animal do Éden e em todos os animais que foram oferecidos como expiação pelo pecado do povo. Como diz a Palavra de Deus: “Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus”. (Hb.10.11,12 ARA). No capítulo anterior nos diz: “não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção”. (idem 9.12 ARA). Veja ainda: Jo.1.29; Hb.9.26; Rm.5.9 e Ef.1.7.

No trecho bíblico inicial, temos uma repetição humana do Éden. Uma expressão de religiosidade, todavia, como sempre, incapaz de salvação, redenção, ou aproximação de Deus. Se não vejamos:
1) A religião põe encanto no homem e não em Deus. Veja o verso 18:
“Ora, os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando. Vieram alguns e lhe perguntaram: Por que motivo jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus discípulos não jejuam?”Tanto os fariseus quanto os discípulos de João Batista estavam jejuando. Porém, os discípulos de João Batista viram Jesus no Jordão sendo batizado, mas não o seguiram. Preferiram seguir João Batista, mesmo tendo ouvido tudo do próprio João acerca de Cristo (cf. Jo.3.26-36). Temos também os fariseus, que além de fazerem o jejum anual da expiação pelo pecado, jejuavam para chegada do Messias, embora ele tivesse diante deles não perceberam. Se acomodaram com o sistema de ritos e cerimônias que tipificavam o que haveria de vir (cf. Cl.2.17), mas não se deram conta disto (cf. Rm.10.4). O fato é que se colocarmos nossa confiança em métodos ou ritos para salvação e comunhão com Deus, teremos uma religiosidade. Que não passará de folhas de figueira como Adão e Eva usaram para cobrir suas vergonhas.As religiões no mundo praticam o jejum. Não é uma disciplina exclusivamente cristã. Zoroastro praticava jejum; Confúcio e os iogues da Índia e os judeus também. Platão e Aristóteles jejuaram. Até Hipócrates, pai da medicina moderna jejuava. Porém, como disse o profeta Isaías (cf. Is.58.3-8), jejum sem conversão, sem altruísmo, sem arrependimento dos pecados (erros), não agrada a Deus.Deus não se encanta com religiosidade. Deus quer conversão, arrependimento, que o amemos, que amemos ao próximo. Como disse Jesus ao falar sobre os mais importantes mandamentos de toda lei: “… Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo semelhante a este é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”. (Mt.22.37-40 ARA).2) A religiosidade não tem Jesus como o centro. Veja o verso 19,20:
“Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Durante o tempo em que estiver presente o noivo, não podem jejuar. Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo; e, nesse tempo, jejuarão”.Observe que Jesus responde de forma figurada que a humanidade deve se focar nele, seguir ele, esperar por ele. Pois os convidados do noivo, enquanto estivessem em sua festa, que duravam uma semana, estavam isentos das obrigações religiosas. Os convidados do noivo, enquanto estivessem com ele deviam comer e se alegrar com ele. Assim, toda a nossa fé e culto deve ser centralizada em Jesus, estar com ele, seguir a ele. E isso transcende a ritos religiosos. A forma figurada de Jesus falar aqui não desqualifica o jejum. O foco era revelar que os seus discípulos estavam com ele e criam nele, diferente dos demais que jejuavam. Para estes, Jesus não era o centro da atenções, mas o ritos e as tradições.3) A religiosidade não atende a exigência divina para redenção. Veja o verso 21,22:
“Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho romperá os odres; e tanto se perde o vinho como os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos”.Com estas outras duas formas figuradas de falar Jesus confronta a prática exterior da religiosidade (no caso o jejum). Que sem a ajuda de Deus em nos regenerar não poderemos guardar e nem obedecer os seus mandamentos. Ele diz “romperá o odres”, “o remendo novo tira parte da veste velha”. Onde a veste velha é a natureza pecaminosa (errante) do homem, bem como o odres velho. O remendo novo representa a prática da lei e da vontade de Deus para as nossas vidas. A natureza pecaminosa do homem, entretanto, não quer seguir e nem obedecer a Deus. Ela se rompe com Deus. Revelando assim que a religiosidade é uma costura inútil de remendo novo em veste velha.Fica subentendido que a veste nova é a criação de Deus no homem arrependido, que mudou de uma mentalidade de fazer a própria vontade para fazer a vontade de Deus. Isso é ser uma nova criatura. A Bíblia diz: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co.5.17 ARA). E ainda: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados”. (At.3.19 ARA).O vinho novo é a glória e a justiça divina, que precisa de um odres novo (nova criatura, novo homem) para poder se aproximar de Deus. Pois o vinho novo quando começa a fermentar dentro de um odres velho, ele se esticará até romper-se, isso dava prejuízo aos donos das vinhas. Então, os vinhateiros sempre que colocavam vinho novo tinham que trocar o odres. Assim é o homem, se não houver arrependimento, conversão, regeneração, não poderá subsistir a glória e a justiça divina, será destruído. A religiosidade não atende a demanda divina para redenção.Enfim, a religiosidade é que nem remendo novo em veste velha. Ela não restaura o pecador, não o redime. Ela não muda o estado do pecador perante o Deus santo. É apenas remendo. A religiosidade não coloca o odres novo (o novo homem, uma nova criatura, conversão, arrependimento, regeneração) isso é uma obra divina. Disse Jesus: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito”. (Jo.3.6 ARA). Paulo escreveu: “… e isto não vem de vós; é dom de Deus”. (Ef.2.8 ARA). E Jesus reitera: “… Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer do alto não pode ver o Reino de Deus”. (Jo.3.3 BJ).

CONCLUSÃO

Caro amigo, Jesus Cristo é a solução para a tua vida. O que você tenta fazer por meio da religiosidade não vai lhe trazer uma comunhão com Deus. Você precisa experimentar daquilo que Jesus pode te dar ao crer nele: “… eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. (Jo.10.10 ARA). Que é ser uma nova criatura, passar pelo arrependimento e conversão. Assim você verá e entenderá o reino de Deus. Poderá então ser redimido e provará de uma comunhão com Deus.

Legendas:
ARA – Bíblia Almeida Revista e Atualizada
BJ – Bíblia de Jerusalém
Odres: recipiente de couro onde era posto o vinho
Vinhateiros: viticultor, agricultor que cultiva vinhas
Conversão: voltar-se para Deus
Arrependimento: mudar a mente para melhor, emendar o coração e com pesar os pecados passados.
Regeneração: metáfora de ter passado por uma transformação de mente, que leva a uma nova vida que procura conformar-se a vontade de Deus.
Nova criatura, o novo homem: alguém que foi regenerado.

Fontes utilizadas:
Léxico grego de Strongs
Comentário Bíblico de William Barclay
Dicionário Online Aulete
Dicionário Miniaurélio Eletrônico versão 5.12
Bíblia Almeida Revista e Atualizada
Bíblia de Jerusalém

Bonhoeffer, a graça barata e o evangelho da prosperidade

Há 68 anos (no dia 09 de abril de 1945) morria Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo da Igreja Luterana da Alemanha.

Este erudito, ordenado e doutorado aos 21 anos, autor de vários livros, é conhecido por sua coragem e seu compromisso cristão. Quando a Igreja Católica guardou silêncio e igrejas cristãs protestantes mantiveram-se à margem, com a desculpa de “neutralidade” diante do tirano e despótico regime que pretendia levantar Hitler, Bonhoeffer foi coerente com seu discurso e levantou sua voz. Ele teve a oportunidade de ficar nos Estados Unidos em meio aos alvores que prognosticavam uma guerra mundial. No entanto, preferiu voltar ao seu país para cuidar do rebanho que Deus lhe havia entregue. Tinha sob sua responsabilidade um seminário que depois foi fechado pela Gestapo. Foi proibido de falar e ensinar mas, obedecendo ao seu chamado, continuou seu trabalho clandestinamente.

Acusado de cúmplice no plano para matar Hitler, Bonhoeffer foi preso e passou seus dois últimos anos de vida em uma prisão de Berlim, aguardando sentença final. Ali se dedicou a escrever vários de seus livros, que s ão conhecidos até hoje. Entre eles, “O Custo do Discipulado”1, uma joia da literatura cristã, que faz uma exposição à luz do Sermão do Monte (Mateus 5). Seu argumento era pôr em evidência o que significa professar uma fé abstrata, legalista e desencarnada do verdadeiro compromisso e da transformação que Jesus exige como o coração do Reino de Deus para os seus seguidores. Uma fé que não toca a alma nem a consciência, um cristianismo sem Cristo e sem cruz é uma fé estéril, inútil e vazia porque, ao final, não é sustentável. A isto Bonhoeffer chamou de “a graça barata”.

” A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado”.

73 anos depois do pastor Bonhoeffer ter escrito estas palavras em um contexto de tribulação por defender sua posição, é triste reconhecer que hoje alguns setores trilham o mesmo caminho que visa baratear a fé. A fé se torna barata quando é oferecida como um produto de consumo para satisfazer as massas que buscam uma mensagem que se encaixe aos seus desejos pessoais. Quando é oferecida como espetáculo para um público que deseja que se adoce os ouvidos e se prometa estabilidade para seu “status quo”. Quando se defende a identidade de ser filho ou filha de Deus como uma garantia para reivindicar as promessas materiais em troca de uma módica soma ou transação monetária a que alguns chamam de “lei da semeadura e da colheita” ou “pacto com Deus”.

Recentemente um tele-evangelista latino-americano ensinou (se é que se pode chamar de ensino) que devemos reclamar a Deus por qualquer necessidade material existente e pedir o “carro dos nossos sonhos como um direito adquirido por sermos seus filhos”. Em seus trinta minutos de exposição, em nenhum momento ele fez menção a outros elementos presentes na mensagem apostólica, tais como a justiça, a responsabilidade, a obediência, o arrependimento e o seguimento como parte integral do discipulado que Jesus viveu, encarnou e buscou.

Os promotores dessas correntes correm perigo de ensinar falsos ensinamentos e, assim, reduzir a mensagem a “migalhas espirituais”. Bonhoeffer tinha razão ao afirmar que “a graça barata é o inimigo mortal da igreja”.

A última conferência mundial sobre evangelização “Lausanne 3”, celebrada na Cidade do Cabo, África do Sul, se pronunciou contra a má interpretação bíblica e até a manipulação que se tem feito para alimentar o materialismo. Um dos oradores mencionou, em seu discurso intitulado “Deus promete abençoar o seu povo,” que o evangelho da prosperidade distorce o conceito de bênção quando a reconhece apenas no sentido material.

Outros preletores também comentaram o problema:

“Nós não podemos usar a opção de comprar a graça de Deus, e isso é o que faz o evangelho da prosperidade”.

“Dar é parte da nossa adoração, mas o evangelho da prosperidade faz com que o dar seja uma atividade de barganha”.

“Aos crentes é ensinado que quando fazem uma oferta a Deus podem esperar uma rentabilidade determinada. Mas Deus abençoa de acordo com a sua sabedoria, e não necessariamente com riqueza material”.

Como crentes, não podemos permanecer calados diante desses falsos ensinos que continuam a permear a igreja e prejudicam a fé. Mas o mais preocupante é que eles continuam a arrastar milhares de seguidores para beber dessas águas turvas e ilusórias. E ainda mais perturbador é que eles estão deixando para as futuras gerações um legado de discipulado que em nada reflete o coração do Reino.

Bonhoeffer não se calou porque reconheceu que seu dever como um discípulo do Senhor era falar. Deus espera algo menos de cada um de nós, hoje?

Nota:

1. Publicado no Brasil pela Editora Sinodal, com o título “Discipulado”.

O perfil do líder do século XXI

Desafios e possibilidades no pastorear e ser pastoreado.

A proposta de pensar a psicologia e a espiritualidade é sem dúvida um desafio. Temos observado que a fé e a religião, excluídas das ciências nos últimos séculos, passam novamente a despertar interesse, a ponto de surgirem diversos grupos de estudo e simpósios com este tema. Pesquisadores tanto da área médica quanto emocional buscam as interfaces com outros campos do conhecimento, na inter e transdisciplinaridade e o resultado se faz notar em termos práticos, de novos campos de atuação.

Neste encontro de pastores buscamos mostrar de forma teórico – vivencial como é possível o diálogo entre ciência e fé.

O texto bíblico escolhido como referência diz: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a Igreja de Deus.” Atos 20:28.

Ou seja, sem o cuidado de si mesmo não é possível cuidar dos outros. As demandas da atividade pastoral, em qualquer dimensão, geram desgastes físicos, emocionais, espirituais.

É preciso estar atento para se recompor tanto preventivamente quanto terapeuticamente quando necessário.

Utilizamos para estrutura deste pensar sobre si mesmo um pequeno livro, “O Perfil do Líder Cristão do século XXI” do sacerdote e professor de Psicologia Pastoral em Harvard e nas universidades Notre Dame e Yale, escritor e conferencista internacional, falecido em 1996,Henri Nouwen.

Os pontos que ele aborda, a partir dos textos bíblicos da tentação de Jesus no deserto(Mt. 4:1- 11) e o chamado de Pedro (Jo 21: 15-19),são:

1 – Da Relevância à Oração

A tentação: Causar impacto

A pergunta: Você me ama?

A disciplina: Oração contemplativa

Os religiosos são muitas vezes tentados a causar impacto a partir de si mesmos. Ser um sacerdote miraculoso, principalmente no contexto da pobreza, acaba por trazer grande popularidade… satisfazer necessidades humanas, legítimas, nos toca de perto! Nouwen propõe que o impacto se dê pelo afeto, por alguém que se importe, por um pastor que realmente apascenta suas ovelhas. Isto só é possível quando amamos a Deus acima de todas as coisas, quando Ele nos pergunta “Tu me amas?” e respondemos como Pedro “Tu sabes que te amo”! O amor nasce e cresce pela convivência de intimidade, o tempo que passamos na presença de Deus faz a diferença. Nós vamos a Ele e Ele vem a nós. Assim como Pedro, somos amados por Deus em nossa condição, sendo nós ainda pecadores, e a partir da contemplação, da oração, da solitude, somos inundados pela graça de Deus, que nos restaura.

2 – Da popularidade ao ministério

A tentação: Ser espetacular

A tarefa: ”Apascenta minhas ovelhas”

A disciplina: Confissão e perdão

Aprendemos nas Escrituras que Jesus não veio dar espetáculos. Seus milagres eram pura misericórdia para com pessoas necessitadas. Nosso conceito de sucesso é muitas vezes determinado pela mídia. Jesus não buscou ser famoso, Ele tinha um ministério e sabia o que estava fazendo. Ele escolheu pessoas que o acompanharam nesta missão. Pastores precisam aprender a conviver, a não se isolarem. A tarefa de apascentar ovelhas é relacional, envolve afetos. Cuidar das ovelhas feridas, cansadas, levá-las para bons pastos e águas tranqüilas é o que faz um bom pastor. Nouwen destaca que muitos pastores gostam de trabalhar sozinhos, tem dificuldade de repartir problemas e soluções com colegas e sentem-se, eles mesmos, cansados e abandonados. São pastores que precisam ser cuidados.

Pontua que isto se dá quando pastores aprendem a confessar, eles próprios, suas mazelas.

Escreve ele:…”na comunidade cristã, os sacerdotes e ministros são as pessoas que menos confessam os seus erros.” E como Bonhoeffer, ele constata que pela confissão e pelo perdão recupera-se a humanidade, ou seja, a relação não é profissional, mas de ajuda. Sugerimos que os pastores tenham alguém com quem conversar, e mais especificamente, que tenham um supervisor ou mentor, com os quais seja possível tratar tanto de assuntos pessoais, familiares quanto de questões eclesiásticas.

3 – De líder a liderado

A tentação: Ser poderoso

O desafio: “Outro o conduzirá”

A disciplina: Reflexão Teológica

A tentação de ser dominador, de usar o poder para resolver as questões persegue os pastores. Abrir mão do poder para usar do amor é cansativo e complicado, envolve ser o ser o que serve e não o que é servido. Aprender a conviver com o poder sem se deixar corromper é um exercício a ser vivido diariamente. Nouwen destaca que as pessoas que tem menos intimidade e afeto são as que mais controlam. Ao lembrarmos que Jesus ao ser crucificado abdicou do seu poder nos perguntamos: e quem quer a cruz?! O desafio de ser conduzido por outro é um lembrete que talvez nem tudo seja como planejamos… talvez Deus nos conduza por outros meios e caminhos. A disciplina da reflexão teológica é a de pensar com a mente de Cristo. Para ser líder, pastor de uma igreja é preciso aprender a dizer não ao fatalismo, ao desespero, a injustiça à resignação, ter a noção do Kairós frente às dores do mundo.Viver as boas novas da salvação que nos alcança como pessoas, como famílias, como comunidade e sociedade.

Ser liderado por Deus é exercitar seu pastorado pelo encontro com o semelhante, pela oração, pela confissão, pela reflexão teológica. Sem dúvida, é ser inteiro e integrado.

 

Bibliografia especifica:

O Perfil do Líder Cristão no século XXI. Worship Produções – Americana, SP 1993

Bibliografia geral:

Tournier, Paul – Mitos e Neuroses – Desarmonia da Vida Moderna.

SP, ABU Editora/Ultimato – Viçosa, 2002.

Atiencia, Jorge – Pastorear e ser Pastoreado. Curitiba; Encontro, 2000.

Azevedo, Irland Pereira de – De Pastor para Pastor – Um Testemunho Pessoal

Rio de Janeiro. Julho, 2001.

Boff, Leonardo – Saber Cuidar: Ética do humano – Compaixão pela Terra. Petrópolis;

Vozes, 2001.

Hoch, Lothar Carlos (texto avulso) – O Pastor como Pessoa – Uma conversa franca com

obreiros e obreiras da ICLB em Joinvile – 20/09/2001.

Yancey, Philip – Maravilhosa Graça – SP; Vida, 2001.

Nouwen, Henri – A volta do filho pródigo – A historia de um retorno para casa – SP;

Paulinas, 1997.

Boenhoeffer, Dietrich – Vida em Comunhão – São Leopoldo; Sinodal, 1997.

Todos somos sacerdotes

Não é necessário ser um conhecedor profundo da história eclesiástica para saber que, do ponto de vista teológico, a Reforma Protestante do século XVI teve como objetivo principal o retorno da Igreja às Sagradas Escrituras como a base para sua fé e sua vida prática. O episódio mais representativo desta ênfase foi a Dieta de Worms (maio de 1521) convocada pelo imperador Carlos V com o propósito de julgar a Martinho Lutero, que havia sido excomungado previamente como herege pelo Papa Leão por afirmar a autoridade da Bíblia acima da autoridade dos papas e os concílios. Convidado a retratar-se, o reformador alemão respondeu com a seguinte declaração da “sola scriptura, tota scriptura”, uma afirmação que sintetiza a convicção teológica evangélica básica com respeito à centralidade das Escrituras:

“Minha consciência é cativa da Palavra de Deus. Se não me demonstrarem pelas Escrituras e por razões claras (não aceito a autoridade de papas e concílios, pois se contradizem), não posso nem quero retratar-me de nada, porque ir contra a consciência é tão perigoso quanto errado. Que Deus me ajude, Amém.”

Sobre essa base bíblica os reformadores construíram o edifício teológico constituído pelas ênfases evangélicas que se resumem nas seguintes afirmações: somente a Cristo (“solus Christus”), somente a graça (“sola gratia”),somente a fé (“sola fide”), somente a glória de Deus (“soli deo gloria”), a igreja reformada sempre se reformando (“ecclesia reformata semper reformanda”). No entanto, já em 1520, antes da Dieta de Worms, Lutero escreveu três tratados em que expunha sua posição teológica em controvérsia com a sustentada oficialmente pela Igreja Católica Romana: “A liberdade cristã”, “À nobreza alemã acerca do melhoramento do Estado cristão”, e “O cativeiro babilônico”.

Ainda que não negue a necessidade de um ministério “ordenado” por razões funcionais, em seu tratado dirigido à “nobreza alemã” Lutero rejeita a forte divisão tradicional entre clérigos e leigos, e afirma o sacerdócio de todos os crentes (também denominado “sacerdócio comum”) nos seguintes termos:

“Todos os cristãos são em verdade de estado eclesiástico e entre eles não há distinção, se não somente por causa do ministério, como Paulo diz que todos somos um corpo, mas que cada membro tem sua função própria com a qual serve aos demais. Isso resulta do fato de que temos um só batismo, um Evangelho, uma fé e somos cristãos iguais, visto que o batismo, o Evangelho e a fé por si sós tornam eclesiástico ao povo cristão”.

A base bíblica desta posição é sólida. De acordo com o ensino do Novo Testamento, o único sacerdócio válido até o fim da era presente é o sacerdócio de Jesus Cristo, que se ofereceu a si mesmo em sacrifício pelos pecados e “com um só sacrifício tornou perfeitos para sempre aos que está santificando” (Hb 10.14). Todos os que confiam nele têm acesso direto à presença de Deus (10.19-22). Ninguém pode oferecer mais sacrifícios pelo pecado: a obra de redenção está consumada; Jesus Cristo homem é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Em virtude de sua relação com ele, todos os crentes participam de seu sacerdócio: são o sacerdócio do Rei (1Pe 2.9); são “reis e sacerdotes” (Ap 1.5; 5.10). E como tais são chamados a oferecer-se a si mesmos, “em adoração espiritual… como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1).

Biblicamente, todo cristão é sacerdote pelo único motivo de ser cristão. A Igreja é um povo sacerdotal. Consequentemente, todos os seus membros foram consagrados ao serviço de Deus, e para realizá-lo receberam “diversos dons”, “diversas maneiras de servir”, “diversas funções” que o Espírito reparte “para o bem dos demais” (1Co 12).

Sobre esta base bíblica, a Reforma Protestante do século XVI abriu o caminho para que cada igreja local seja uma igreja-comunidade que supere a dicotomia entre clérigos e leigos e todos os membros do corpo de Cristo, sem exceção, participem em serviços que manifestem o amor a Deus e ao próximo, de maneira prática. A pergunta que temos que nos fazer hoje é: até que ponto nossas congregações estão comprometidas com o sacerdócio de todos os crentes, levando em conta que “todos os que foram batizados em Cristo se revestiram de Cristo” e, em consequência, “já não há judeu nem gentio, escravo nem livre, homem nem mulher” (Gl 3.27-28)?