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As marcas da masculinidade

Quando um rapaz se torna homem? A resposta a essa pergunta está muito além do aspecto biológico e da idade. Conforme definida na Bíblia, a masculinidade é uma realidade funcional, demonstrada no cumprimento, por parte do homem, de responsabilidade e liderança. Com isso em mente, gostaria de sugerir treze marcas da masculinidade bíblica. Chegar a essas qualidades vitais identifica o surgimento de um homem que demonstrará verdadeira masculinidade bíblica.

1. Maturidade espiritual suficiente para liderar uma esposa e filhos

A Bíblia é clara a respeito da responsabilidade do homem em exercer maturidade e liderança espiritual. De fato, essa maturidade espiritual demanda tempo para ser desenvolvida, bem como é um dom do Espírito Santo agindo na alma do crente. As disciplinas da vida cristã, incluindo a oração e estudo bíblico sério, estão entre os meios que Deus usa para moldar um rapaz em um homem e trazer maturidade espiritual à vida de alguém que tem a responsabilidade de guiar uma esposa e uma família. Esta liderança espiritual é central à visão cristã sobre o casamento e a família.

A liderança espiritual de um homem não é uma questão de poder ditatorial, e sim uma liderança e influência espiritual, firme e confiável. Um homem tem de estar pronto para liderar sua esposa e filhos de um modo que honre a Deus, demonstre piedade, inculque o caráter cristão e leve sua família a desejar a Cristo e a buscar a glória de Deus. A maturidade espiritual é uma marca da verdadeira masculinidade cristã; um homem espiritualmente imaturo é, pelo menos neste sentido crucial, apenas um rapaz no aspecto espiritual.

2. Maturidade pessoal suficiente para ser um marido e pai responsável

A verdadeira masculinidade não é uma questão de exibir características supostamente masculinas destituídas do contexto de responsabilidade. Na Bíblia, um homem é chamado a cumprir seu papel de marido e pai. A menos que ele tenha o dom de celibato para o serviço do evangelho, o rapaz cristão deve almejar o casamento e a paternidade. Essa é, com certeza, uma afirmação contrária à nossa cultura, mas o papel de marido e pai é essencial à masculinidade. O casamento é incomparável em seus efeitos sobre o homem, visto que canaliza suas energias e direciona suas responsabilidades à consagrada aliança do casamento e à educação amorosa da família. Os rapazes cristãos devem aspirar ser aquele tipo de homem com o qual uma moça cristã se casaria alegremente, a quem os filhos obedeceriam, confiariam e respeitariam.

3. Maturidade econômica suficiente para manter-se num emprego e lidar com o dinheiro

Os publicitários e os empresários sabem a que alvo devem direcionar suas mensagens — diretamente aos rapazes e adolescentes. Esse segmento específico da população é atraído por bens materiais, entretenimento popular, eventos esportivos e outras opções de consumo. O retrato da masculinidade juvenil tornado popular nos meios de comunicação e apresentado como normal por meio de entretenimentos é caracterizado por imprudência econômica, egoísmo e lazer.

Um verdadeiro homem sabe como segurar um emprego, lidar responsavelmente com o dinheiro e atender às necessidades de sua esposa e sua família. Não desenvolver maturidade econômica significa que os rapazes frequentemente pulam de um emprego a outro e levam anos para “se acharem” em termos de carreira e vocação. Novamente, a adolescência prolongada caracteriza grande segmento da população de rapazes em nossos dias. Um homem verdadeiro sabe como ganhar, administrar e respeitar o dinheiro. Um rapaz crente entende o perigo que existe no amor ao dinheiro e cumpre suas responsabilidades como um servo cristão.

4. Maturidade física suficiente para trabalhar e proteger a família

A menos que seja incapacitado ou enfermo, um rapaz precisa desenvolver uma maturidade física que, por meio de estatura e vigor, identificam uma masculinidade reconhecível. É claro que os homens atingem diferentes tamanhos e demonstram diferentes níveis de vigor físico, mas a maturidade é comum a todos os homens, pela qual um homem demonstra sua masculinidade em ações, confiança e força. Um homem tem de estar pronto a usar sua força física para proteger a esposa e os filhos e cumprir as tarefas que Deus lhe designou. Um rapaz tem de ser ensinado a canalizar seu desenvolvimento e porte físico a um compromisso pessoal de responsabilidade, reconhecendo que o vigor adulto tem de ser combinado com a responsabilidade de adulto e a verdadeira maturidade.

5. Maturidade sexual suficiente para casar e cumprir os propósitos de Deus

Mesmo quando a sociedade celebra o sexo em todas as formas e todas as idades, o verdadeiro homem cristão pratica a integridade sexual, evitando pornografia, fornicação e todas as formas de promiscuidade e corrupção sexual. Ele entende o perigo da lascívia, mas se regozija com a capacidade sexual e poder reprodutivo que Deus lhe deu, comprometendo-se com uma moça, ganhando o seu amor, confiança e admiração — e, eventualmente, sua mão em casamento. É crucial que os homens respeitem esse dom inefável e o protejam até que, no contexto de um casamento santo, sejam capazes de satisfazer esse dom, amem sua esposa e almejem os filhos, que são dons de Deus. A sexualidade masculina divorciada do contexto e da integridade do casamento é uma realidade explosiva e perigosa. O rapaz precisa entender, enquanto atravessa a puberdade e o despertamento da sexualidade, que ele é responsável para com Deus pela administração deste importante dom.

6. Maturidade moral suficiente para liderar como um exemplo de retidão

O padrão vulgar de comportamento dos rapazes é, em geral, caracterizado por negligência, irresponsabilidade e coisas piores. À medida que um rapaz se desenvolve até à masculinidade, ele tem de desenvolver maturidade moral, enquanto aspira a retidão, o aprender a pensar como um cristão, agir como um cristão e mostrar aos outros como fazer isso.

O homem cristão deve ser um exemplo para os outros, ensinando tanto por preceito como por exemplo. É claro que isso exige o exercício de raciocínio moral responsável. A verdadeira educação moral começa com um entendimento claro dos padrões morais e deve mover-se a um nível de raciocínio moral mais elevado, pelo qual um rapaz aprende como os princípios bíblicos são transformados em viver piedoso e como os desafios morais de seus dias devem ser confrontados com as verdades reveladas na infalível e inerrante Palavra de Deus.

7. Maturidade ética suficiente para tomar decisões responsáveis

Ser um homem implica tomar decisões. Um das tarefas mais fundamentais da liderança é decidir. O estado de indecisão de muitos homens contemporâneos é a evidência de uma masculinidade atrofiada. É claro que um homem não se precipita a tomar uma decisão sem refletir, considerar e ter cuidado, mas ele se expõe a um risco, ao tomar uma decisão — e ao torná-la permanente. Isso exige uma responsabilidade moral que se estenda à tomada de decisões éticas e maduras, que glorifiquem a Deus, sejam fiéis à Palavra de Deus e estejam abertas ao escrutínio moral.

Um verdadeiro homem sabe como tomar uma decisão e viver com suas consequências — embora isso signifique que, mais tarde, ele terá de reconhecer que aprendeu por tomar uma decisão errada e por fazer a correção apropriada.

8. Maturidade de percepção do mundo suficiente para entender o que é realmente importante

Uma inversão de valores caracteriza nossa era pós-moderna, e a situação desagradável da masculinidade moderna se torna mais apavorante pelo fato de que muitos homens não têm a capacidade de desenvolver uma percepção de mundo consistente. Para o crente, isso é duplamente trágico, pois nosso discipulado cristão tem de ser demonstrado no desenvolvimento de uma mente cristã.

O cristão tem de entender como interpretar e avaliar as questões pelo espectro dos campos da política, economia, moralidade, entretenimento, educação e uma lista aparentemente interminável de outros campos. A ausência de um raciocínio bíblico e consistente da percepção do mundo é uma característica fundamental da imaturidade espiritual. Um rapaz tem de aprender como traduzir a verdade cristã em uma maneira de pensar genuinamente cristã. Precisa aprender a defender a verdade bíblica perante seus colegas e em público; e deve adquirir a habilidade de estender sua maneira de pensar bíblica, fundamentada em princípios bíblicos, a todas as áreas da vida.

9. Maturidade relacional suficiente para entender e respeitar os outros

Os psicólogos agora falam sobre a “inteligência emocional” como um fato importante no desenvolvimento pessoal. Embora o mundo tenha dado muita atenção ao QI, a inteligência emocional é tão importante como aquele. Os indivíduos que não têm a habilidade de relacionar-se com os outros estão destinados a fracassarem diante dos mais significativos desafios da vida e não cumprirão algumas de suas mais importantes responsabilidades e papéis.

Por natureza, muitos rapazes são direcionados por seu interior. Enquanto as moças aprendem a interpretar os sinais emocionais e se conectam, muitos rapazes não possuem essa capacidade e, aparentemente, não entendem a ausência dessa habilidade. Embora o homem tenha de demonstrar força emocional, constância e firmeza, ele tem de aprender a se relacionar com sua esposa, filhos, colegas e muitos outros, de uma maneira que demonstre respeito, entendimento e empatia apropriada. Ele não aprende isso jogando videogames e entrando no mundo pessoal, o que muitos rapazes adolescentes fazem.

10. Maturidade social suficiente para fazer contribuições à sociedade

O lar é o lugar essencial e a ênfase inescapável da responsabilidade de um homem, mas ele é chamado a sair do lar para ir ao mundo, o mundo amplo, como uma testemunha e como alguém que dará uma contribuição ao bem comum. Deus criou os seres humanos como criaturas sociais e, ainda que nossa cidadania final esteja no céu, temos de cumprir nossa cidadania na terra.

Um rapaz tem de aprender a cumprir uma responsabilidade política como cidadão e uma responsabilidade moral como membro de uma comunidade. O homem crente tem uma responsabilidade civilizacional, e os rapazes devem aprender a se verem como formadores da sociedade, visto que a igreja é identificada pelo Senhor como luz e sal. De modo semelhante, um homem crente tem de aprender a se relacionar com os incrédulos, como testemunha e como cidadãos de uma pátria terrestre.

11. Maturidade verbal suficiente para se comunicar e falar como homem

Um homem tem de ser capaz de falar, ser entendido e se comunicar de um modo que honre a Deus e transmita a verdade de Deus aos outros. Além do contexto da conversa, o rapaz deve aprender a falar diante de grandes grupos, vencendo a timidez natural e o temor que resulta de ver um grande número de pessoas e abrindo a boca e projetando palavras.

Embora nem todos os homens se tornarão oradores públicos, cada homem deveria ter a habilidade de levantar-se, formular suas palavras e argumentar quando a verdade está sob ataque e quando a fé e a convicção têm de ser traduzidas em argumentos.

12. Maturidade de caráter suficiente para demonstrar coragem em meio ao fogo

A literatura sobre masculinidade está repleta de histórias de coragem, bravura e audácia. Pelo menos, é assim que ela costumava ser. Ora, estando a masculinidade tanto banalizada como marginalizada pelas elites culturais, e existindo subversão ideológica e confusão proveniente dos meios de comunicação, temos de recapturar um compromisso com a coragem, compromisso esse que é transportados aos desafios da vida real enfrentados pelo homem cristão.

Às vezes, a qualidade de coragem é demonstrada quando um homem arrisca sua própria vida para defender outros, especialmente sua esposa e filhos, mas também qualquer pessoa que necessita de resgate. Com muita frequência, a coragem é demonstrada em tomar uma posição em meio ao fogo hostil, recusando-se a sucumbir à tentação do silêncio e permanecendo como um exemplo e modelo para os outros, que assim serão encorajados a se manterem firmes em sua própria posição.

Nestes dias, a masculinidade bíblica exige muita coragem. As ideologias prevalecentes e as cosmovisões desta era são inerentemente hostis à verdade cristã e corrosivas à fidelidade cristã. Um rapaz precisa ter muita coragem para se comprometer com a pureza sexual, e um homem, para se dedicar exclusivamente à sua esposa. É necessário grande coragem para dizer não àquilo que esta cultura insiste serem os prazeres e deleites legítimos da carne. É necessário muita coragem para manter integridade pessoal em um mundo que desvaloriza a verdade, menospreza a Palavra de Deus e promete auto-realização e felicidade somente pela asseveração da absoluta autonomia pessoal.

A verdadeira confiança de um homem está arraigada nas fontes da coragem, e esta é evidência de caráter. Em última análise, o caráter de um homem é revelado no crisol dos desafios diários. Para a maioria dos homens, a vida também traz momentos em que coragem extraordinária será exigida, se ele tem de permanecer fiel e verdadeiro.

13. Masculinidade bíblica suficiente para exercer algum nível de liderança na igreja

Uma consideração mais atenta de algumas igrejas revelará que um dos problemas centrais é a falta de maturidade bíblica entre os homens da congregação e a falta de conhecimento bíblico, o que torna os homens mal equipados e completamente despreparados para exercer liderança espiritual.

Os rapazes têm de familiarizar-se com o texto bíblico e sentir-se à vontade no estudo da Palavra de Deus. Precisam estar prontos a assumir seu lugar como líderes na igreja local. Deus estabeleceu oficiais específicos para a sua igreja — homens que são dotados e chamados publicamente —, por isso, todo homem crente deveria cumprir alguma responsabilidade de liderança na vida da igreja local.

Para alguns homens, isso pode significar um papel de liderança menos público do que o de outros. Em qualquer caso, um homem dever ser capaz de ensinar alguém e liderar algum ministério, transformando seu discipulado pessoal na realização de uma vocação santa. Há um papel de liderança para todo homem, em toda igreja, quer seja uma liderança pública ou privada, pequena ou grande, oficial ou extra-oficial. Um homem deve saber como orar diante dos outros, apresentar o evangelho e ocupar um lugar vazio quando a necessidade de liderança é evidente.


Albert Mohler Jr.

Marxismo-Cristão: Uma contradição alarmante

1. Para Início de Conversa

Este é o tipo de texto que me deixa feliz ao escrever, pois tratarei de campos do saber que muito me agradam discutir e que fazem parte da minha formação acadêmica. Com graduação em História e especializado em Ciência Política, conheço e estudei o marxismo sob a ótica de diversos teóricos favoráveis e contrários às ideias difundidas por Karl Marx – esta figura controversa. Sou da opinião de que algo da sua leitura acerca das relações entre empresários e trabalhadores (no contexto da Revolução Industrial) não pode ser totalmente desprezada, no entanto, creio que sua desgraça foi reduzir todo o fluxo da História apenas à questão econômica. Também acredito que ele não conseguiu escapar de algo que tanto atacou: a ideologia. O mais irônico é ter as suas ideias utilizadas como uma religião. A tragédia marxiana foi denunciar o ópio da religiosidade e acabar vendo seus seguidores produzindo uma droga sintética chamada marxismo-leninismo[1].

Como veneno não cura veneno, onde quer que o marxismo-leninismo tenha se instaurado como regime, deixou um rastro de miséria que faz com que os países do leste europeu – que integraram a antiga União Soviética – recebam de muito bom grado as ideias vindas da boca do diabo, mas rechacem todo e qualquer pressuposto que tenha sua raiz no pensamento de Marx. Isto porque em nome do ideal comunista, que envolvem a ditadura do proletariado e a luta de classes, as atrocidades cometidas pelos líderes “revolucionários” se equiparam a de nomes execráveis como Hitler e Bin Laden. O governo de Stalin, por exemplo, foi um dos mais mortais, superando e muito o número elevado de mortes produzido pelo nazismo. Esta mórbida associação entre stalinismo e nazismo é esmiuçada pela filósofa e teórica política Hannah Arendt:

O único homem pelo qual Hitler sentia “respeito incondicional” era “Stalin, o gênio”, e, embora no caso de Stalin e do regime soviético não possamos dispor (e provavelmente nunca venhamos a ter) a riqueza de documentos que encontramos na Alemanha nazista, sabemos, desde o discurso de Khrushchev perante o Vigésimo Congresso do Partido Comunista, que também Stalin só confiava num homem, e que esse homem era Hitler[2].

Aos que pensam que o totalitarismo foi coisa de Stalin apenas, pesquisem sobre as denúncias de Alexander Solzhenitsyn sobre o governo autocrático de Lenin e vejam a absurda e atual falta de liberdade interna na China e na Coréia do Norte. Como disse Schaeffer, a repressão “é uma parte integrada ao sistema comunista”[3]. Logo, o remédio que o marxismo se dispôs aplicar para curar a enfermidade da sociedade é tão desastroso, que é preferível permanecer doente. Esta é a lógica do paciente quando sabe que as contraindicações medicamentosas são bem piores do que os sintomas da doença.

2. Porque Marxismo e não Socialismo?

Considero que seja bom explicar a adoção do termo marxismo ao invés de falar socialismo (ou comunismo). Faço isso pelo fato do conceito de socialismo ser usado de uma forma tão variada que supera os postulados marxianos. Alguns socialistas, como Crosland, não enxergam o socialismo como sendo um poder antagônico ao capitalismo, mas sim uma forma de aprimorar as condições de trabalho e melhorar a vida dos trabalhadores, mesmo dentro do sistema capitalista. Acaso não é assim que são geridas as sociais-democracias europeias? O sociólogo P. Jaccard afirma em sua obra Histoire sociale du travail que em matéria social, tudo que foi realizado no mundo de língua inglesa, na Suíça, nos Países Baixos, na Escandinávia e na Alemanha, deve-se ao pensamento cristão com pressupostos bíblicos. Corrobora com isso a fala do primeiro-ministro britânico Clement Attle, sucessor de Churchill, que certa feita afirmou ser a Bíblia, e não os escritos de Marx, a base do socialismo britânico. Este socialismo do qual Attle se refere é aquele que após a II Guerra, com o continente europeu arrasado economicamente, introduziu o Estado do bem-estar social com uma economia mista, algo pensado por conservadores e liberais para evitar a influência do marxismo-leninismo.

Para que se tenha a noção da abrangência do termo socialismo, este foi incorporado ao partido nazista alemão. O nome não abreviado do partido liderado por Hitler era Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. E, embora seja verdade que pressupostos marxistas estejam presentes no programa de governo do partido alemão, a classificação mais correta da ideologia por detrás do regime hitlerista seria o nacionalismo e não o marxismo. Por isso então decidi utilizar marxismo ao invés de socialismo, contudo faço uma ressalva: todos os partidos intitulados de esquerda no Brasil são marxistas. Na maioria de suas sedes é possível ver os retratos de Marx e Lenin pendurados na parede (faça uma visita e confirme)[4].

Mediante o que foi dito acima, toda crítica feita ao marxismo pode ser entendida como uma crítica à ideologia dos partidos que compõem a esquerda brasileira e que possuem os termos socialista ou comunista em seus nomes. Os apontamentos feitos serão teóricos, mas como toda teoria redunda na prática, caberá ao leitor fazer a devida análise do que aqui será denunciado como anticristão e comparar com as bandeiras levantadas pelos esquerdistas.

3. O Marxismo como uma Religião Herética

Como dito no começo do texto, o marxismo tem características de religião. Uma religião secularizada – é bem verdade – pois tem sua base no materialismo. Marx era estudioso e admirador do materialismo de Epicuro[5]. Este filósofo grego acreditava que o mundo era composto de átomos que do vazio (espaço) se movem verticalmente para baixo. É o desvio do movimento dos átomos que dá origem as coisas. O homem, fruto desse desvio, é um combinado de átomos pesados e leves, que formam respectivamente o corpo e a alma. Os epicuristas entendiam que a alma é mortal e não eterna, uma vez que todo composto atômico é dissolúvel.

Epicuro rejeitava a ideia da eternidade dos corpos celestes, e pretendia livrar os homens das amarras da superstição religiosa. Embora não seja um determinismo, pois o desvio dos átomos aponta para uma gama de possibilidades não determinadas, o atomismo epicureu mantém as suas bases mecanicistas, sendo o homem e toda realidade material fruto da casualidade do movimento atômico. O jovem Marx manteve essa base ontológica para fundamentar o seu materialismo histórico. André Bieler esclarece assim o conceito materialista marxiano: “[…] conforme as suas concepções, é o material que precede e determina o espiritual, e não o contrário, como o ensina a ética cristã”.[6]

Se nós somos cristãos e temos os nossos pressupostos baseados na Escritura, logo, não podemos abraçar uma doutrina concorrente ao cristianismo. Ainda mais quando esta corrente enxerga a religião, ou melhor, a metafísica como sendo um produto da opressão, uma vez que os oprimidos a inventaram como um entorpecente que alivia a dor (ópio). A doutrina cristã não foi fabricada. Ela é a revelação de Deus por meio do seu Filho, trazendo boas novas de salvação. Não que ela negue que existam opressores e oprimidos, essa realidade existe e se lermos os profetas, os evangelhos e as cartas apostólicas, veremos que Deus está sempre do lado dos pobres quando os ricos não agem corretamente e tolhem a justiça, devido a sua ganância[7]. Mas isto é muito diferente do que almeja o marxismo.

Marx, junto com Engels, criou uma soteriologia ao anunciar o fim da opressão quando o proletariado se rebelar contra a burguesia e tomar o poder político e econômico, controlando os modos de produção e a máquina estatal. É um enredo religioso-escatológico, pois a sociedade sem classes e sem miséria certamente chegaria (Marx tinha esperanças de ver isso ainda no séc. 19). A certeza deste mundo idílico é fruto de sua tese na luta de classes. Segundo Marx e Engels, toda a história se resume no conflito entre opressores e oprimidos, sendo que este segundo grupo, cansado da exploração acaba fazendo a revolução e subvertendo a ordem vigente. Logo, o governo do proletariado iria dar um basta no capitalismo burguês. O que os marxistas não esperavam é que o capitalismo aliado à democracia cativava mais os trabalhadores do que o ideal revolucionário.

Daí entendemos o porquê do Cristianismo sempre ser perseguido nos regimes marxistas. Primeiro: Para o cristão, as desigualdades e injustiças econômicas são fruto do pecado e o único capaz de curar esse mal é Jesus Cristo. Mas a promessa de um mundo sem dor e sem lágrimas está no porvir (Ap 21.4). Ora, isso frustra os marxistas que pregam o Reino dos Céus na terra, algo que não funcionará enquanto o pecado dominar o coração humano. Tanto as sugestões marxianas como as de qualquer outra ideologia que busque o fim da pobreza não serão bem-sucedidas neste mundo corrompido. Podemos ter uma agenda política que pregue uma melhor distribuição da riqueza nacional, ou o Estado do bem-estar social. Podemos criar programas de microcrédito e de transferência de renda. Podemos ver o incentivo estatal e privado na educação profissionalizante. Seja qual for, como observa Aaron Armstrong, “[…] essas soluções estão tratando os sintomas, não a causa; estão podando os galhos, não desenterrando a raiz. A questão principal por trás da pobreza é o pecado”[8]. Algumas dessas ideias podem até minorar muitos males, mas não acabarão definitivamente com a injustiça e opressão existentes na sociedade.

Segundo: Muitos marxistas colocaram a culpa do fracasso do prognóstico de Marx e Engels[9] nos fundamentos do Cristianismo. Para eles, não é conveniente concorrer com o messianismo cristão. Por isso que homens como Gramsci chegaram a afirmar que o melhor para se chegar ao comunismo (o reino escatológico marxista), necessário seria descristianizar a sociedade. A nova faceta do marxismo foi se infiltrar na cultura e na Academia, desconstruindo os valores e instituições tradicionais da burguesia, das quais se encontram não só o capitalismo, mas a família e a fé cristã[10]. Por isso que o relativismo moral está tão presente na fala e nas atitudes dos defensores do marxismo-leninismo. Se o Cristianismo é firmado em absolutos morais (os mandamentos), uma forma de lutar contra ele é relativizando os conceitos de certo e errado.

Chegamos à clara oposição do método de pensamento cristão e o marxista. O primeiro é antitético e o segundo, dialético[11]. A antítese funciona da seguinte maneira: Se A é verdadeiro, logo A não pode ser falso. Tendo duas alternativas, poderíamos ilustrar assim: A e B, se A é verdadeiro, logo B é falso. Já a síntese vai dizer que a verdade é parcial tanto em A quanto em B, desembocando numa terceira via: C. Não foram poucos os cristãos que caíram nessa rede e até buscaram sintetizar o Evangelho com os pressupostos marxianos, gerando assim uma heresia que tem dominado muitos círculos teológicos[12].

O “canto da seria” que encanta muitos cristãos que se afogaram em mares marxistas é o discurso da dignidade humana. Ora, este discurso coaduna com o que diz a Bíblia. No entanto, Marx tomou emprestado este conceito do cristianismo para engendrar um programa político que atingisse o seu objetivo escatológico. Mas como falar em dignidade humana se não há absolutos morais? Uma ideologia que desconsidera Deus, que assume uma ética relativista e fundamenta-se no materialismo não irá promover uma sociedade mais justa. Pelo contrário! A História serve como testemunha, ou será que precisam surgir outros Stalin’s ou Mao’s para que de uma vez por todas as pessoas enxerguem a face do mal e o abomine?

4. Para Encerrar o Assunto

Creio que mais nítido do que isto não poderia escrever. O marxismo é, como diria Schaeffer, uma heresia cristã; e como tal não pode ser abraçada por quem ama o Evangelho e se pauta no princípio do Sola Scriptura. Na verdade, toda a ideologia acaba sendo idólatra, pois tem o humanismo por fundamento e deifica algum elemento da criação, depositando nele a salvação. Koyzis salienta:

Assim, cada uma das ideologias tem base numa soteriologia específica, isto é, numa teoria elaborada que promete aos seres humanos o livramento de algum mal fundamental visto como a fonte de uma ampla gama de problemas humanos, entre os quais a tirania, a opressão, a anarquia, a pobreza e assim por diante.[13]

Logo, nenhum cristão deve se identificar com ideologia X ou Y e a ela jurar lealdade. Recentemente vi alguém dizer numa rede social que o capitalismo é de Deus. Claro que não! O liberalismo do início da Revolução Industrial produziu muitas injustiças e feriu a dignidade humana em muitos aspectos. Mas Deus sempre levanta seus profetas para denunciar aquilo que está em desacordo com seus princípios e levanta homens dispostos para trabalhar no socorro dos necessitados. Os irmãos Wesley, apenas para citar um exemplo, fizeram um belo trabalho com os proletários em Londres. Há diversas demandas do capitalismo (liberalismo) que ferem a ordem da criação[14], dando ao homem uma autonomia que ele nunca possuiu.

Sei que muitos de meus irmãos em Cristo que flertam com as ideias marxianas, fazem isso por ingenuidade ou idealismo – o caso dos mais jovens. Tal inocência é resultado da omissão da Igreja em falar sobre política e se posicionar. Uma visão pietista fez o cristianismo recuar na esfera pública e o marxismo-cultural foi ganhando o espaço que encontrou vazio. Quando nossos jovens vão para as universidades, os professores marxistas fazem de tudo para convertê-los a sua cosmovisão. Não são neutros. Logo, a Igreja deveria abandonar a postura da neutralidade e denunciar a inconsistência desta religião idólatra concorrente da Fé Cristã. Oremos para que Deus erga homens corajosos e capacitados para ensinar e fazer política, firmados no crivo bíblico, dando glórias ao SENHOR.

 


Notas:
[1] Lenin foi o responsável por fazer uma releitura de Marx e Engels, aplicada ao contexto da Revolução Russa de 1917.
[2]  As Origens do Totalitarismo. Companhia de Bolso. Tradução: Roberto Raposo.
[3] Como Viveremos? Cultura Cristã. Tradução: Gabriele Greggersen.
[4] Embora existam os partidos que se definam como trotskistas (PSOL, PSTU e PCO), estes se dizem os verdadeiros representantes do marxismo-leninismo. Trotsky nunca se opôs a Lenin.
[5] Sua tese de doutorado foi A diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro, ficando clara a sua afinidade com o pensamento epicurista.
[6] A força Oculta dos Protestantes. Cultura Cristã. Tradução: Paulo Manoel Protasio.
[7] Dt. 15.7 ss, 24.17, Is 10. 1-4, Ez 16. 49, Am 5.25, Mc 6.12, Zc 7.10,  Mt 11.5, Lc 16.19-31, e Tg 5.1-4.
[8] O Fim da Pobreza. Vida Nova. Tradução: Flávia Lopes.
[9] O grande equívoco marxiano foi reduzir o complexo dos fenômenos humanos no fundamento econômico da luta de classes, como se tudo fosse determinado apenas pela produção.
[10] Leia o meu artigo Love Wins? O Casamento Gay não é uma questão de amor. Disponível aqui.
[11] Embora Marx tenha rompido com o idealismo hegeliano, manteve o seu método dialético e o aplicou ao materialismo. Por isso que o materialismo histórico também é conhecido como materialismo dialético.
[12] No passado tivemos o evangelho social de Walter Rauschenbusch, com viés materialista. Hoje, existe o marxismo-católico que é a Teologia da Libertação e uma fatia da Missão Integral tem abraçado as ideias de Marx e produzido uma teologia sintetizada.
[13] Visões e Ilusões Políticas. Vida Nova. Tradução: Lucas G. Freire.
[14] Princípio que afirma que todas as instituições humanas obedecem à ordem da criação e o mandato cultural que Deus deu a Adão, p. ex. família e Estado. As ideologias humanistas distorcem esta ordem e afirmam que o homem em sua liberdade criou estas instituições no decorrer da história. Damos a isso o nome de historicismo.

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Autor: Pr. Thiago Oliveira

Festas Juninas

A festa celebra o nascimento de João Batista, que virou um dos santos católicos. É realizada no dia 24 de junho com base no fato que João Batista havia nascido seis meses antes de Jesus (Lc 1:26,36). Se o nascimento de Jesus (Natal) é celebrado em 25 de dezembro, então o de João Batista é celebrado seis meses antes, em 24 de junho. É claro que estas datas são convenções, apenas, pois não sabemos ao certo a data do nascimento do Senhor.

A origem das fogueiras nas celebrações deste dia é obscura. Parece que vem do costume pagão de adorar seus deuses com fogueiras. Os druidas britânicos, segundo consta, adoravam Baal com fogos de artifício. Depois a Igreja Católica inventou a história que Isabel acendeu uma fogueira para avisar Maria que João tinha nascido. Outra lenda é que na comemoração deste dia, fogueiras espontâneas surgiram no alto dos montes.

Já a quadrilha tem origem francesa, sendo uma dança da elite daquele país, que só prosperou no Brasil rural. Daí a ligação com as roupas caipiras. Por motivos obscuros acabou fazendo parte das festividades de São João.

Fazem parte ainda das celebrações no Brasil (é bom lembrar que estas festas também são celebradas em alguns países da Europa) as comidas de milho – provavelmente associadas com a quadrilha que vem do interior – as famosas balas de “Cosme e Damião.” São realizadas missas e procissões, muitas rezas e pedidos feitos a São João. As comidas são oferecidas a ele.

Se estas festividades tivessem somente um caráter religioso e fossem celebradas dentro das igrejas como se fossem parte das atividades dos católicos, não haveria qualquer dúvida quanto à pergunta, “pode um evangélico participar?” Acontece que as festas juninas foram absorvidas em grande parte pela cultura brasileira de maneira que em muitos lugares já perdeu o caráter de festa religiosa. Para muitos, é apenas uma festa onde acendem-se fogueiras, come-se milho preparado de diferentes maneiras e soltam-se fogos de artifício, sem menção do santo, e sem orações ou rezas feitas a ele.

Paulo enfrentou um caso semelhante na igreja de Corinto. Havia festivais pagãos oferecidos aos deuses nos templos da cidade. Eram os crentes livres para participar e comer carne que havia sido oferecida aos ídolos? A resposta de Paulo foi tríplice:

O crente não deveria ir ao templo pagão para estas festas e ali comer carne, pois isto configuraria culto e portanto, idolatria (1Cor 10:19-23). Na mesma linha, eu creio que os crentes não devem ir às igrejas católicas ou a qualquer outro lugar onde haverá oração, rezas, missas e invocação do São João, pois isto implicaria em culto idólatra e falso.

O crente poderia aceitar o convite de um amigo pagão e comer carne na casa dele, mesmo com o risco de que esta carne tivesse sido oferecida aos ídolos. Se, todavia, houvesse alguém presente ali que se escandalizasse, o crente não deveria comer (1Cor 10:27-31). Fazendo uma aplicação para nosso caso, se convidado para ir a casa de um amigo católico neste dia para comer milho, etc., ele poderia ir, desde que não houvesse atos religiosos e desde que ninguém ali ficasse escandalizado.

E por fim, Paulo diz que o crente pode comer de tudo que se vende no mercado sem perguntar nada. A exceção é causar escândalo (1Cor 10:25-26). Aplicando para nosso caso, não vejo problema em o crente comer milho, pamonha, mungunzá, etc. neste dia e estar presente em festas juninas onde não há qualquer vínculo religioso, desde que não vá provocar escândalos e controvérsias. Se Paulo permitiu que os crentes comessem carne que possivelmente vieram dos templos pagãos para os açougues, desde que não fosse em ambiente de culto, creio que podemos fazer o mesmo, ressalvado o amor que nos levaria à abstinência em favor dos que se escandalizariam.

O Culto Espiritual, Augustus Nicodemus Lopes. Cultura Cristã, 2012:

“A situação de Corinto era diferente. O problema lá não era o mesmo tratado no concílio de Jerusalém. O problema não era os escrúpulos de judeus cristãos ofendidos pela atitude liberal de crentes gentios quanto à comida oferecida aos ídolos. Portanto, a solução de Jerusalém não servia para Corinto. É provavelmente por esse motivo que o apóstolo não invoca o decreto de Jerusalém.[1] Antes, procura responder às questões que preocupavam os coríntios de acordo com o princípio fundamental de que só há um Deus vivo e verdadeiro, o qual fez todas as coisas; que o ídolo nada é nesse mundo; e que fora do ambiente do culto pagão, somos livres para comer até mesmo coisas que ali foram sacrificadas.

1. A primeira pergunta dos coríntios havia sido: era lícito participar de um festival religioso num templo pagão e ali comer a carne dos animais sacrificados aos deuses? Não, responde Paulo. Isso significaria participar diretamente no culto aos demônios onde o animal foi sacrificado (1 Co 10.16-24). Paulo havia dito que os deuses dos pagãos eram imaginários (1 Co 10.19). Por outro lado, ele afirma que aquilo que é sacrificado nos altares pagãos é oferecido, na verdade, aos demônios e não a Deus (10.20). Paulo não está dizendo que os gentios conscientemente ofereciam seus sacrifícios aos demônios. Obviamente, eles pensavam que estavam servindo aos deuses, e nunca a espíritos malignos e impuros. Entretanto, ao fim das contas, seu culto era culto aos demônios.[2] Paulo está aqui refletindo o ensino bíblico do Antigo Testamento quanto ao culto dos gentios:

Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus… (Dt 32.17)

…pois imolaram seus filhos e suas filhas aos demônios (Sl 106.37).

O princípio fundamental é que o homem não regenerado, ao quebrar as leis de Deus, mesmo não tendo a intenção de servir a Satanás, acaba obedecendo ao adversário de Deus e fazendo sua vontade. Satanás é o príncipe desse mundo. Portanto, cada pecado é um tributo em sua honra. Ao recusar-se a adorar ao único Deus verdadeiro (cf. Rm 1.18-25), o homem acaba por curvar-se diante de Satanás e de seus anjos.[3] Para Paulo, participar nos festivais pagãos acabava por ser um culto aos demônios. Por esse motivo, responde que um cristão não deveria comer carne no templo do ídolo. Isso eqüivaleria a participar da mesa dos demônios, o que provocaria ciúmes e zelo da parte de Deus (1 Co 10.21-22). Paulo deseja deixar claro para os coríntios “fortes”, que não tinham qualquer intenção de manter comunhão com os demônios, que era a atitude deles em participar nos festivais do templo que contava ao final. Era a força do ato em si que acabaria por estabelecer comunhão com os demônios.[4]

2. Era lícito comer carne comprada no mercado público? Sim, responde Paulo. Compre e coma, sem nada perguntar (1 Co 10.25). A carne já não está no ambiente de culto pagão. Não mantém nenhuma relação especial com os demônios, depois que saiu de lá. Está “limpa” e pode ser consumida.

3. Era lícito comer carne na casa de um amigo idólatra? Sim e não, responde Paulo. Sim, caso não haja, entre os convidados, algum crente “fraco” que alerte sobre a procedência da carne (1 Co 10.27). Não, quando isso ocorrer (1 Co 10.28-30).

O ponto que desejo destacar é que para o apóstolo Paulo a carne que havia sido sacrificada aos demônios no templo pagão perdia a “contaminação espiritual” depois que saia do ambiente de culto. Era carne, como qualquer outra. É verdade que ele condenou a atitude dos “fortes” que estavam comendo, no próprio templo, a carne sacrificada aos demônios. Mas isso foi porque comer a carne ali era parte do culto prestado aos demônios, assim como comer o pão e beber o vinho na Ceia é parte de nosso culto a Deus. Uma vez encerrado o culto, o pão é pão e o vinho é vinho. Aliás, continuaram a ser pão e vinho, antes, durante e depois. A mesma coisa ocorre com as carnes de animais oferecidas aos ídolos. E o que é verdade acerca da carne, é também verdade acerca de fetiches, roupas, amuletos, estátuas e objetos consagrados aos deuses pagãos. Como disse Calvino,

Alguma dúvida pode surgir se as criaturas de Deus se tornam impuras ao serem usadas pelos incrédulos em sacrifícios. Paulo nega tal conceito, porque o senhorio e possessão de toda terra permanecem nas mãos de Deus. Mas, pelo seu poder, o Senhor sustenta as coisas que tem em suas mãos, e, por causa disto, ele as santifica. Por isso, tudo que os filhos de Deus usam é limpo, visto que o tomam das mãos de Deus, e de nenhuma outra fonte.[5]”


Augustus Nicodemus
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Notas:
[1] Note que Paulo não teve qualquer problema em anunciar o decreto em Antioquia, o que produziu muito conforto entre os irmãos (At 15.30-31).
[2] Não somente Paulo, mas os cristãos em geral tinham esse conceito. João escreveu: “Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar” (Ap 9.20).
[3] Cf. Charles Hodge, A Commentary on 1 & 2 Corinthians (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1857; reimpressão 1978) 193.
[4] Hodge (1 & 2 Corinthians, 194) chama a nossa atenção para o fato de que o mesmo princípio se aplica hoje aos missionários que, por força da “contextualização”, acabam por participar nos festivais pagãos dos povos. Semelhantemente, os protestantes que participam da Missa católica, mesmo não tendo intenção de adorar a hóstia, acabam cometendo esse pecado, ao se curvar diante dela.
[5] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, em Comentário à Sagrada Escritura, trad. Valter G. Martins (São Paulo: Paracletos, 1996) 320.

Jesus e os pobres: nenhuma semelhança com o socialismo

Hoje a pobreza é quase tão comum quanto as doenças. Na época do ministério terreno de Jesus, essa realidade era muito mais forte. Nos Evangelhos, Jesus curava com muita freqüência, principalmente os pobres. Contudo, mesmo encontrando multidões de pobres diariamente, ele só os alimentou em duas ocasiões específicas, não porque simplesmente eles eram pobres, porém porque nessas ocasiões as multidões vieram ouvir o Evangelho cedo de manhã e permaneceram com ele três dias inteiros ouvindo o Evangelho. As multidões passaram tanto tempo ouvindo a Palavra de Deus dos lábios de Jesus que ficou muito tarde, quase de noite, no terceiro dia para voltarem e se alimentarem, pois o lugar em que estavam era deserto e distante, longe de casas e lugares onde poderiam encontrar alimento.

Não há a menor dúvida de que se os adeptos do Evangelho social estivessem no lugar de Jesus, eles alimentariam os pobres já no primeiro dia e todos os dias, ou então utilizariam a maior parte de seu tempo não para proclamar e demonstrar o Evangelho do Reino de Deus, mas para pressionar as autoridades para cobrarem mais impostos para ajudar os pobres.

O Evangelho social dos evangélicos progressistas (ou esquerdistas, petistas, comunistas, socialistas, adeptos da teologia da libertação ou qualquer outro rótulo que eles utilizem) é tão convidativo quanto a visitação de um anjo de luz trazendo um evangelho cheio de propostas interessantes para os pobres. Mas assim como nem tudo que reluz é ouro, nem tudo o que tem aparência angelical é de Deus.

Tal qual os evangélicos progressistas, a igreja primitiva tinha também uma preocupação obsessiva de ajudar todos os pobres da sociedade? A igreja primitiva tinha como principal missão pressionar o governo para “ajudar” todos os pobres? Não. A igreja primitiva não só não ajudava todos os pobres da sociedade, como também era extremamente seletiva na assistência aos pobres que estavam em seu meio.

Quando a nação de Israel estava passando por uma crise geral de fome, Paulo mobilizou as igrejas de outros países para ajudar — não os pobres em geral da nação de Israel, mas somente as igrejas, que também estavam passando necessidade. E mesmo nas igrejas, a ajuda não era dada a qualquer pessoa.

A ajuda de Paulo era distribuída dentro das igrejas judias. E qual era o padrão que Paulo utilizava para ajudar quem era da igreja? Uma boa pista de como Paulo e as igrejas procediam na assistência aos pobres encontra-se no texto em que Paulo trata da questão das viúvas pobres nas igrejas. De acordo com Paulo, essas viúvas pobres só poderiam receber assistência material da igreja se tivessem demonstrado bom testemunho durante sua vida. Paulo recomenda a Timóteo, um dos pastores sob sua liderança:

“Cuide das viúvas que não tenham ninguém para ajudá-las. Mas, se alguma viúva tem filhos ou netos, são eles que devem primeiro aprender a cumprir os seus deveres religiosos, cuidando da sua própria família. Assim eles pagarão o que receberam dos seus pais e avós, pois Deus gosta disso. A verdadeira viúva, aquela que não tem ninguém para cuidar dela, põe a sua esperança em Deus e ora, de dia e de noite, pedindo a ajuda dele. Porém a viúva que se entrega ao prazer está morta em vida. Timóteo, mande que as viúvas façam o que eu aconselho para que ninguém possa culpá-las de nada. Porém aquele que não cuida dos seus parentes, especialmente dos da sua própria família, negou a fé e é pior do que os que não crêem. Coloque na lista das viúvas somente a que tiver mais de sessenta anos e que tiver casado uma vez só. Ela deve ser conhecida como uma mulher que sempre praticou boas ações, criou bem os filhos, hospedou pessoas na sua casa, prestou serviços humildes aos que pertencem ao povo de Deus, ajudou os necessitados, enfim, fez todo tipo de coisas boas.” (1 Timóteo 5:3-10 NTLH, o destaque é meu.)

Contudo, os evangélicos progressistas têm ambições muito mais elevadas para “ajudar” as viúvas e outros necessitados. Eles não querem simplesmente que as igrejas ajudem todos os pobres. Eles querem que o governo faça isso. Na proposta deles, os nossos recursos, através de impostos, seriam redistribuídos pelo governo para atender às necessidades dos pobres, quer esses necessitados mereçam ou não. Se não é justo quem trabalhou não receber o que merece, também não é justo o imposto do trabalhador se escoar na assistência a pobres que vivem na imoralidade ou outros tipos de perversão. Afinal, ao contrário das pregações “proféticas” dos progressistas, a corrupção, o mal, a imoralidade e a perversão não são qualidades exclusivas dos ricos.

A Bíblia é bem clara que todos são pecadores: ricos e pobres, pretos e brancos, etc. A Bíblia também é bem clara na orientação para a igreja de quem dos necessitados merece a assistência da igreja. A igreja tem o chamado de ajudar, sob a direção da Palavra de Deus, e tem o chamado igual de fazer uma triagem de quem merece e não merece ajuda. Só os pobres moralmente aptos são qualificados. Tal norma não era legalismo, mas medida prudente. Seu autor, o apóstolo Paulo, era um ardente combatente contra o legalismo, sempre condenando-o. Assim, quem tentasse julgar essa triagem necessária como legalismo estaria apenas fazendo julgamento precipitado e cruel da preciosa direção de Paulo à igreja em suas responsabilidades para com os necessitados.

Precisamos então aprender com Jesus a ter como principal preocupação levar os Evangelho aos pobres. E precisamos aprender com Paulo a ajudar os pobres com amor e prudência. É claro que essa tarefa só pode ser melhor realizada pela igreja. Por mais boa vontade que o governo tenha em cumprir tudo o que os progressistas desejam, a fria máquina governamental jamais saberia aplicar os princípios bíblicos, pois não pode substituir nem a Deus nem a igreja, embora lute incansavelmente para ocupar ambas as posições.


Autor: Júlio Severo

A Grande Mentira: O Socialismo Começou na Bíblia

Os socialistas, comunistas, esquerdistas e outros radicais com diferentes rótulos — porém com idéias e ambições políticas semelhantes — costumam alegar que o socialismo começou na Bíblia. Eles utilizam como exemplo uma experiência que os 12 apóstolos tentaram na primeira igreja cristã, na região da Judéia. Não houve direção direta de Deus para os líderes cristãos judeus decidirem o uso e administração de seus recursos financeiros, mas Deus lhes deu liberdade para tentarem seus próprios caminhos. O que sabemos é que os apóstolos tiveram a inspiração humana de que todos os cristãos judeus deveriam vender tudo o que tinham e entregar todo o dinheiro aos apóstolos. Nada era poupado, inclusive propriedades. Foi talvez uma tentativa de criar uma comunidade de interesses, trabalhos e sacrifícios comuns.

Prova de fogo

À primeira vista, a tentativa era excelente, principalmente porque os apóstolos tinham muito boas intenções com sua iniciativa. Contudo, tudo o que é bom precisa passar pelo teste de aprovação, assim como o próprio ouro precisa passar pelo fogo, para que toda sujeira seja retirada e o ouro fique puro e valioso. A tentativa de introduzir uma vida de comunidade entre os cristãos judeus passaria por um tempo de muita necessidade, uma verdadeira prova de fogo. Aliás, o mundo inteiro passaria por tal necessidade, e o próprio Deus avisou seu povo do que estava para acontecer. Deus usou um profeta para prevenir:

“Um deles, Ágabo, levantou-se e pelo Espírito predisse que uma grande fome sobreviria a todo o mundo romano, o que aconteceu durante o reinado de Cláudio”. (Atos 11:28 NVI)

O profeta Ágabo alertou que uma grande fome sobreviria para todo o mundo romano. Já que os apóstolos de Jesus e a primeira igreja cristã do mundo estavam em Jerusalém, na Judéia, é de supor que de todas as igrejas espalhadas pelo mundo, as igrejas judaicas teriam melhores condições espirituais de enfrentar o problema da fome. Mas não foi o que aconteceu. A fome sobreveio ao mundo romano inteiro e todos sofreram. Mas todas as igrejas cristãs conseguiram prevalecer nessa situação, menos as igrejas da Judéia. Por que? Todos eles não tinham o mesmo Cristo poderoso e seu Espírito Santo, que até os avisou?

Todas as igrejas, judaicas ou não, sofriam perseguição religiosa e mais tarde, juntamente com todo o restante do mundo, passaram a sofrer o problema da fome. No entanto, só as igrejas da Judéia estavam mais vulneráveis a esse problema. Se as igrejas não judaicas, que estavam sob a direção de apenas um apóstolo, conseguiram se manter no meio de uma crise mundial de fome e até ajudar as igrejas judaicas, como é que as igrejas judaicas, sob a liderança de doze apóstolos, estavam tão vulneráveis e fracas? Qual foi a diferença importante entre essas igrejas?

Não há diferenças significativas, a não ser que levemos em consideração que nas igrejas cristãs não judaicas cada cristão era encorajado a lutar por sua independência econômica. Veja por exemplo a recomendação que Paulo deu para a igreja européia da cidade de Tessalônica, muito tempo depois da fundação da primeira comunidade cristã judaica: “Esforcem-se para ter uma vida tranqüila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar com as próprias mãos, como nós os instruímos; a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém”. (Tessalonicenses 4:11-12 NVI, o destaque é meu.)

No entanto, nas igrejas judaicas todos entregaram tudo o que tinham para viver em comunidade. Tudo indica que por causa da sua perda de independência econômica para investir na vida em comunidade, os cristãos judeus pagaram um elevado preço, passando a depender até de cristãos não judeus de outros países para sobreviver. Nos capítulos oito e nove inteiros de 2 Coríntios Paulo orienta como as igrejas não judaicas devem proceder para ajudar a igreja dos apóstolos em Jerusalém!

Um experimento que ninguém queria imitar

A tentativa de introduzir entre os cristãos judeus um modelo de comunidade baseado na extinção da independência econômica de cada pessoa teve efeitos negativos e trágicos que ninguém inteligente na liderança cristã da Europa quis imitar ou preservar. Foi uma experiência que veio e foi, para a tristeza de ninguém. Na prova de fogo, o ouro sai puro. Na prova de fogo do experimento dos apóstolos, o resultado não foi puro nem belo. Não sobrou nada, além de pobreza e miséria.

A única explicação para a impotência financeira e econômica da igreja judaica diante de uma crise mundial de fome é que seu experimento humano — interpretado modernamente como “socialismo” — de conduzir a administração da igreja do Senhor não foi um experimento abençoado. Não foi Deus quem ordenou esse experimentou. Ele só o permitiu.

Deus dava direção específica aos primeiros cristãos judeus — uma dessas direções era que eles deveriam levar o Evangelho a toda criatura. Essa orientação veio diretamente do coração do Senhor Jesus. Mas com relação à vida de comunidade e redistribuição de renda da primeira igreja cristã, a Palavra de Deus claramente mostra que a iniciativa não foi de Deus. Ele nunca lhes deu direção nesse sentido. Tal iniciativa veio diretamente do coração humano dos apóstolos.

É claro que Deus poderia muito bem revelar de antemão a eles qual seria o fim de seu experimento. Afinal, eles tinham dons de revelação e sabiam se comunicar com Deus. Eles buscavam a Deus intensamente em muitas questões e recebiam respostas, mas quando resolveram viver comunitariamente, dividindo tudo igualmente entre si, ninguém se lembrou de pedir a direção ou permissão de Deus. E Deus nada falou porque ele também espera que seu povo aja com bom senso, e às vezes se mantém calado a fim de que seu povo adquira “experiências” por si mesmo, ainda que dolorosas.

Homens de Deus, porém humanos e imperfeitos

É possível então um homem de Deus se esquecer de pedir a direção de Deus em determinadas ocasiões importantes e sofrer as conseqüências? Claro que sim. Josué era um homem que buscava intensamente a Deus e ouvia a sua voz, e Deus lhe deu a posição de líder da nação inteira de Israel. Quando ele pedia direção, Deus mostrava claramente a ele o que ele devia fazer. Um dessas direções era que ele não devia fazer acordo algum com os povos que habitavam a terra de Canaã. No entanto, um desses povos conseguiu elaborar uma estratégia: enviar uma comitiva, que disse a Josué e aos líderes judeus:

“—Nós estamos chegando de um país que fica bem longe daqui. Façam um acordo de paz com a gente. Porém os homens de Israel disseram: —Pode ser que vocês morem aqui por perto. Como é que podemos fazer um acordo de paz com vocês? —Estamos prontos para ser seus empregados! —responderam eles. —Quem são vocês? De onde vêm? —perguntou Josué. Os gibeonitas responderam: —Nós, os seus criados, somos de um país que fica muito longe e viemos até aqui porque ouvimos falar do SENHOR, seu Deus. Ouvimos as notícias de tudo o que ele fez no Egito.” (Josué 9:6-9 NTLH)

O acordo foi feito e ninguém percebeu nada. Só depois é que os judeus descobriram que haviam cometido um erro. Eles foram enganados e fizeram um acordo errado porque “não consultaram o Senhor” (veja Josué 9:14b). Já que não foi consultado, Deus deu a Josué e aos líderes judeus a mesma coisa que ele deu aos apóstolos em seu experimento de vida de comunidade: liberdade de tomar determinadas atitudes importantes sem pedir seu conselho.

Ainda que os socialistas de hoje — evangélicos ou não — utilizem o experimento da igreja judaica como o primeiro exemplo socialista da história, com o único objetivo de ganhar a simpatia política de adeptos cristãos, as práticas socialistas — se há uma real determinação de procurar experimentos na história da humanidade — podem ser vistas na Grécia, uns 500 anos antes de Cristo. Então a verdade pura é que foram os gregos, não os cristãos judeus, que foram os criadores de um tipo de sistema interpretado modernamente como socialismo.

O pequeno e curto experimento trágico das primeiras igrejas cristãs judaicas foi o suficiente para Paulo não tentar imitar nas igrejas cristãs não judaicas da Europa o que os desesperados cristãos “progressistas” de hoje insistem em chamar de exemplo socialista. Se foi realmente um exemplo ou não, o que é fácil de perceber é que então foi um exemplo que Paulo e nenhum outro líder cristão sábio procurou imitar. Afinal, não valia a pena copiar as imperfeições, os erros e a imaturidade administrativa que acabaram em fracasso.

O Apóstolo Paulo bem sabia que os 12 apóstolos não eram perfeitos. Ele comentou sobre eles: “Quanto aos que pareciam influentes — o que eram então não faz diferença para mim; Deus não julga pela aparência — tais homens influentes não me acrescentaram nada”. (Gálatas 2:6 NVI) Em certa ocasião, Paulo precisou repreender um dos apóstolos publicamente: “Quando, porém, Pedro veio a Antioquia, enfrentei-o face a face, por sua atitude condenável”. (Gálatas 2:11 NVI)

As imperfeições da igreja cristã judaica eram tão fortes que, os 12 apóstolos permitiam que os recursos da igreja fossem utilizados para ajudar somente as viúvas judias: “Naqueles dias [quando o experimento administrativo dos recursos da igreja estava em pleno funcionamento], crescendo o número de discípulos, os judeus de fala grega entre eles queixaram-se dos judeus de fala hebraica, porque suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimento”. (Atos 6:1 NVI) Por pura imaturidade, a primeira igreja cristã judaica estava deixando de fora de seu ministério assistencial as viúvas que falavam grego, e não a língua comumente usada pelos judeus da época.

Assim, é de compreender o motivo por que Paulo não copiou o modelo imperfeito de administração dos recursos da igreja judaica. Ele tinha discernimento e maturidade e entendia corretamente que Deus jamais havia confirmado esse experimento iniciado pela inspiração humana dos 12 apóstolos, embora no caso de Ananias e Safira Deus os tenha castigado não por rejeitar tal experimento, mas por escolherem mentir ao Espírito Santo na questão do que a liderança apostólica havia deliberado. No entanto, os cristãos progressistas de hoje têm evitado seguir o bom exemplo de Paulo.

A introdução da experiência de comunidade entre os cristãos judeus foi um fracasso doloroso. Além disso, Paulo e outros líderes cristãos que trabalhavam na Europa e outros lugares fora da Judéia não tentaram introduzir essa experiência nas igrejas novas que estavam se formando na Europa. De fato, não se faz nenhuma menção a uma tentativa de copiar o modelo cristão judaico de entregar todas as propriedades para uma vida de comunidade. Algumas práticas úteis foram imitadas — como evangelizar, orar pelos enfermos e expulsar demônios —, mas o modelo de comunidade cristão judeu não foi copiado e nem mesmo mencionado.

Imitando o fracasso da igreja primitiva

Outra tentativa bem intencionada de instituir práticas socialistas entre evangélicos ocorreu na fundação dos Estados Unidos. Os fundadores dessa grande nação eram evangélicos comprometidos com Deus e eles estavam tão apegados a Deus e sua Palavra que eles queriam imitar tudo o que estava na Bíblia. Eles até queriam instituir o hebraico como língua oficial da jovem nação americana. De maneira semelhante, eles também se esforçaram para imitar a vida de comunidade dos primeiros cristãos judeus, conforme mostra o artigo Mais Sábios que Deus, de Olavo de Carvalho:

Ao chegar à América em 1623, o governador William Bradford encontrou a colônia de Plymouth numa situação desesperadora: magros, doentes, em farrapos, sem atividade econômica organizada, os peregrinos estavam à beira da extinção. Muitos, depois de vender aos índios todas as suas roupas e demais bens pessoais, tinham lhes vendido sua liberdade: eram escravos, vivendo de cortar lenha e carregar água em troca de uma tigela de milho e um abrigo contra o frio.

Interrogando os líderes da comunidade em busca da causa de tão deplorável estado de coisas, Bradford descobriu que a origem dos males tinha um nome bem característico. Chamava-se “socialismo”.

Os habitantes de Plymouth, revolucionários puritanos exilados, trouxeram para a América as idéias sociais esplêndidas que os haviam tornado insuportáveis na Inglaterra, e tentaram construir seu paraíso coletivista no Novo Mundo. As terras eram propriedade comunitária, a divisão do trabalho era decidida em assembléia e a colheita se dividia igualitariamente entre todas as bocas. O sistema havia resultado em confusão geral, a lavoura não produzia o suficiente e aos poucos a miséria havia se transformado naturalmente em anarquia e ódio de todos contra todos.

A um passo do extermínio, a comunidade aceitou então a sugestão de mudar de rumo, voltando ao execrável sistema de propriedade privada da terra. “Isso teve muito bons resultados”, relata Bradford. “Muito mais milho foi plantado e até as mulheres iam voluntariamente trabalhar no campo, levando suas crianças para ajudar”. O surto de prosperidade que se seguiu é bem conhecido historicamente: ele permitiu que os colonos fincassem raízes na América e começassem a construir o país mais rico do mundo.

Homem de fé, Bradford não atribuiu a salvação da colônia aos méritos dela ou dele próprio, mas à mão da providência divina. O sucesso do sistema capitalista, escreveu ele, “bem mostra a vaidade daquela presunção de que tomar as propriedades pode tornar os homens mais felizes e prósperos, como se fossem mais sábios que Deus”.[1]

Entres os primeiros judeus cristãos e os evangélicos fundadores do EUA, as práticas socialistas trouxeram fome e miséria. O efeito foi igual. Mas entre os que não são evangélicos, essas práticas trouxeram muito mais do que só fome e miséria. Aproximadamente 100 milhões de seres humanos foram brutalmente assassinados por governos socialistas durante o século XX.

Com boas intenções, até mesmo com intenções cristãs e santas, práticas minimante parecidas com o socialismo trouxeram pobreza, miséria e morte para os primeiros cristãos dos EUA e para os cristãos judeus do primeiro século. Com supostas “boas” intenções, mas sem nenhuma ética cristã, o socialismo se tornou, pela abundância de evidências históricas, a ideologia mais macabra, enganadora e assassina do século XX.

Entretanto, sua propaganda continua iludindo milhões, por seu apelo aos pobres. Propostas como redistribuição de renda e alimentação dos necessitados geralmente atraem a simpatia das multidões e produzem força política — até mesmo entre cristãos. Mas é assim que Jesus age?

A prioridade de Jesus: alimento espiritual

O Senhor Jesus Cristo, em seu ministério de evangelização, não tinha um trabalho exclusivo de caridade para alimentar as multidões. Apesar de que ele tinha constante contato com os pobres e de que ele tinha autoridade e poder para produzir alimentos suficientes para eles diariamente, a Bíblia mostra que só em duas ocasiões ele utilizou essa autoridade e poder. Quando ele deu alimentos numa ocasião em que as pessoas estavam famintas por terem passado com ele três dias inteiros ouvindo a Palavra de Deus, houve uma conseqüência com enorme potencial político e imenso apoio popular. As pessoas receberam tão bem a generosa distribuição de alimentos que Jesus fez que queriam com todas as sua forças elevá-lo ao cargo político mais importante daquele tempo, a fim de que ele pudesse continuar sua distribuição de alimentos (veja João 6:15).

O ato de os cristãos progressistas promoverem propostas políticas de alimentação dos pobres tem também o mesmo potencial de produzir apoio político para suas causas, e eles têm tirado vantagem desse potencial, canalizando inclusive apoio dos evangélicos para a eleição de candidatos socialistas que se identificam com o que eles enxergam como vocação “profética” da igreja — uma preocupação política obsessiva de se aproveitar dos pobres para avançar seus interesses ideológicos.

Quando os cristãos progressistas vêem que determinadas medidas políticas de alimentação aos pobres ajudam a avançar seus interesses, eles as utilizam como alavanca para subir politicamente. Contudo, Jesus mostrou claramente que quando foi necessário alimentar os que estavam ouvindo a Palavra, houve todo o cuidado de não permitir que a ocasião fosse utilizada para finalidades políticas.

Os evangélicos progressistas pensam que antes de tentarmos evangelizar os pobres primeiro precisamos alimentá-los. Contudo, Jesus não alimentou as multidões famintas a fim de produzir mais abertura para o Evangelho que ele pregava. Ele as alimentou porque elas já estavam ouvindo a Palavra de Deus. Ele as alimentou porque elas estavam já havia três dias ouvindo a Palavra de Deus. Não há em todos os Evangelhos nenhuma citação de Jesus alimentando os pobres para que eles se abrissem mais para o Evangelho. Pelo contrário, eles os alimentou somente em duas ocasiões em que eles permaneceram muito tempo ouvindo o Evangelho:

“—Estou com pena dessa gente porque já faz três dias que eles estão comigo e não têm nada para comer. Se eu os mandar para casa com fome, eles vão cair de fraqueza pelo caminho, pois alguns vieram de longe.” (Marcos 8:2-3 NTLH)

A compaixão de Jesus produziu uma miraculosa multiplicação de alimentos para seu público atento à Palavra de Deus. A fome de todos foi saciada. A conseqüência foi que eles imediatamente queriam promover Jesus politicamente:

“Jesus ficou sabendo que queriam levá-lo à força para o fazerem rei; então voltou sozinho para o monte.” (João 6:15 NTLH)

Qual foi a resposta de Jesus para as multidões que ele havia acabado de alimentar e que estavam ansiosas para promovê-lo politicamente por causa da perspectiva de comida na mesa?

“Jesus respondeu: —Eu afirmo a vocês que isto é verdade: vocês estão me procurando porque comeram os pães e ficaram satisfeitos e não porque entenderam os meus milagres. Não trabalhem a fim de conseguir a comida que se estraga, mas a fim de conseguir a comida que dura para a vida eterna. O Filho do Homem dará essa comida a vocês porque Deus, o Pai, deu provas de que ele tem autoridade. —O que é que Deus quer que a gente faça? —perguntaram eles. —Ele quer que vocês creiam naquele que ele enviou! —respondeu Jesus. Eles disseram: —Que milagre o senhor vai fazer para a gente ver e crer no senhor? O que é que o senhor pode fazer? Os nossos antepassados comeram o maná no deserto, como dizem as Escrituras Sagradas: “Do céu ele deu pão para eles comerem.” Jesus disse: —Eu afirmo a vocês que isto é verdade: não foi Moisés quem deu a vocês o pão do céu, pois quem dá o verdadeiro pão do céu é o meu Pai. Porque o pão que Deus dá é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. —Queremos que o senhor nos dê sempre desse pão! —pediram eles. Jesus respondeu: —Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim nunca mais terá fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede. Mas eu já disse que vocês não crêem em mim, embora estejam me vendo. Todos aqueles que o Pai me dá virão a mim; e de modo nenhum jogarei fora aqueles que vierem a mim. Pois eu desci do céu para fazer a vontade daquele que me enviou e não para fazer a minha própria vontade. E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum daqueles que o Pai me deu se perca, mas que eu ressuscite todos no último dia. Pois a vontade do meu Pai é que todos os que vêem o Filho e crêem nele tenham a vida eterna; e no último dia eu os ressuscitarei.” (João 6:26-40 NTLH)

Jesus jamais agiu conforme a “ética” socialista. Ele jamais se aproveitava das necessidades das multidões para usá-las para objetivos políticos e ideológicos. Pelo contrário, ele sempre deixava claro para os pobres que quando damos prioridade para a vontade de Deus na nossa vida, ele supre nossas necessidades. Jesus declara:

“—Por isso eu digo a vocês: não se preocupem com a comida e com a bebida que precisam para viver nem com a roupa que precisam para se vestir. Afinal, será que a vida não é mais importante do que a comida? E será que o corpo não é mais importante do que as roupas? Vejam os passarinhos que voam pelo céu: eles não semeiam, não colhem, nem guardam comida em depósitos. No entanto, o Pai de vocês, que está no céu, dá de comer a eles. Será que vocês não valem muito mais do que os passarinhos? E nenhum de vocês pode encompridar a sua vida, por mais que se preocupe com isso. —E por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem as flores do campo: elas não trabalham, nem fazem roupas para si mesmas. Mas eu afirmo a vocês que nem mesmo Salomão, sendo tão rico, usava roupas tão bonitas como essas flores. É Deus quem veste a erva do campo, que hoje dá flor e amanhã desaparece, queimada no forno. Então é claro que ele vestirá também vocês, que têm uma fé tão pequena! Portanto, não fiquem preocupados, perguntando: “Onde é que vamos arranjar comida?” ou “Onde é que vamos arranjar bebida?” ou “Onde é que vamos arranjar roupas?” Pois os pagãos é que estão sempre procurando essas coisas. O Pai de vocês, que está no céu, sabe que vocês precisam de tudo isso. Portanto, ponham em primeiro lugar na sua vida o Reino de Deus e aquilo que Deus quer, e ele lhes dará todas essas coisas.” (Mateus 6:25-33 NTLH, o destaque é meu.)


Autor: Júlio Severo

O cristão e voto

É possível alinhar a ideologia de esquerda com a doutrina social da igreja na perspectiva reformada?

Levanto aqui apenas algumas questões para o cristão tentar responder antes de adotar um discurso de defesa das ideologias políticas.

Mercado e sua regulamentação

Todas  as sociedades modernas concordam que precisamos de algumas leis a fim de evitar a fraude e a injustiça nas transações comerciais. Por exemplo, o governo deve impor o cumprimento de contratos e também determinar alguns padrões de higiene e de segurança na venda de medicamentos, alimentos e outros produtos. O governo deve impor normas de saúde e higiene em restaurantes e controlar o uso de pesos e medidas. O governo também têm autoridade genuína para coletar impostos visando o cumprimento de suas funções. Paulo diz que, pelo fato de a autoridade civil ser “serva de Deu para o teu bem” (Rm 13:4), “pagais impostos; porque [os governantes] são servos de Deus, para atenderem a isso. Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo…” (Rm 13:6,7). Os governos têm o direito moral de cobrar impostos para suas funções legítimas: recompensar o bem e punir o mal e estabelecer a ordem na sociedade, pois Pedro diz que os governadores são enviados “para punir os praticantes do mal e honrar os que fazem o bem” (1Pe 2:14).

No entanto o estado têm, com muita frequência ido muito além dessas funções legítimas. Qual é o limite do Estado?

Vamos verificar alguns pontos sobre o limite do estado e suas funções numa perspectiva bíblica.

  1. O ensino bíblico sobre o papel do estado dá apoio ao livre mercado, não se encontra na bíblia nenhuma ideia de o estado ter direito de tomar a propriedade ou o controle de empresas particulares. A função do estado é punir o mal, recompensar os que fazem o bem (1 Pe 2:13-14) e impor ordem na sociedade. Não creio que o propósito de Deus seja que o estado possua os bens ou as empresas de uma nação. O estado não consegue administrar sequer áreas exclusivas a ele, como evitar fraudes, como pode administrar empresas? (no Brasil temos o exemplo recente da Petrobras).
  2. A bíblia adverte contra o governante que usa seu poder para tomar o que pertence legitimamente ao povo, incluindo seus campos e vinhas (1 Sm 8:10-18). Hoje em nosso país há uma ideia da esquerda que o governo pode simplesmente tomar e distribuir terras.
  3. O ensinamento da bíblia sobre a proteção da propriedade privada indica que a propriedade pertence legitimamente a pessoas, e não ao governo, empresas são uma forma de propriedade (Êx 20:15; Lv 25:10; 1Rs 21:1-29; At5:4).
  4. A ênfase da bíblia no valor da liberdade humana (Êx 20:2; Is 61:1; 1Co 7:21; Gl 5:1) também favorece um sistema de livre mercado que permite às pessoas escolher onde trabalhar, o que comprar , como administrar uma empresa e como gastar seu dinheiro. Uma economia controlada pelo governo, o governo toma as decisões pelas pessoas.
  5. A história mostra repetidas vezes que o livre mercado traz melhores resultados do que uma economia controlada pelo estado.

Desigualdade econômica

A bíblia não pressupõe que os ricos conquistaram sua riqueza por algum meio desonesto. Também não há sugestão alguma de que o estado têm o direito de tomar o dinheiro de pessoas ricas simplesmente porque são ricas.

A ênfase das escrituras está em tratar tantos ricos quanto pobres com equidade e justiça (Êx 23:3,6). Se cometerem erros, devem ser punidos, mas se não cometerem, não devem ser punidos (Pv 17:26; 1Rs2:14). No entanto a riqueza ou a pobreza em si só não indica com precisão o caráter da conduta de alguém na sociedade. Rotular todos os ricos como sendo maus ou provavelmente maus ou pressupor que se tornaram ricos de forma desonesta são atitudes injustas e contrárias ao ensino bíblico.

O que dizer da atitude que afirma que o dinheiro dos ricos deve ser tomado, pois não fará falta pra eles ou porque essa ação não vai prejudicá-los? O ensinamento bíblico é: Não roubarás (Êx 20:15). Não é correto roubar dos pobres nem é correto roubar dos ricos.

Mas será que o estado deve tentar equiparar a quantidade de rendimentos ou bens das pessoas ou realizar ações que caminhem na direção da igualdade?

Existe uma real necessidade de programas sociais apoiados pelo estado para ajudar casos de urgente necessidade. Também é necessário que o estado forneça financiamento suficiente para que todos possam obter habilidades e formação adequadas para que obter o que necessitam. Portanto, no que diz respeito a algumas necessidades básicas da vida (alimentação, vestuário, moradia, ensino, saúde e segurança), é correto o estado “tomar de todos e dar aos pobres”. Isso é apoiado pelo ensino bíblico de que a autoridade civil é serva de Deus para o o bem (Rm 13:4). Certamente buscar o “bem” da sociedade inclui cuidar para que ninguém sofra com a ausência de necessidades básicas como alimentação, vestuário, moradia, ensino, saúde e segurança como também não tenha ausência das habilidades necessárias para prover o próprio sustento. Essa ajuda pode ser dada com recursos de receitas fiscais gerais. No entanto, observe que essas convicções se baseiam no objetivo do governo  de promover o bem-estar geral da sociedade e não em ideia vaga sobre o pressuposto de justiça em reduzir as diferenças entre ricos e pobres.

Além dessas exigências básicas, não encontramos qualquer justificativa para pensar que o governo, como parte da política publica, deva tirar dos ricos para dar aos pobres. Alias, quando em uma sociedade, prejuízos significativos  são causados à economia é causado à sociedade.

De fato, há vezes em que as pessoas são pobres em consequência da opressão ou da injustiça que sofrem ou por causa de uma tragédia ou um infortúnio pessoal. Nesses casos tanto a igreja quanto o governo devem auxiliar essas pessoas, e o governo deve punir a injustiça.

No entanto, com exceção da injustiça e das tragédias pessoais, em uma sociedade livre em que não corre nenhum confisco de bens pelo governo, a quantidade de dinheiro que as pessoas ganham ainda varia muito, porque elas têm habilidades diferentes, interesses diferentes e níveis distintos de ambição econômica. Portanto, se as pessoas estivessem livres da intervenção governamental, algumas se tornarão muito ricas, outras terão uma renda satisfatória e alguns permanecerão relativamente pobres. Se o sistema econômico for relativamente livre, isso de fatos acontecerá. Para termos uma ideia de Brasil quando o assunto é liberdade econômica, O Brasil ocupa a posição 153 (o ranking vai até a posição 180) no Ranking de Liberdade Econômica segundo o site www.heritage.org/index/ranking.

Tente imaginar que por meio de algum tipo de experimento social, todas as pessoas de uma sociedade recebessem inicialmente cem mil Reais em dinheiro, depois de poucas semanas alguns teriam gastado tudo, outros teriam poupado a maior parte e alguns teriam investido grande parte em atividades que geram mais renda. Depois de alguns meses haveria novamente desigualdade significativa. Isso é inevitável enquanto as pessoas puderem ser livres.

Então, como um governo pode obrigar as pessoas a ter quantias iguais de bens? Somente por meio da redistribuição constante de dinheiro, tomando daqueles que foram econômicos e produtivos e dando a muitas outras pessoas, incluindo àquelas que têm sido improdutivas ou têm desperdiçado seu dinheiro. Em outras palavras, a suposta redistribuição de bens que os partidos socialistas querem implantar no Brasil, não pode ser mantida se não penalizar continuamente os bons hábitos e ao mesmo tempo recompensar os maus hábitos. Quanto mais tempo essa política fosse mantida, mais a sociedade cairia em uma espiral de pobreza e desespero. Esse tem sido o resultado inevitável das sociedades comunistas e/ou socialistas.

Isso ocorre da mesma forma, mas em grau menor em situações nas quais a intenção do governo não é equipara os bens, mas as diferenças nos níveis de renda de uma população, isso ocorre sempre mediante sérias restrições à liberdade humana e também prende a maior parte da nação na “igualdade” da pobreza.

Nas chamadas sociedade “igualitárias”, mesmo que as pessoas sejam iguais nos bens de valor econômico, inevitavelmente serão desiguais em relação ao poder político e aos privilégios dados pelo governo. Se a desigualdade econômica é removida, é simplesmente substituída pela desigualdade de privilégios e de grandes benefícios que provêm do poder político elevado. O papel do governo não deve ser equiparar a renda ou os bens das pessoas em uma sociedade.

É correto ajudar os pobres, pois vários versículos das Escrituras ordenam que se faça isso (Rm 15:25,26; Gl 2:10; 1Jo 3:17). No entanto, temos de lembrar que o financiamento de programas de bem-estar social que atendam a necessidades de curto prazo nunca serão uma solução de longo prazo para a pobreza. Se o financiamento de programas sociais se torna a única solução para a pobreza, ele simplesmente tem de ser repetido constantemente, e os beneficiários continuam pobres. A única solução em longo prazo para a pobreza vem quando as pessoas têm habilidades suficientes e disciplina para obter e manter empregos economicamente produtivos.

O governo em si não tem condições de oferecer às pessoas empregos economicamente produtivos (com exceção de alguns empregos bancados com recursos públicos, como os serviços públicos). De longe, o maior número de empregos economicamente produtivos (empregos que contribuem de fato com algo novo de valor para a sociedade) é encontrado no setor privado. Todo negócio bem-sucedido dá Às pessoas empregos economicamente produtivos pelos quais são pagas e, dessa forma, agrega valor à sociedade. A pessoa pobre que trabalha nesse emprego é paga de acordo com o valor agregado e assim começa a sair da pobreza.

Isso deve ocorrer porque Deus deseja que as pessoas sejam economicamente produtivas. Antes de existir qualquer pecado ou mal no mundo, Deus colocou Adão no jardim do Éden “para que […] o cultivasse e guardasse” (Gn 2:15) – trabalho produtivo é parte essencial da forma que Deus nos criou como seres humanos. Por isso,  ao menos em parte, fornece um incentivo ao trabalho regular (Pv 16:26).

Portanto, para aqueles que desejam ajudar os pobres e vencer o problema da pobreza, o seu objetivo principal não deve ser aumentar as benesses do governo, mas oferecer incentivos e condições adequadas para que empresas particulares cresçam e prospere e, consequentemente, criem empregos que serão a única solução em longo prazo para a pobreza e a única maneira de os pobres adquirirem a dignidade e o autorrespeito que são resultado de se sustentarem.

Desse modo, os governos devem incentivar o desenvolvimento e o lucro das empresas. Esse incentivo envolveria um livre mercado, com um sistema funcional de preços para orientar a distribuição de recursos, um sistema monetário estável, a punição efetiva de crimes, a a imposição do cumprimento de contratos e leis de patente e de direitos autorais e, também, a proteção da propriedade privada. Também incluiria um sistema judicial justo, níveis de taxação relativamente baixos, um sistema eficaz de ensino e um sistema bancário confiável. Quando governos implementam esses fatores, as empresas podem crescer, prosperar e criar empregos que por si só tirarão permanentemente as pessoas da pobreza.

Soli Deo gloria

Por que um cristão não pode ser marxista

Um cristão marxista faz tanto sentido quanto uma luz escura em um quadrado redondo. É mais que um paradoxo, é um absurdo. No entanto, em nossa era relativista, onde se busca conciliar o inconciliável, minha afirmação é que parece absurda. Mas não é. É a pura verdade.

Os que se espantam com essa afirmação provavelmente desconhecem não apenas a história do marxismo. Ignoram completamente seus próprios fundamentos, sua real natureza. Se os conhecessem com certeza saberiam que cristianismo e marxismo são tão incompatíveis quanto a luz e as trevas.

Um tempo atrás a incompatibilidade entre ambos era óbvia e este artigo seria desnecessário. Muitos ficariam chocados ao ver cristãos verdadeiros debruçados sobre textos de pensadores marxistas e tentando absorvê-los. Depois da queda do Muro de Berlim alguns acreditam que o marxismo se tornou inofensivo, como se o veneno não fosse mais mortífero somente porque um frasco se quebrou.

Qualquer teologia ou prática cristã que considere positivamente o marxismo devem ser totalmente desconsideradas. Pode-se fazer um paralelo com a crítica de Emil Brunner à Rudolf Bultmann, ambos teólogos alemães:

Heidegger é ateu confesso; ele não admite nenhuma revelação – não entende nenhuma, não necessita de nenhuma e não deixa margem para a existência de nenhuma. Ele [Heidegger] acha risível que Bultman esteja a ‘fazer teologia da minha filosofia’.
Da mesma forma é irônico um cristão aprovar ou justificar o marxismo, que dirá tentar fazer teologia com ele. Como Heidegger, Marx e Engels achariam essa atitude digna de riso. Ame seus inimigos, mas não os confunda com os amigos.
O próprio Emil Brunner, mesmo não sendo um teólogo conservador, conseguia enxergar a real natureza do marxismo e sua incompatibilidade com o cristianismo.

O comunismo demonstra ser ainda o mais tremendo opositor ideológico do cristianismo. O conceito de verdade não desempenha nenhum papel na ideologia comunista, e um poder totalitário qualquer poderá promover a liquidação da teologia.
Na verdade, os marxistas conscientes bem sabem da impossibilidade de conciliação com o cristianismo. Todavia, na busca pelo poder absoluto é preciso fazer concessões até o momento do bote. Uma vez no poder já não será mais necessário cortesias e contenções. A verdadeira natureza se revelará. Como na história do escorpião que atravessou o rio nas costas do sapo prometendo não feri-lo. O picou assim que chegaram do outro lado. Diante da contestação do sapo pela promessa feita, o escorpião disse que não podia evitar. Fazia parte de sua natureza. Quem conhece a natureza da ideologia marxista sabe muito bem que nenhuma promessa amistosa evitará a manifestação de sua natureza real que é plenamente anticristã.
Pensemos na afirmação de Hitler com relação à Igreja:

O fascismo pode, se quiser, concluir sua paz com a Igreja. Também eu o faria. E por que não? Isto não me impedirá de extirpar o cristianismo da Alemanha.

Nunca foi diferente com o comunismo. Falsas alianças com o cristianismo precederam a perseguição. Faz parte de sua natureza.

Como eu disse, há algumas décadas esse artigo seria totalmente desnecessário. Quem leu Torturado por amor a Cristo, do pastor romeno Richard Wurbrandt ou O contrabandista de Deus, do irmão André, sabia o que era o comunismo. Contra toda esperança, do cubano Armando Valadares, livro que denunciava a tirania do governo Castro deixou de circular, enquanto o mesmo governo, com todo seu totalitarismo marxista continua de pé. Naqueles tempos, o mais simples cristão sabia que o marxismo-socialismo-comunismo era do mal e completo inimigo do cristianismo. Isso foi em outras épocas. Agora tudo mudou. Hoje este artigo tornou-se urgente. Os marxistas já estão quase terminando de atravessar o rio nas costas dos cristãos e muito em breve o bote certeiro virá.

Aqueles que procuram aceitar o marxismo alegando que ele contém “elementos cristãos” (como a crítica à injustiça social, por exemplo) deveriam então abraçar o islamismo uma vez que este confirma certas crenças bíblicas (como a ressurreição, por exemplo). No entanto, é tão impossível conciliar marxismo com o cristianismo quanto igualar um cristão verdadeiro e um muçulmano. Nenhum ecumenismo ingênuo pode fazê-los amigos, nenhum malabarismo teológico ou filosófico pode torná-los semelhantes em qualquer sentido.

Cristão marxista? Tão real quanto um fogo gelado emanando de uma luz escura.


Autor: Eguinaldo Hélio Souza

Não julgueis! Será mesmo?

É no mínimo uma incoerência intelectual sustentar um discurso como esse no cotidiano da vida. O ser humano atualmente não pode mais ser contestado ou corrigido, a razão para isso é o fato de que temos de amar ao invés de julgar. Diante disso, a pergunta que fica no ar é a seguinte: não existe amor em meio à correção? Discernir, julgar, tomar decisões, escolher entre um caminho e outro, uma opção e outra, corrigir, retomar, rejeitar, são atitudes inerentes à vida, fazem parte do desafio de existir desde quando o mundo é mundo. Estão querendo, então, pintar uma realidade em que o discernimento entre o bom e o ruim, o justo e o injusto, é algo dispensável e desprezível? Estão querendo que rasguemos nosso senso crítico como uma folha de papel rascunho e o atiremos na lata do lixo? Como assim? Negar isso é privar o ser humano da construção sadia da sua própria personalidade e de seus próprios valores, negar esse processo crítico inerente ao ser humano e todas as suas implicações seria o cúmulo da relativização. Se formos privados do direito e, por que não, do dever de julgar, cairemos num completo suicídio existencial, pense comigo, como poderiam se sustentar as relações e a convivência humana diante de tal quadro?

 

Temos fortes sinais deste tipo de pensamento, que é chamado de liberalismo moral, já presentes no seio da sociedade atual. Impunidade escancarada, multiculturalismo em prol do “bem comum”, relativização de inúmeros valores inegociáveis pela sociedade até então, flerte, pelo menos no ocidente, com a legalização de práticas como o aborto, zoofilia, pedofilia, canibalismo, e a máxima “o corpo é meu faço dele o que eu quiser” proclamada aos quatro cantos, gostem ou não. Tudo em nome da liberdade e da autonomia do ser humano. A mentira da vez é que o ser humano é livre, mesmo sendo claramente, escravo de suas próprias vontades, por mais bizarras que elas sejam. Não existe mais errado, tudo é relativo, cada um constrói a sua verdade e ninguém mais julga ninguém. Pergunta honesta: qual pessoa com o mínimo de senso crítico realmente acredita num discurso como esse? Então, quer dizer que todas estas pessoas que exigem que se pare com julgamentos também não julgam mais nada e ninguém? Isso não faz sentido! Estamos sendo imbecilizados, estão querendo impor sobre nós um consciente coletivo onde todo mundo deve pensar dentro de uma determinada caixa que abrange certas ideologias e aquele que não o fizer, automaticamente é considerado fundamentalista, retrógrado, mente fechada, ridículo, burro, ignorante, ditador e por aí vai. Querem nos tirar a capacidade de entender e discernir a realidade até o ponto que nos transformemos em seres de pensamento acrítico.

Deixar de exercer juízo sobre as pessoas e seus comportamentos em sociedade é escancarar as portas para que em pouquíssimo tempo coisas que hoje, ainda, são absolutos inquestionáveis tornem-se questionáveis, combatidos e vencidos. Imagine dentro de poucos anos, pedófilos com aval da sociedade para agirem livremente, como já tem sido amplamente discutido em países como Estados Unidos e Inglaterra. Ou então que o canibalismo seja legalizado mediante consenso mútuo dos envolvidos. O que você pensaria? Ah não! Vamos com calma, não podemos julgar! Percebem onde isso pode parar? Se o ser humano excluiu Deus de sua agenda e trabalha numa velocidade cada vez maior para extinguir todos os valores judaico-cristãos extraídos da Escritura Sagrada que ajudaram a construir toda a moral e ética do ocidente, o que vai nos restar? Qual balança iremos usar? A qual absoluto iremos recorrer? Gente, se cada um tem a sua verdade, pensa o que quer, faz o que quer, se não existe absoluto moral algum porque ninguém pode julgar ninguém em nome do amor, quem poderá falar com propriedade sobre o que é certo ou errado? Não existe autoridade. A alegação de um pedófilo será, por exemplo, que se envolver sexualmente com uma criança é uma forma que ele tem de demonstrar amor por ela. Se tudo é relativo e cada um tem sua verdade, quem, legitimamente, poderá contestar o argumento deste homem? Conseguem compreender que se aprofundarmos um pouco mais as implicações desse discurso politicamente correto no cotidiano da vida podemos estar comprometendo a nossa ordem como humanidade? Onde vamos parar?

Obviamente, esse texto não tem por objetivo esgotar a discussão, mas o argumento que o ser humano é autônomo e pode fazer o que quiser, contanto que não desrespeite a existência do outro é perigosíssimo. O ser humano não é autônomo, antes, é formado por inúmeros fatores que o afetam desde criança; família, ambientes, crenças, sejam religiosas ou não, atividades, criação, escolaridade, tudo isso compõe uma gama enorme de influências sobre a mente de um indivíduo. O ser humano não pode conceber sua existência como uma ilha, esse argumento é falho, fomos criados para viver em comunidade, tudo que fizermos reverberará direta ou indiretamente no nosso próximo. Amigos, o que seria do “eu” sem o “tu”? Em última instância, não estaríamos nem aqui, não haveria raça humana. O indivíduo achar que aquilo que ele faz, seja de bom ou de ruim, repercute apenas e exclusivamente nele mesmo é, no mínimo, inocência.

Por tudo isso, o exercício do discernimento e do julgamento tão combatido atualmente, é e sempre foi fundamental para o bom andamento da convivência e da ordem das coisas. No entanto, a ideia aplaudida e reverenciada nos dias atuais é o franco combate ao ato de se julgar, esta ideia, na grande maioria das vezes, tem sido fundamentada erradamente sobre os ensinos de Cristo registrados na Escritura Sagrada, e a este ponto gostaria de me dedicar neste momento. Vejamos o principal texto utilizado para sustentar essa posição:

Não julguem os outros para vocês não serem julgados por Deus. Porque Deus julgará vocês do mesmo modo que vocês julgarem os outros e usará com vocês a mesma medida que vocês usarem para medir os outros. Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: “Me deixe tirar esse cisco do seu olho”, quando você está com uma trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão. (Mt 7.1-5 NTLH)

Claro que a prática de se julgar indiscriminada e levianamente é combatida de forma contundente por Cristo! Isso é óbvio! Nós como seres humanos falhos, temos de nos policiar em todo o tempo, pois, para nós é natural criticar e denegrir o outro com muito mais facilidade do que a nós mesmos. Esse posicionamento é desprezível e aquele que age assim é chamado pelo próprio Cristo de “hipócrita”. O julgamento hipócrita é feito por aqueles que não têm autoridade alguma para julgar o assunto que estiver em questão. O ensinamento de Cristo nesse caso é “tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão”. Notem que ele diz “tire a trave do olho para que, então, esteja apto para tirar o cisco do olho do seu irmão”. Jesus não condena o ato de tirar o cisco do olho do irmão, e sim, a atitude hipócrita, desprovida de amor, de condenar alguém sem que tenhamos autoridade alguma para fazê-lo.

O julgamento cristão nunca deve ser desprovido de compaixão e amor por aquele que está sendo julgado. O próprio Deus “corrige a quem ele ama e castiga a quem ele aceita como filho” (Hb 12.6-7). Dizer que Jesus condena todo e qualquer julgamento é infantilidade mimada de quem busca um espaço inexistente nos ensinos bíblicos para avalizar suas práticas erradas. O próprio Cristo combate a postura infantil dos judeus de sua época e ordena: “julguem segundo a reta justiça”, leiam João 7 e tirem suas próprias conclusões. O mesmo Jesus que diz “não julgueis”, agora diz “julgai segundo a reta justiça”? Está Cristo se contradizendo ou somos nós que não estamos o entendendo? Fico com a última resposta. Basta uma busca honesta e corajosa pela Escritura e veremos que somos ordenados a combater falsos mestres, falsos ensinos, dominar, administrar e sujeitar a terra como bons mordomos, trata-se de uma tarefa grandiosa e para cumprimos estas coisas julgar é e sempre será imprescindível.

Com esse discurso politicamente correto de “não julgueis” estamos barateando o sacrifício de Jesus Cristo na cruz do calvário, como se todo seu sofrimento e morte fossem o passe-livre que precisávamos para viver uma vida promíscua e despreocupada com a santidade. As vezes tenho a impressão que em certas ocasiões a expressão “não julgueis” significa muito mais um “deixe-me pecar em paz” do que qualquer outra coisa. Sinceramente, esse pensamento me assusta. Todo o plano de Deus não é e nunca foi sacrificar o seu Filho para que o homem pudesse ficar livre e tranquilo para praticar seus pecados sentido-se perdoado, não! Deus penalizou-se a si mesmo, matando seu Filho amado, para que pudéssemos, enfim, nos livrar do jugo do pecado! Por mais formoso que possa parecer aos nossos olhos, o pecado é mau e nos afasta de Deus. Parece que estamos tentando arrumar uma desculpa para trilhar exatamente o caminho oposto. O ser humano é pecador e vai cair, sim! Vai pecar, sim! E justamente nesta hora temos de ser ainda mais amorosos e gentis com aquele que cai, estendo-lhe mãos de socorro, perdão e correção. No entanto, não é porque temos de ser amorosos, que faremos vistas grossas e seremos condescendentes com o erro. Se você quer saber o quanto o pecado é detestável para Deus, olhe para a cruz, veja o que Ele fez Cristo, seu Único Filho, padecer por causa do seu e do meu pecado! Se você quer saber o quanto Deus ama o ser humano e quer que ele se livre do salário do pecado, olhe para cruz! A cruz é o cenário mais estonteante da história!

Muitos pregam o maravilhoso evangelho do “eu também não a condeno” de João 8.11, mas, se esquecem de pregar o não menos maravilhoso evangelho do “agora vá e abandone sua vida de pecado” do mesmo João 8.11. É preciso entender que esta segunda afirmação também é carregada de amor, bondade e cuidado de Deus. Cristo só pôde dizer àquela mulher “eu também não a condeno” porque sabia que muito em breve ele padeceria horrores numa cruz em pagamento dos pecados dela, alguém teria de pagar aquela conta. O Filho de Deus ofereceu sacrifício alto demais para que vivamos conformados à lama do pecado. É importante refletir que na grande maioria das vezes crescemos e aprendemos muito mais com as dificuldades e tempestades da vida do que com os momentos de bonança. Correção é dádiva! Seguir a Cristo implica em constante luta contra nossa natureza pecaminosa. Foi sempre assim, o apóstolo Paulo já dizia aos coríntios: “esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado”. Vejo muita gente falando por aí que Deus é amor, mas quase ninguém dizendo com a mesma ênfase que Ele também é santo, do mesmo jeito e na mesma essência. Permitam-me uma ousadia teológica, se fôssemos examinar ao longo de toda Escritura, o único atributo de Deus que é repetido três vezes é o atributo de sua santidade. Em nenhum lugar vemos Deus sendo chamado de justo, justo, justo, ou, amor, amor, amor. Servimos a um Deus que é Santo, Santo, Santo e seu amor não existe e nunca existiu em detrimento de sua santidade. Portanto, por mais dolorido que seja, que nos alegremos nos momentos em que formos julgados “segundo a reta justiça”, este será sempre um grande sinal de que Deus nos ama e quer o melhor para nós. Que combatamos sim, em nosso meio, a prática leviana do julgamento hipócrita, desprovido de amor que não aponta para glória de Deus e para recuperação do próximo, tal comportamento deve ser banido do nosso coração e da nossa prática. Mas, que também nos posicionemos de modo a trazer maior lucidez e coragem para este tema que tem sido grosseiramente manipulado em detrimento de interesses que não atendem em absoluto a agenda do Reino de Deus. Que não transformemos o evangelho do Cristo Bendito em uma ideologia barata, ou numa espiritualidade a la carte onde cada um se serve daquilo que bem entende e julga ser correto e mais confortável para si.

Aliás, já perceberam que todos nós julgamos todo mundo e todas as coisas o tempo todo, e exigir que alguém pare de julgar é uma contradição lógica e ao mesmo tempo uma hipocrisia? Que tenhamos maior profundidade, coragem e maturidade em encarar as questões sérias que compõem a nossa realidade, sempre em amor, para glória de Deus e zelosos pelo próximo. As vezes é bem difícil, mas nunca foi tão necessário.

Soli Deo gloria
Pr. Franco Júnior

5 Razões Porque Adolescentes Precisam de Teologia

O mundo pode ser realmente confuso para os adolescentes. Estamos nos aproximando de um cenário de mudança moral, onde os desafios mais urgentes e críticas mais altas da cultura estão sempre mudando e perpetuamente em conflito. Vemos escândalos e comentários, Trump e o terrorismo, nova ética sexual e tensões raciais duras, e nós queremos saber: como vamos pensar sobre tudo isso?

A sociedade secular joga suas próprias respostas em nosso caminho, mas elas nunca são compatíveis com uma cosmovisão cristã. Eu vejo uma ferramenta melhor para atender às questões dos adolescentes seguidores de Jesus como eu: teologia.

Por que teologia para adolescentes?

Tenho certeza que você sabe o que a teologia é. Mas às vezes as pessoas têm essas concepções variadas e experimentais do significados de um palavra que obscurece sua definição simples. Eu quero que você saiba que eu estou falando sobre a definição mais clara da teologia que existe: o estudo de Deus.

Como uma adolescentes seguidora de Jesus, eu acredito que estudar o caráter de Deus é o que os adolescentes precisam, a fim de enfrentarem nosso mundo terrivelmente complicado. É o que nos dará esperança duradoura para enfrentar o nosso futuro com um firme compromisso com a verdade de Deus.

Deixe-me explicar como a teologia responde às nossas maiores questões e satisfaz as nossas maiores necessidades. Claro, isso é apenas um breve começo, mas nos permite começar.

Estudar a justiça de Deus nos equipa para fazer o que é certo.

Na Palavra de Deus, descobrimos que Deus odeia o mal (Zech. 8: 16-17) e ama a verdade. Ele se preocupa com os oprimidos e marginalizados e valoriza toda a vida.

Conhecer esse caráter de Deus dá aos adolescentes o direcionamento para se preocuparem com a justiça também. Ele nos impulsiona a levantar-se pelos oprimidos e sem voz e falar contra a injustiça que vemos. Ele nos mostra a importância de se submeter as autoridades dadas por Deus – nossos pais, pastores, professores e o governo. E isso alimenta a nossa obediência à Palavra de Deus como o padrão último da justiça.

Estudar o amor de Deus nos dá fundamento para todos os nossos relacionamentos.

Deus ama o seu povo incondicionalmente (Ne 1:. 5; João 16:27). Ele não mostra favoritismo e seu amor nunca é egoísta. Também não pode ser parado ou esgotado, pois é não meritório e imerecido.

Conhecer esse caráter de Deus compele adolescentes a amar os outros por causa do amor de Deus por nós. Ele nos compele a amar aqueles que são mais difíceis de amar (em todo o caminho, desde o ISIS até os valentões na escola) enquanto continuamos odiando nosso próprio pecado. Ele nos obriga a lutar contra o racismo, o sexismo e qualquer outro ismo que mina o valor inerente de cada ser humano. Ele nos obriga a abraçar a compaixão e misericórdia.

Estudar a santidade de Deus revela quem somos e qual o nosso propósito.

Uma vez que ele é supremamente perfeito e totalmente definido para além de nós (2 Sm. 22:31), Deus odeia o pecado (Amós 6: 8). Compreender a beleza da sua santidade ajuda os adolescentes a entender o nosso próprio pecado e a necessidade de persistentemente guerrear contra ele. Isso nos dá uma perspectiva mais bíblica e realista do mundo. Leva-nos a arrepender-se do pecado em nossas próprias vidas e buscar a uma prestação de contas com os mais velhos e mais sábios. Isso demonstra para nós como perseguir ativamente a santidade – nas mídia sociais, na escola, no trabalho, com os pais, amigos e em todas as esferas da vida.

Estudar a soberania de Deus nos dá respostas em meio a confusão cultural.

Deus não é caótico, caprichoso, ou imprevisível; ele está no controle perfeito do universo (Atos 2:23). Conhecer esse atributo de Deus guarda adolescentes do crescimento desanimado no mundo. Quando a política parece sem esperança, terroristas atacam ou tiramos uma nota injusta, os adolescentes podem se contentar em nossas circunstâncias porque Deus reina. Quando perguntamos “Por que isso está acontecendo comigo?” Ou “Será que Deus sequer se preocupam com a minha vida?” Sua soberania é a nossa resposta. C. S. Lewis explicou bem este ponto:

“Eu sei agora, Senhor, porque você não profere nenhuma resposta. Tu mesmo é a resposta. Diante do teu rosto perguntas desaparecem. Que outra resposta seria suficiente?”

Estudar a bondade de Deus nos dá conforto em nossa dor.

Deus não é mesquinho. Ele não é um estraga prazeres brincando com nossas vidas como um jogo de tabuleiro cruel (Marcos 10:18). Ele é completamente bom, infalivelmente amável e sempre fazendo o que é certo e melhor para nós.

Conhecer esse caráter de Deus dá aos adolescentes uma base sólida de fé em meio ao sofrimento. Os adolescentes podem ter paz sobre nossos futuros desconhecidos. Podemos ter certeza da nossa salvação e combater as pressões da dúvida. Podemos confiar em Deus nas dificuldades cotidianas, problemas e fracassos da vida com a certeza inabalável de sua bondade.

Ensina-nos o que precisamos.

Eu tenho 18 anos. Estudei e fui ensinada teologia toda a minha vida. Ela me deu muitas coisas: um relacionamento mais rico com Deus; uma relação mais forte e mais submissa com os meus pais; uma relação mais exigente com os meus amigos; uma abordagem mais edificante aos meios de comunicação social; um desejo zeloso fazer o meu melhor na escola; uma cosmovisão bíblica; uma visão maior para o meu futuro; e uma paixão maior para seguir a Deus independente de qualquer coisa.

Eu quero essa vida para cada adolescente, e eu acho que você também. Assim, pais, pastores, líderes de jovens, membros da igreja, por favor, nos ensinem teologia. Mais do que tudo, precisamos conhecer a Deus. Ele é a resposta para nossas perguntas, a solução para os nossos problemas e o único digno de nossa adoração e confiança.

Nós precisamos dele, o que significa que precisamos ser ensinados sobre ele. O que significa que precisamos de teologia.

Jaquelle Crowe


Nota:

Post Original: 5 Reasons Why Teenagers Need Theology

Escravos voluntários do estado assistencialista – C. S. Lewis

Progresso [1] significa movimento em direção desejada, e nós não temos todos os mesmos desejos para nossa espécie. Em Possible Worlds (Mundos possíveis),[2] o professor Haldane criou um futuro em que o homem, prevendo que a Terra logo se tornaria inabitável, adaptou-se para migrar para Vênus modificando drasticamente sua fisiologia e abandonando a justiça, a piedade e a felicidade. O desejo limita-se à sobrevivência. Bem, eu me preocupo muito mais com como a humanidade vive do que com por quanto tempo. Para mim, progresso significa aumentar a bondade e a felicidade em cada indivíduo. Parece-me que para a espécie, assim como para cada homem, a simples longevidade é um ideal desprezível.

Por isso, avanço mais do que C. P. Snow em remover a bomba H do centro do cenário. Como ele, não sei se, caso ela matasse um terço de nós (o terço a que pertenço), isso seria ruim para os remanescentes. Como ele, não penso que morreremos todos. Mas e se morressem? Sendo cristão, tenho certeza de que a história humana terá fim algum dia, e não cabe a mim aconselhar o Onisciente quanto à melhor data para terminar a obra. Preocupo-me mais com o que a bomba já vem fazendo.

Há jovens que tomam a ameaça como razão para envenenar todos os prazeres e escapar de todas as obrigações do presente. Será que não sabem que, com bomba ou sem ela, todos morrem (e muitos de formas horrorosas)? Não adianta chorar e se lamentar por isso.

Tendo removido o que considero um obstáculo, volto à questão real. As pessoas estão se tornando, ou é provável que se tornem, melhores ou mais felizes? Obviamente, a resposta é apenas uma conjectura. A maior parte das experiências individuais (e não existe outro tipo) jamais chega aos noticiários e muito menos aos livros de história. A pessoa tem noção imperfeita até dela mesma. Estamos reduzidos a generalidades e, mesmo assim, é difícil encontrar um equilíbrio. Sir Charles enumerou muitos avanços reais. E contra eles precisamos apresentar Hiroshima, Black and Tans,[3] Gestapo, Ogpu,[4] lavagem cerebral, campos de serviços forçados na Rússia. Talvez sejamos mais bondosos com as crianças; mas, aí, pioramos no trato dos idosos. Qualquer médico pode testemunhar que até os ricos se recusam a cuidar dos pais. “Será que não podemos colocá-los em algum tipo de Lar?”, indagou Goneril.[5]

Creio que mais útil do que tentar encontrar equilíbrio é lembrar que a maioria desses fenômenos, bons ou maus, se torna possível por dois fatores que, provavelmente, determinarão a maioria dos acontecimentos durante algum tempo.

O primeiro é o avanço e a crescente aplicação da ciência. Como meio para o fim que se busca ela é neutra. Seremos capazes de curar, e de produzir, mais doenças – guerra bacteriológica e não as bombas talvez façam descer a cortina final –, de aliviar e infligir mais dores, de poupar, ou desperdiçar, os recursos dos planetas de forma mais ampla. Podemos nos tornar mais bondosos ou mais perniciosos. Penso que faremos as duas coisas, consertando uma e estragando a outra, removendo antigos sofrimentos e produzindo outros, protegendo-nos em um lugar e nos colocando em risco em outro.

O segundo é a relação modificada entre governo e súditos. Sir Charles menciona nossa nova atitude perante o crime. Menciono os trens lotados de judeus entregues às câmaras de gás alemãs. Parece chocante sugerir um elemento em comum, mas penso que existe. Segundo a visão humanitária, todo crime é patológico e requer não punição retributiva, mas, sim, cura. Isso afasta o tratamento do criminoso dos conceitos de justiça e de retribuição. “Simples cura” não tem sentido.

Na antiga visão da opinião pública, poderia haver protesto contra uma punição (houve protesto contra nosso antigo código penal), considerando-a excessiva, mais do que o homem “merecia”, questão ética em que qualquer pessoa podia ter opinião. No entanto, o tratamento como remédio só pode ser julgado pela probabilidade de sucesso, questão técnica em que apenas os especialistas podem se pronunciar. Com isso, o criminoso deixa de ser pessoa dotada de direitos e de deveres, e se torna simples objeto em que a sociedade pode trabalhar. E, em princípio, foi isso que Hitler fez com os judeus. Eles não passavam de objetos, mortos não por retribuição errada, mas porque, na teoria dele, eram uma doença na sociedade. Se a sociedade pode consertar, refazer e desfazer os homens segundo sua vontade, essa vontade pode ser, claro, humana ou homicida. A diferença é importante. De qualquer forma, entretanto, os governantes se tornaram proprietários.

Observe como a atitude “humana” diante do crime poderia operar. Se os crimes são doenças, por que as doenças seriam tratadas de modo diverso dos crimes? E quem, a não ser os especialistas, podem definir doenças? Uma escola da psicologia considera minha religião uma neurose. Se essa neurose um dia se tornar inconveniente para o governo, nada impediria que eu passasse por uma “cura” compulsória. Pode ser doloroso; algumas vezes os tratamentos o são. Mas não adiantará perguntar o que fez para merecer isso. O Encarregado da Correção responderá: “Mas, meu caro, ninguém está te acusando. Não acreditamos mais na justiça de retribuição. Estamos te curando”.

Isso seria nada mais do que aplicação extrema da filosofia política implícita na maioria das comunidades modernas. Tem nos minado sem que percebamos. Duas guerras implicaram vasta restrição da liberdade, e nos acostumamos, embora resmungando, com nossas cadeias. A complexidade cada vez maior e a precariedade de nossa vida econômica forçaram o governo a assumir muitas esferas de atividade que antes eram deixadas sem controle. Nossos intelectuais se renderam primeiro à filosofia escravizante de Hegel, depois à de Marx e, por fim, aos analistas da linguística.

Como resultado, a teoria política clássica, com seus conceitos-chave estoicos, cristãos e jurídicos (lei natural, valor do indivíduo, direitos do homem), morreu. O Estado moderno não existe para proteger nossos direitos, mas para fazer o bem para nós ou nos tornar bons – de qualquer forma, para fazer algo para nós ou nos levar a fazer algo. Com o novo nome de “líderes” para aqueles que antes eram “governantes”, não somos súditos, mas, sim, guardas, alunos e animais domésticos. Não há nada em que possamos dizer a eles: “Isso é problema meu”. Toda nossa vida é problema deles.

Escrevo “eles” porque me parece infantilidade não reconhecer que o governo é e sempre será oligárquico. Nossos senhores efetivos são mais do que um e menos do que todos. Os oligarcas, porém, começam a nos ver de nova maneira.

Penso que aqui reside nosso verdadeiro dilema. É provável que não poderemos, e com certeza não o faremos, percorrer de volta nosso caminho. Somos animais domados (uns por senhores bondosos, outros por donos cruéis) e, provavelmente, morreríamos de fome se saíssemos de nossa jaula. Essa é uma parte do dilema. Em uma sociedade cada vez mais planejada, quanto do que valorizo pode sobreviver? Essa é a outra parte do dilema.

Creio que o homem é mais feliz, e de um modo mais profundo, se possui “a mente que nasceu livre”. Contudo, duvido que isso seja possível sem independência econômica, que a nova sociedade tem abolido. A independência econômica permite educação sem o controle do governo. Na vida adulta é o homem que não precisa, nem pede nada ao governo a quem pode criticar e apontar o dedo para a ideologia. Leia Montaigne; é a voz de um homem sentado à sua mesa, comendo o carneiro e o nabo produzidos em sua própria terra. Ninguém fala como ele tendo o Estado como professor e empregador? Admito que, quando o homem era indomado, essa liberdade pertencia a poucos. Eu sei. Daí a terrível suspeita de que temos que escolher entre sociedades com poucos livres e sociedades sem nenhum livre.

Repito, a nova oligarquia precisa, cada vez mais, basear sua alegação de planejar para nós em sua afirmativa de conhecimento. Se é para termos mãe, a mãe deve saber o que é melhor para nós. Isso significa que precisam confiar cada vez mais nos conselhos dos cientistas, até que os políticos também se tornem meros fantoches dos cientistas. A tecnocracia é a forma para a qual a sociedade planejada deve tender. Temo os especialistas em poder porque sabem falar sobre outros assuntos que não a sua especialidade. Que os cientistas falem sobre ciências, mas o governo envolve questões sobre o bem da pessoa, a justiça, e o que vale a pena ter, a que preço. Nesses assuntos, o treinamento científico não acrescenta qualquer valor à opinião do homem. Que o médico me diga que, se eu não tomar determinadas atitudes, morrerei em certo prazo, mas decidir se vale a pena viver nesses termos não é questão que ele seja mais capaz de responder do que qualquer outra pessoa.

Em terceiro lugar, não gosto que as pretensões do governo – o fundamento para exigir minha obediência – sejam muito elevadas. Não gosto de pretensões mágicas dos médicos nem do Direito Divino do Bourbon. Isso não é apenas porque não acredito em mágica e na Politique [6]de Bousset. Creio em Deus, mas detesto a teocracia. Todo governo consiste apenas em homens e, numa visão estrita, é um paliativo. Caso acrescente aos comandos “Assim diz o Senhor”, está mentindo, e essa mentira é perigosa.

Por esse mesmo motivo, temo o governo em nome da ciência. É assim que a tirania se intromete. Em cada era, os homens que nos querem sob seu domínio usarão a pretensão específica que as esperanças e os temores de cada era mostrarem ser mais potentes. Eles “capitalizam.” Já foi magia, cristianismo. Agora, com certeza, será a ciência. Talvez os verdadeiros cientistas não levem muito a sério a “ciência” dos tiranos – não levavam a sério as teorias raciais de Hitler nem a biologia de Stalin. No entanto, eles podem ser calados.

Precisamos dar atenção ao alerta de Sir Charles – no Oriente, milhões estão morrendo de fome. Esses considerariam meus temores muito desprezíveis. O faminto pensa em comida e não em liberdade. Precisamos dar toda atenção à afirmativa de que apenas a ciência, aplicada por todo o globo, e, portanto, sem precedente de controle governamental, pode resultar em estômagos saciados e assistência médica para toda a raça humana. Nada, em suma, além de um mundo com Estado assistencialista. É a plena aceitação dessas verdades que me alerta para o perigo extremo que a humanidade corre no presente.

Temos, por um lado, necessidade desesperada: fome, doença e medo da guerra. Por outro lado, temos o conceito de algo que poderia resolver o problema: tecnocracia global e supercompetente. Não são as oportunidades ideais para a escravidão? Foi assim que aconteceu antes: uma necessidade extrema (real ou aparente) de um lado e o poder (real ou aparente) de aliviá-la do outro. No mundo antigo, os homens se vendiam como escravos para conseguir comer. O mesmo acontece na sociedade. Eis o curandeiro que pode nos livrar do feiticeiro – o guerreiro que nos salva dos bárbaros –, a Igreja que nos salva do inferno. Dê a eles o que querem, entregue-se a eles amarrado e vendado, se eles o quiserem! Talvez a barganha terrível aconteça de novo. Não podemos culpar os homens por aceitarem. Mas conseguimos desejar que não o façam. Mas também mal podemos suportar que aceitem.

A questão sobre o progresso se tornou a questão sobre a possibilidade de descobrirmos uma forma de nos submeter ao paternalismo mundial da tecnocracia sem perder toda a privacidade e independência. Há algum jeito de conseguir o mel do Estado assistencialista sem ser picado?

Não nos enganemos quanto ao ferrão. A tristeza sueca é apenas um prelúdio. Viver como acha melhor, chamar sua casa de seu castelo, desfrutar dos frutos de seu trabalho, educar os filhos como achar melhor, poupar para a prosperidade dos filhos depois de sua morte – esses são desejos profundamente entranhados no homem branco e civilizado. Realizá-los é quase tão necessário para nossas virtudes quanto para nossa felicidade. Se forem frustrados, podem ocorrer problemas psicológicos e morais.

Tudo isso nos ameaça, inclusive se a forma de sociedade para a qual a nossa aponta se mostra um sucesso sem precedentes. Mas isso é certo? Que segurança temos de que nossos mestres manterão, ou serão capazes de manter, a promessa que nos levou a nos vendermos? Não nos enganemos com frases como “Homem tomando seu destino nas mãos”. O que pode acontecer é apenas que alguns homens tomarão nas mãos o destino dos outros. Serão apenas homens, imperfeitos, alguns gananciosos, cruéis e desonestos. Quanto mais planejarmos, mais poderosos serão eles. Será que já descobrimos novas razões por que, desta vez, o poder não corromperá como antes?


NOTAS:

1. Da Revolução Francesa até o início da I Guerra Mundial, em 1914, presumia-se que o progresso humano era não apenas possível, mas também inevitável. Desde então, duas guerras terríveis e a descoberta da bomba de hidrogênio levaram os homens a questionar a pressuposição. The Observer convidou cinco escritores renomados a responderem às seguintes questões: “O homem está progredindo hoje?”, “O progresso é possível?”. Este artigo, o segundo de uma série, responde ao artigo de abertura de C. P. Snow, “Man in Society”. The Observer, 13 de julho de 1958.

2. Ensaio incluído em Possible Worlds and Other Essays, de J. B. S. Haldane (Londres, 1927). Ver também “The Last Judgement”, no mesmo livro.

3. Grupo de ex-combatentes irlandeses, organizado para acabar com revoltas em 1920 e 1921. (N.E.)

4. Polícia secreta na União Soviética nos anos 1920. (N.E.)

5. Em Rei Lear, de Shakespeare.

6. Jacques Bénigne Bossuet, Politique tirée des propres de l’Ecriture-Sainte (Paris, 1709).

Fonte: Ética Para Viver Melhor – C. S. Lewis

Retirado do site: blog.livrosconservadores.com.br/escravos-voluntarios-do-estado-assistencialista-c-s-lewis/